Como a matemática do custo por uso pode te ajudar a comprar menos e melhor

Eu lembro bem da primeira vez que comecei a pensar na lógica do custo por uso na minha vida: foi em 2009, quando eu era guia pra Orlando. Consequentemente, visitava outlets e shoppings a cada 6 meses numa época em que a cotação dólar x real permitia fazer várias comprinhas por temporada. Na época, nem se pensava em ter Forever 21 no Brasil, e a ideia de comprar várias brusinhas por preços baixíssimos (estamos falando de no máximo US$5 numa época em que a cotação do dólar turismo ficava entre R$1,70 e R$2,40) era muito atrativa para uma pessoa de 19 anos que estava na faculdade (da graduação ao mestrado) e queria fazer render ao máximo o dinheirinho que ganhava. Até então, eu achava que fazer render o meu dinheirinho era comprar muitas peças de roupas diferentes.

Eis que em 2009 eu comprei muito mais do que brusinhas na Forever 21 (tô usando Forever 21 como exemplo principal porque era a mais baratinha de todas, mas isso valia também pra H&M e até Abercrombie/Hollister, que bombavam na minha época de jovem): em seguida do meu grupo de julho, eu viria para a Suíça(!) pela primeira vez, participar de uma semana de simulações dos comitês da Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Genebra. Com isso, eu olhei a forevinha de outro jeito, comprando brusinhas sim porém tentando também fazer alguns achados que eu pudesse aproveitar nos looks formais nessa semana que eu passaria na ONU. Só que aí a American Airlines não colocou as malas do nosso grupo no nosso voo (sério, t-o-d-o-s chegamos no Brasil sem a bagagem que tínhamos despachado), e eu fiquei de mãos abanando, já que meu voo pra Genebra era, literalmente, no dia seguinte, e as malas não chegariam a tempo.

Ou seja: eu tinha enchido UMA MALA INTEIRA de coisas da forevinha que simplesmente não chegaram em tempo de cumprir o seu propósito principal, e ainda tive que sair correndo pra comprar roupas pra viajar no dia seguinte – sem contar que tive que comprar mala também. Sem contar que eu coloquei os cabos e fonte da minha câmera digital novinha na mala despachada e tive que viajar pra zoropa com uma câmera mais velha. Desde então, eu nunca na minha vida mais despachei nem um único cabo/fonte.

Corta pra quando eu cheguei de volta em Niterói depois de 2 semanas entre Genebra e Paris (essa foi a minha primeira viagem pra Europa e eu literalmente implorei pra minha mãe pra eu passar uns dias em Paris, mesmo sozinha, mesmo pegando dia dos pais e aniversário da Mivó, e ela deixou). Abri as malas que vieram de Orlando, e aquele monte de roupa que eu comprei na forevinha simplesmente não fazia sentido pra mim. Eu lembro que, enquanto eu fazia essas compras, desde antes de virar guia, eu me convencia de que valia a pena porque eu chegaria no Brasil com um armário completo pra nova estação e não precisaria comprar mais n-a-d-a nas lojas brasileiras (pense em Farm, Dress To, Cantão, Maria Filó, Animale, etc). Veja bem, era um bom argumento, bastante convincente. Só que aí era só sair coleção nova que eu já tava lá, conferindo as novas estampas, as novidadinhas, gastando minha mesada/bolsa de estudos todinha naquelas roupas que também acabariam vivendo por pouco tempo no meu armário – afinal de contas, pra tudo que entrava, alguma coisa tinha que sair.

Foi justamente nesse período que o conceito de custo por uso começou a ser formulado. Ao ver as notas de compras na forevinha, que eu sempre guardava, eu notei que a soma de todas aquelas brusinhas dava pra comprar uma bolsa de luxo. Imagina a ficha caindo?! Eu fiquei pasma: quase não acreditava que tinha gasto o equivalente a uma bolsa da Louis Vuitton (que, na época, ainda era objeto de cobiça) em brusinha/óculos escuros de qualidade questionável.

Seria injusto eu dizer que nunca fiz uma compra verdadeiramente boa na Forever 21 (ou equivalente): algumas peças tinham qualidade bastante razoável, tendo durado alguns anos no meu guarda-roupa, e cheguei até a ir a mais de um casamento vestida com lookinhos forevinha que custaram uma bagatela e faziam bonito. Essas peças realmente tiveram um custo por uso MUITO baixo, mas são itens que eu conto nos dedos da mão. Em geral, tudo isso que eu comprava a cada 6 meses nos EUA, tinha um tempo de vida útil muito curto no meu armário, sendo doadas muito rapidamente.

Isso era um tipo de consumo insustentável. E foi aí que eu entendi que, se eu comprasse coisas muito baratas que não usava nunca, o custo por uso foi altíssimo. Mas se eu comprasse uma coisa cara que eu usasse por muitos anos (preferencialmente, a vida inteira), o custo por uso seria baixíssimo. Por exemplo: se eu usasse 2 vezes uma brusinha de US$5 antes de doá-la, o custo por uso dela seria de US$2,50; por sua vez, se eu usasse cinquenta vezes uma blusa de US$50, o custo por uso dessa peça seria US$1.

No momento em que essa ficha caiu, eu me decidi que, na temporada de janeiro de 2010, a prioridade do meu orçamento de viagem seria comprar uma Speedy 30 da Louis Vuitton: eu era alucinada por esse modelo por vê-la nas mãos da Audrey Hepburn, que era uma referência de estilo muito grande pra mim na época (e ainda é, na verdade). Com o dinheiro que sobrasse, eu estaria livre pra comprar quaisquer outras coisas que quisesse (bota aí que boa parte do meu orçamento sempre ia nas coisas de parque, porque eu sempre fui assim).

toda faceira usando a Speedy pela primeira vez em Downtown Disney (hoje Disney Springs)

Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão do custo-benefício, principalmente considerando compras de luxo. Nesse caso, o custo por uso é bastante objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25. Ou seja: a bolsa de US$1000 tem um custo por uso menor do que a bolsa de US$50, e consequentemente corresponde a um uso melhor do meu dinheiro.

Sempre que eu fico com vontade de comprar alguma besteira, eu penso que aquela quantia poderia ser investida numa coisa mais duradoura e reflito MUITO sobre cada compra. Isso não significa que eu não compre mais nenhuma besteirinha, que eu não compre nenhuma coisinha baratinha; no entanto, significa que a minha reflexão sobre todas as minhas compras diminui o meu ritmo de consumo, me fazendo me perguntar o porquê de cada compra, e por vezes me fazendo desistir das besteirinhas em prol de uma coisa mais cara que tem mais potencial de uso e durabilidade na minha vida.

Desde a Speedy 30, todas as vezes que fui pra Orlando como guia eu aproveitei pra “investir na bolsa”; alguns investimentos foram melhores do que outros, e algumas bolsas eu acabei vendendo porque não eram usadas como deveriam (aumentando o custo por uso e ocupando espaço precioso no meu armário). Mas essa matemática que eu aprendi há mais de 10 anos atrás continua guiando as minhas compras até hoje, e eu procuro ensiná-la aos meus clientes da consultoria de imagem e estilo.

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