Consumo pós-pandemia: mais dois dedos de prosa

De ontem pra hoje, estava conversando com uma amiga sobre novos padrões de consumo pós-pandemia – se é que a gente já pode pensar em pós-pandemia ou mesmo falar em novos padrões de consumo. E é claro que essa conversa acabou virando post, complementando/aprofundando/continuando o post que publiquei aqui há pouco mais de um mês atrás. De novo, tudo o que eu escrevo aqui em relação a pandemia é uma previsão, considerando diferentes circunstâncias, tentando interpretar o que já está acontecendo e projetando possíveis cenários. É, também, um convite a pensar – a caixa de comentários está aberta pra gente conversar! 

A reabertura do comércio aqui na Suíça começou no dia 27 de abril, com lojas de segmentos específicos (material de construção, DIY, e afins) – e desde o dia 11 de maio todas as lojas (de todos os segmentos) estão abertas. No primeiro dia de reabertura, foram registradas filas quilométricas do lado de fora das boutiques das principais maisons de luxo tanto em Zurique quanto em Genebra – sem falar nas lojas de departamento e fast fashion. Desde então, algumas maisons tem mandado email para seus clientes pedindo gentilmente que as visitas sejam agendadas previamente, evitando a aglomeração nas boutiques.

Esse tipo de comportamento – principalmente se considerarmos que o povo suíço não é lá o mais ávido consumidor de peças de luxo – me leva a crer que, em geral, os padrões de consumo não vão mudar muito no pós-pandemia.

Eu realmente acho que algumas pessoas passarão a consumir moda de uma maneira mais consciente. Mas consumo consciente pode significar desde gastar menos a comprar menos – afinal, pode-se comprar menos e gastar mais, dependendo das escolhas. Outras pessoas provavelmente aumentarão o consumo (correspondendo ao “revenge buying“), compensando tudo o que não consumiram no período de privações e limitações. Mas, na minha opinião, a maioria das pessoas continuará com os mesmos hábitos de consumo. 

É claro que essa minha análise considera uma manutenção da renda, sem perda salarial ou descontos imprevistos. Para as pessoas que perderem renda por conta da pandemia, é muito provável que o consumo de moda não estará entre as prioridades (ou, pelo menos, não deveria estar), podendo ser cortado do orçamento por tempo indeterminado.

O que eu acho muito provável que aconteça é que as pessoas modifiquem um pouco muito o seu modo de vestir por terem percebido neste período que nada é melhor nem mais importante do que o conforto. Estar confortavelmente vestido ajuda, inclusive, a aumentar a produtividade – e, em tempos de home office, o conforto no vestir-se tornou-se fundamental. As vendas online, que tem sido a saída para a maioria dos lojistas do mundo inteiro, registram um aumento significativo na busca por roupas confortáveis e bonitas (incluindo loungewear/pijamas), e eu tenho a impressão de que a tendência é  de que as pessoas busquem cada mais esse conforto também nas “roupas de sair/trabalhar”, impulsionando a indústria a produzir peças assim – um caso simples de demanda x oferta.

E, por falar em vendas online, no pico da pandemia (por aqui, a curva já está achatada), todas as lojas online da Suíça tinham um disclaimer avisando que as demandas estavam excepcionalmente altas e que, por esta razão, as compras poderiam demorar mais do que o normal para ser postadas e entregues – afinal, os correios e transportadoras também estavam sobrecarregados. Isso é um testemunho de que as pessoas simplesmente não param de consumir porque o comércio não está aberto – simplesmente há uma modificação na maneira de consumir; nesse caso, cabe aos lojistas identificar uma maneira sustentável de continuar vendendo e cumprindo com suas responsabilidades – principalmente pagando seus funcionários. A economia só para de girar quando há má vontade para adaptar-se a novos tempos.

E adaptar-se aos novos tempos requer, também, a praticidade no vestir-se – e eu acho que as pessoas vão dar especial valor para a praticidade das suas roupas. Ao compreender a importância de lavar as roupas com maior frequência como prevenção contra o coronavírus, creio que haverá uma busca cada vez maior por peças com fácil manutenção, que sejam fáceis de lavar e, preferencialmente, que não precisem ser passadas a cada lavagem. Acho que caminhamos para uma maior valorização dos tecidos orgânicos, reforçando uma tendência que já estava em curso, já que costumam ser mais fáceis de cuidar e, em geral, também são mais confortáveis e gostosos de vestir. Para completar, acho que as pessoas vão dar mais valor ao que estão consumindo, procurando construir um guarda roupa mais atemporal, que possa atendê-las nas mais diversas circunstâncias.

Desde o último post sobre consumo x coronavírus, a Saint Laurent (comandada por Anthony Vaccarello) e a Gucci (sob comando de Alessandro Michele) anunciaram que não vão mais seguir os calendários de moda como nós conhecemos (ou conhecíamos). Essas decisões provavelmente terão impactos fortíssimos na indústria da moda como um todo, e não só no mercado de luxo. Ao adotarem esta postura, estes dois diretores criativos, que transformaram completamente as respectivas maisons nos últimos anos, lançando tendências copiadas e replicadas pelos mais diversos setores, propõem uma mudança no pensamento da indústria como um todo, e até mesmo uma desaceleração (necessária) nas produções de coleções. 

Caso realmente aconteça, a desaceleração da indústria da moda será benéfica em vários fronts – pra começar, desacelerar as produções de novas coleções impactará positivamente no meio ambiente. De mãos dadas com a demanda por peças de segunda-mão (que vem vindo numa crescente nos últimos anos), desacelerar a produção de novas peças, que demandam sempre bastante matéria-prima, pode ser o início de uma (nova) revolução industrial, partindo da moda e que poderá ser implementada também por outros setores industriais, com a consciência ambiental como norte.

Zona de conforto ou look assinatura?

Estamos sempre ouvindo que é preciso sair da zona de conforto – ou melhor, das muitas zonas de conforto: seja no trabalho, no que fazemos em momentos de lazer, no que vestimos, etc. Pois eu venho humildemente contestar esse tipo de afirmação – pelo menos no que diz respeito a ter uma zona de conforto dentro do seu armário.

Não, você não leu errado. Não, eu não to doida. Na verdade, eu acho que o papel de um consultor de imagem e estilo pessoal é justamente ajudar cada indivíduo a encontrar a sua zona de conforto, transformando-a no que podemos chamar de “look assinatura”.

Pensa comigo: quantas vezes você já abriu seu armário abarrotado de roupas e teve a certeza de que não tinha o que vestir? Quantas vezes você comprou um acessório, um sapato ou uma bolsa da moda e acabou não usando? Em meio a todas as tendências de moda que consumimos, é fácil confundir-se e lotar o armário de coisas que simplesmente não fazem sentido para nós. Mas eu também tenho certeza de que, no meio de todas essas roupas que te levam a acreditar que não tem o que vestir, você tem algumas peças do coração, aquelas na direção das quais você sempre gravita, aquelas que te fazem sentir segurança e que te ajudam a ter mais gás pra enfrentar o mundo. Acertei?

Essa seria a sua zona de conforto – ou melhor, as peças que podem compor o seu look assinatura.

Se você ama usar terninho, este pode se tornar seu look assinatura. Se você ama vestidos, eles podem ser seu look assinatura. Se você gosta do comprimento midi, você pode adotá-lo como seu look assinatura. E você também pode ter mais de um look assinatura. Aliás, eu diria que a gente deve ter alguns looks assinatura, algumas combinações de peças que nos dão muita segurança e tranquilidade ao vestir para as mais diversas situações.

Em tempos de quarentena, muita gente tem descoberto a importância do conforto no home office, e tenho certeza de que muitas pessoas vão querer implementar o conforto nos looks de trabalho uma vez que a rotina fora de casa for retomada no “novo normal” (ainda não sei se gosto desse termo). E eu diria que o seu look assinatura deve ser, sim, muito confortável. 

Eu reconheço que tenho alguns looks assinatura, que compõem a minha “zona de conforto” pra facilitar a minha vida. Até mesmo para o home office eu tenho um look assinatura, já que (mesmo antes do coronavirus) eu passo muito tempo estudando, escrevendo e trabalhando de casa: calça de moletom + t-shirt, com um casaco de moletom sempre por perto. Aliás, acho que já falei por aqui que não vejo nada de errado em trabalhar de casa usando moletom; muito pelo contrário, acho a melhor opção desde que esteja num estado decente (no mínimo, sem furos ou rasgos). Para o look do home office, a minha regra é não usar nada que não pudesse usar na rua ou numa chamada de vídeo.

A gente nunca pode confundir conforto com desleixo. É absolutamente possível e nem um pouco difícil montar um look confortável com cara de pensei-muito-me-esforcei-e-o-lookinho-ficou-ótimo sem, de fato, gastar muito tempo pensando no look. Para isso, bastam algumas ferramentas de styling. É lógico que a ajuda de um consultor de imagem profissional será valiosa nesse momento, o que não significa que você não possa aprender alguns truques sozinho.

Porque você não deve cortar sua franja na quarentena

De repente, nos últimos dias, parece que todo mundo resolveu cortar o cabelo em casa. E eu perdi a conta de quantas pessoas mostraram nas redes sociais seus novos cortes de cabelo – a grande maioria, cortando uma franja pela primeira vez.

Venho, por meio deste, muito humildemente, como consultora de imagem, aconselhar que você evite cortar seu cabelo em casa e, principalmente, quero apresentar algumas razões para você não cortar uma franja pela primeira vez nessa quarentena.

Eu canso de repetir a seguinte frase: tem gente que nasceu pra usar franja, e tem gente que nasceu pra não usar franja. Parece um exagero, mas é verdade. Eu fico pensando na Sofia Vergara, por exemplo, que é uma visão de mulher, uma instituição, e perdeu muito na imagem quando cortou uma franjinha. Não me entendam mal, ela continuou linda, até porque nada pode tirar a beleza daquela mulher, mas ela fica ainda mais monumental sem franja – tanto que ela deixou crescer de novo.

Cabelo cresce, é verdade. Mas, falando com propriedade – afinal, eu uso franja desde que me entendo por gente -, parece que o cabelo e, principalmente, a franja demoram mais a crescer quando a gente quer que cresça. No meu caso, eu não usei franja por 2 momentos na minha vida – em 2001/começo de 2002 e em 2004/meio de 2005. Eu lembro que demorou muito a crescer o suficiente pra não precisar prender com grampos/arco e, quando enfim cresceu o suficiente pra incorporar ao cabelo, eu vi que aquela imagem não me representava. Desde então, eu já tentei várias vezes deixar minha franja crescer, mas além de perder a paciência rapidamente, eu não me reconheço sem franja. E, veja bem, minha franja cresce igual capim, eu tenho que cortar mais ou menos a cada 2 semanas, mas toda vez que eu penso “acho que vou deixar a franja crescer de vez” parece que ela resolve demorar um século pra crescer.

Quando a gente fala de cabelo, a gente tá pensando na moldura do rosto. Já falei um pouco disso por aqui num post sobre análise cromática e a coloração capilar. Se isso é válido para a cor do cabelo, é ainda mais importante quando pensamos no corte. O corte certo pode elevar seu visual de uma maneira incrível, enquanto um corte errado pode derrubar a sua imagem e, consequentemente, mexer com a sua autoestima de modo negativo.

Pode-se argumentar que existe um tipo de franja para cada formato de rosto. Enquanto isso pode ser verdade, eu ainda me atenho a máxima de que tem gente que, simplesmente, não deve usar franja. Quando se pensa em franja, não pode-se considerar somente o formato do rosto (embora seja aspecto fundamental também): é importantíssimo pensar na textura do cabelo, se tem ou não redemoinho, pra qual lado é a sua risca, etc.

Alguns cabeleireiros chegaram a dar entrevistas com dicas de como cortar uma franja pela primeira vez em casa, o que eu achei algo arriscadíssimo. Eles sugerem que você identifique um triangulo formado entre o topo da cabeça e as pontas das sobrancelhas, e aí faça o corte. Mas o que eles não te contaram é que a quantidade de cabelo pode ser diferente na composição desse triângulo, dependendo da textura e volume, e também do formato do rosto.

Ademais, a franja comunica, de forma geral, uma imagem muito jovial, quase infantil (dependendo da quantidade de cabelo na franja, da textura do cabelo, do corte do cabelo, etc). É sempre importante pensar na mensagem que estamos querendo comunicar com a nossa imagem, lembrando que o rosto é a nossa ferramenta principal.

Eu sei que, em tempos de quarentena, a gente fica querendo inventar coisas pra fazer. No meu caso, por mais atarefada que eu esteja com as atividades do doutorado + afazeres domésticos + produção de conteúdo, eu tenho também meus momentos de tédio e quase desespero. Aqui em casa, já mudamos todos os móveis de lugar e até compramos mais alguns na Ikea que eu montei semana passada pra criar nosso closet. Hoje (21/abril) é meu 51º dia sem sair de casa, e eu sou uma pessoa diagnosticadamente ansiosa – imagina quanta m3rd4 eu já poderia ter feito no meu cabelo nesse tempo todo?! Muita.

Desde que eu saí do Brasil, em janeiro/2017, eu nunca cortei o cabelo fora. Na Armênia, eu simplesmente não confiava no meu russo pra sentar numa cadeira de cabeleireiro, além de não saber se os cabeleireiros de lá saberiam lidar com a textura + volume do meu cabelo (fio muito fino + muito cabelo). Aqui na Suíça, eu não corto simplesmente porque acho muito caro. Ou seja: desde janeiro/2017, eu só corto o meu cabelo quando vou ao Brasil (uma vez ao ano), com meus cabeleireiros de confiança, que me entendem e, mais importante, entendem o meu cabelo.

Não é o ideal, mas é o que eu posso fazer pra evitar que dê ruim na minha imagem. É fato que o ideal é cortar o cabelo ou, pelo menos, aparar as pontas a cada 3 meses. Era isso que eu fazia quando morava no Brasil. Mas as coisas mudaram e eu precisei me adaptar pra sobreviver.

Só que eu uso franja. E aí vocês me perguntam: como eu faço? Tem, pelo menos, 15 anos que eu corto minha franja sozinha a cada duas semanas mais ou menos. Quando eu era criança, a Mivó cortava a minha franja entre uma ida e outra ao cabeleireiro, e a primeira coisa que ela me ensinou foi sobre a importância de ter a tesoura certa pra cortar.

Não pensem que foram 15 anos sem fazer m3rd4. Já fiz bastante besteira na minha franja sim: já cortei torta, já cortei mais do que devia (e aí ela demooooora pra chegar no lugar), já cortei um pedaço do cabelo sem querer… enfim, a lista é longa. É por isso que eu digo, por experiência própria, que é melhor não cortar uma franja pela primeira vez nessa quarentena.

Além de tudo isso que falei até agora, há que se considerar mais um fator: em tempos sem precedentes como este que estamos vivendo, tempos tão difíceis e de tantas incertezas, é melhor não tomar nenhuma atitude radical. Se isso vale pra várias esferas da nossa vida, eu diria que vale, principalmente, para o nosso cabelo. Como eu já escrevi ali em cima, nosso cabelo tem um impacto direto na nossa autoimagem por ser a moldura do rosto. Imagina ficar sabe Deus mais quanto tempo sem sair de casa e encarando uma imagem no espelho que não te agrada, que diminui a sua autoestima, que não contribui positivamente para a sua saúde mental?

Se eu puder te dar um conselho, não corte sua franja em casa. Pense. Repense. Vai ler um livro, ver tv, colorir mandalas, qualquer coisa. Mas não corte sua franja em casa sem certeza absoluta que você está fazendo. Espere a quarentena passar e converse com um cabeleireiro da sua confiança ou, preferencialmente, com um consultor de imagem. Talvez a quarentena seja, inclusive, um bom momento para quem cortou a franja e não curtiu (porque, provavelmente, faz parte do grupo de pessoas que não nasceu pra usar franja) deixá-la crescer.

Consumo e Coronavírus: o que podemos esperar?

Em tempos tão difíceis e tão incertos, prever qualquer coisa fica difícil. No entanto, eu sempre gostei de construir cenários, então resolvi tentar imaginar como serão os padrões de consumo na moda depois dessa pandemia.

Há muitos prognósticos de que a crise do coronavírus vai impulsionar os consumidores de moda a repensarem seus valores e redirecionar seus gastos, evitando fast fashion e o luxo exacerbado das grandes marcas, priorizando a sustentabilidade e uma certa sobriedade. Alguns argumentam que os padrões de consumo atuais, principalmente no que diz respeito ao consumo fast fashion, são muito recentes e já vinham sendo repensados por uma grande parcela dos consumidores, que já cobravam das grandes redes um posicionamento mais sustentável e já desaceleravam o seu consumo. De acordo com estes prognósticos, vamos consumir menos e de maneira mais responsável.

No entanto, isso pode não ser uma verdade absoluta. De fato, em tempos de crise os consumidores re-priorizam suas necessidades. ⁠Mas também é verdade que, uma vez que uma crise passa, os consumidores de modo geral retomam seus antigos padrões de consumo.

O consumo de moda é altamente direcionado pela necessidade fundamental de símbolos de projeção social, que afirmam aspectos da personalidade, e os gigantes da indústria da moda se tornaram, com o passar dos anos, incrivelmente hábeis em atender a essas necessidades. De modo geral, as pessoas consomem a moda como uma distração quando se sentem bem, e uma terapia quando se sentem mal. Esse padrão de comportamento tem sido mantido por décadas, e talvez não modifique após a pandemia.

É claro que diferentes contextos econômicos e sociais determinam padrões de comportamento e diferentes cenários surgem. A diminuição do consumo em tempos de crise conduz as marcas de moda a um esforço para continuar mantendo um certo fluxo de vendas ao propor promoções diárias em suas lojas online. Muitos negócios estão adotando grandes descontos para evitar que seus inventários fiquem sobrecarregados de mercadorias. Segundo alguns analistas, é apenas uma questão de tempo até que as vendas alcancem os profundos níveis de períodos de recessão. Entretanto, dar desconto por desconto pode não ser o suficiente para engajar os consumidores: as marcas de moda devem adotar uma abordagem criativa e disciplinada para ajudar a vender seu inventário sem destruir o perfil da marca.

Alguns especialistas recomendam às marcas de luxo que elas “adormeçam” neste ano, restringindo a manufatura e cortando custos sem demitir seus empregados ou fechar lojas, como uma forma de não acumular mais mercadoria que forçosamente receberia preços promocionais uma vez que as lojas reabram. A Chanel, por exemplo, anunciou que parou toda a sua produção (espalhada entre França, Itália e Suíça) neste período.

A recente recessão de 2008 conduziu a um minimalismo generalizado, traduzido nas marcas de luxo pela abordagem prática de Phoebe Philo na Céline e a riqueza furtiva das bolsas sem logo da Bottega Veneta, por exemplo. Desde que os EUA se tornaram o epicentro da pandemia do coronavírus, pode-se confirmar uma nova transição na moda. A mudança já estava no ar: até mesmo a Gucci já estava simplificando seu estilo barroco nas coleções recentes. Depois de uma década, não é uma coincidência que as tendências estejam seguindo caminhos parecidos. Em tempos de incerteza, os consumidores priorizam roupas profissionais e são mais reflexivos sobre suas compras. Porém, desde as tendências ao consumismo, muita coisa mudou desde a última vez que a indústria da moda viu uma mudança tão dramática.

Por sua vez, muita gente ainda está consumindo – principalmente os millennials que desfrutam de segurança salarial. Jovens consumidores já são mais propensos a fazer compras online e, como estão passando mais tempo online por conta do home office, consequentemente passam mais tempo mexendo nas mídias sociais, o que influencia o consumo. Os efeitos psicológicos da pandemia no comportamento dos consumidores é multi-facetado: enquanto o auto-isolamento e a tristeza podem conduzir alguns consumidores que normalmente já destinam parte da sua renda para retail therapy (terapia de compras), outros evitam. Outros, por estarem presos em casa sem ter onde vestir suas novas compras, simplesmente não enxergam razão para comprar. Alguns outros ficam eticamente conflitados, uma vez que entregas em casa requerem que as pessoas que trabalham nos centros de distribuição e nas entregas saiam de casa num momento em que sabemos que o isolamento social (ou seja, ficar em casa) é a melhor maneira de conter a disseminação do vírus. No entanto, outros se sentem numa obrigação moral de gastar para manter a economia girando da maneira que dá.

Como eu falei lá em cima, é muito difícil prever qualquer coisa em tempos de tanta incerteza, principalmente depois da notícia recente de que a Hermès bateu recorde de vendas na reabertura da sua loja em Guangzhou, o que indica uma forte recuperação do consumo de luxo no país pós-coronavírus. O recorde de vendas da Hermès na China (US$2,7 milhões em um único dia) é uma ótima notícia também para outras marcas, principalmente para as luxuosas maisons que encontram nos chineses os seus mais ávidos consumidores. Entretanto, antes de antecipar um revenge buying generalizado pelo mundo, há que se considerar, além de questões culturais, o crescimento econômico ininterrupto da China nos últimos anos, o que coloca o país em um contexto muito diferente de outras nações: o quadro pode ser bem diferente em países que já vinham de um cenário de crise e desvalorização da moeda, e as marcas que não são internacionalizadas podem sofrer – e muito – depois da pandemia.

Afinal, o que é contraste?

Eu já andei falando por aqui sobre contraste em alguns posts, mas esse é um tema que ainda gera muitas dúvidas. Então resolvi escrever um texto exclusivamente para explicar o que é o tal do contraste.

Contraste é a diferença da profundidade entre os olhos + as sobrancelhas + o cabelo e o tom da sua pele. Na análise cromática, a temperatura e o contraste se complementam. Reforço aqui que só é possível ter certeza de qual é a sua cartela de cores e se a sua coloração é quente, fria ou neutra exata com a análise cromática realizada pessoalmente. Além disso, todas as cores tem tonalidades mais quentes e mais frias, então não é que uma pessoa de pele fria não possa usar vermelho ou uma pessoa de pele quente não possa usar cinza.

No entanto, é possível identificar se o seu contraste é alto, baixo ou médio apenas se olhando no espelho – talvez essa seja a única parte da análise cromática que você pode fazer em casa. O contraste é, também, o único aspecto visual que pode mudar longo da vida, porque depende das mudanças capilares, do bronzeamento e de outras intervenções.

A análise cromática existe para indicar quais cores valorizam os traços e características pessoais, e é importante coordenar a cartela de cores individual com o seu contraste. O contraste é uma ferramenta importante na consultoria de imagem porque o personal stylist pode te ensinar a manter o equilíbrio de cores perto do rosto, que é o nosso primeiro “cartão de visitas”. Além disso, o consultor de estilo, com seu olhar treinado, poderá indicar se o seu contraste atual é realmente a sua melhor versão, já que o contraste pode não estar completamente equilibrado. Nesse caso, é possível ajustar o contraste, que depende das mudanças capilares, do bronzeamento, da sobrancelha, etc.

Eu costumo dizer que o contraste natural é “o contraste que Deus te deu”, ou seja: contraste natural é aquele que não teve interferência de tinta de cabelo, por exemplo, ou por bronzeamentos. O seu contraste natural pode ser alto, médio-alto, médio-baixo ou baixo.

O contraste é alto quando a diferença entre cor do cabelo, sobrancelha e olhos em relação ao tom da pele é muito grande; o contraste é baixo quando essa diferença é pequena ou nenhuma; o contraste é médio quando essa diferença não é muito pronunciada, mas ainda visível. Vale destacar que duas pessoas podem ter a mesma cartela de coloração pessoal mas contrastes distintos.

Para ilustrar os tipos de contraste, vamos observar algumas personagens da Disney:

Elsa

Elsa é um típico exemplo de baixo contraste: o tom da pele, a cor dos olhos e do cabelo são muito claros e muito próximos, e quase não vemos diferença na tonalidade dos elementos de contraste. Por acaso, Elsa também tem tonalidade de pele fria (não é por acaso que ela é a rainha do gelo).

Anna

Anna é um bom exemplo de contraste médio-alto: reparem que a pele clara e os olhos claros não destoam muito do tom avermelhado do cabelo e das sobrancelhas.

Jasmine e Aladdin

Por sua vez, Jasmine é um bom exemplo de contraste médio-baixo: há pouca diferença da cor dos olhos + sobrancelhas + cabelo para a pele, porém ainda conseguimos identificar uma diferença de tonalidade (principalmente do cabelo em relação aos outros elementos do contraste). E, já que ele aparece nessa imagem também, Aladdin é um exemplo de contraste baixo (afinal de contas, o contraste dos rapazes também pode e deve ser avaliado and respeitado).

Mulan

Mulan exemplifica bem o contraste alto: a cor do cabelo, das sobrancelhas e dos olhos (bem pretos) é muito diferente do tom de pele (muito clara).

Tiana

Tiana é outro exemplo de contraste baixo: reparem que a cor do cabelo + a cor da sobrancelha + a cor dos olhos é muito próxima do tom de pele dela.

Branca de Neve

E a Branca de Neve? Contraste alto, altíssimo! Reparem como há uma diferença pronunciada principalmente da cor dos cabelos em relação ao tom da pele.

Rapunzel

Rapunzel é dona de um contraste baixo mas, ao contrário da Elsa, ela tem características de tonalidade quente (notem que há um certo rubor na face).

Ariel

E Ariel? Mais um contraste alto! Há uma diferença gritante da cor dos seus cabelos principalmente para a cor dos olhos e tom da pele.

Merida

De uma ruiva pra outra: na minha avaliação, Merida tem um contraste médio-alto. Há sim uma diferença entre os elementos do contraste, mas não tão pronunciadas a ponto de colocá-la na tabela dos contrastes altos.

Pocahontas

Por sua vez, eu diria que Pocahontas tem contraste médio-baixo. Não é exatamente baixo porque notamos uma diferença entre a cor do cabelo e os outros elementos de contraste, porém essa diferença não é muito pronunciada.

Alice

Alice é outro bom exemplo de baixo contraste, principalmente porque o tom do cabelo é muito próximo ao tom da pele.

Cinderella

Cinderella? Mais um baixo contraste pra nossa conta.

Aurora

Já Aurora tem um contraste médio-alto por conta da cor dos olhos, que são bem mais escuros do que o restante dos elementos de contraste que, por sua vez, tem tons bem próximos.

Belle

Por último, mas não menos importante, Belle também integra o time do contraste médio-baixo. Notem que há uma diferença entre o tom de pele e os outros elementos do contraste, mas essa diferença não é pronunciada o suficiente para classificá-la como contraste alto.

E pra que serve o contraste? Bem, a análise cromática pessoal serve, em primeiro lugar, para identificar as tonalidades mais harmônicas para cada pessoa, e cada pessoa tem uma beleza única. Se o objetivo é alcançar uma aparência harmônica, o ideal é repetir a coloração e o contraste na cor do cabelo, na maquiagem, nas roupas, nas estampas, nos acessórios… enfim, em tudo que estiver próximo ao rosto. Quanto mais próximo do rosto, o ideal é respeitar ao máximo o seu contraste e a sua cartela de cores.

Mas o que acontece se uma pessoa adota um contraste diferente do natural? Há vários resultados possíveis: a sua aparência pode ficar abatida, os traços de que você menos gosta podem ficar pronunciados, a sua roupa pode chamar mais atenção do que a pessoa que a veste, etc. Quando nós consultores de imagem falamos em harmonia, estamos destacando que a sua expressão e a sua fisionomia são sempre mais importantes do que a roupa.

Coronavirus e o mercado da moda

Na medida em que os casos globais de coronavirus continuam a crescer, as marcas de luxo estão se preparando para o pior. Duas semanas depois do fim do “feriado” prorrogado, decretado pelo governo, de Ano Novo Lunar Chinês, novos casos de COVID-19 aumentaram em países como Irã, Coreia do Sul e Itália, onde já são 7 mortos e mais de 280 contaminados. As bolsas de valores de todo o mundo despencaram enquanto o governo italiano decretou bloqueios (lockdowns) em 10 cidades e proibiu eventos públicos, incluindo o Carnaval de Veneza. Na semana de moda de Milão, a maison Giorgio Armani transmitiu online o seu desfile sem platéia.

De acordo com o site BoF, o coronavirus pode ser um cisne negro para uma indústria que, durante anos, se manteve impermeável as volatilidades macroeconômicas e políticas e dependente da China para garantir o seu crescimento. De acordo com um estudo da Altagamma, BCG e Bernstein, a previsão é de que mesmo as principais marcas podem enfrentar um declínio de até 10 bilhões de euros nas vendas de luxo nesse ano. A indústria poderia perder entre 30 e 40 bilhões de euros em vendas neste ano.

Ao mesmo tempo, as condições desafiadoras de comércio pode persistir até o próximo ano já que os consumidores chineses – que, desde 2012, contribuíram pra 70% do crescimento global no segmento de luxo – ficam em casa, e uma desaceleração é espelhada nos principais mercados de luxo como o Japão.

A previsão da agência de consultores de luxo Ortelli & Co. prevê que o período correspondente aos primeiros 3 meses de 2020 será um dos piores da indústria de luxo em anos, embora algumas marcas fiquem mais expostas aos riscos do que outras, a exemplo da Louis Vuitton e da Burberry, que dependem muito dos consumidores chineses.

A epidemia, que atrapalhou as viagens não só de/para a China mas também em outros países, já demonstra seus efeitos nas lojas em aeroportos e em pontos turísticos, que testemunham uma diminuição brusca no fluxo de clientes, e que deve piorar na medida em que outros países impõem restrições.

Disney x Gucci: um dia na Disneyland

Alessandro Michele não perde tempo e não dá ponto sem nó. 2020 nem começou direito e a Gucci, maison da qual é diretor criativo, lançou uma coleção irresistível em parceria com a Disney para celebrar o ano do rato (Year of the Mouse) do calendário chinês, fotografada e filmada no parque Disneyland.

Ao longo dos últimos anos, os personagens da Disney ganharam visibilidade no mundo da moda e, como tudo que é feito por essa gigante de mercado, a presença generalizada de Mickey e companhia nas passarelas de moda foi meticulosamente planejada, parte de um esforço amplo para aumentar as vendas dos seus itens, provando, mais uma vez, que a Disney é para todos e desperta desejo em todos.

A Disney emprega uma extensa rede de magos do marketing que idealizam novas táticas para manter a marca culturalmente relevante. Entre as estratégias mais efetivas, podemos citar a conexão de conteúdo e comércio com memória afetiva, inclusão, diversificação da experiência da marca, e o uso das mídias sociais como um espelho mágico. Combinadas, estas e outras estratégias criam um duplo arco-íris de retorno e relevância para a audiência moderna da Disney, e iluminam potenciais caminhos para marcas de moda. Ou seja, a moda pode aprender – e muito – com a Disney.

Embora seja uma marca global, que desperta o desejo em pessoas do mundo inteiro, a Gucci está muito atenta ao mercado asiático – e estaria errada em não fazê-lo; basta dizer que, em 2017, 30% das vendas da Gucci foram para o mercado chinês. É prestando atenção aos desejos dos seus grandes consumidores que Michele cria essa coleção em parceria com a Disney: a mistura do logo da Gucci com a figura de Mickey Mouse é praticamente irresistível, principalmente para os consumidores mais jovens – um público alvo da marca. Desde 2015, quando Michele assumiu a direção criativa da marca, a Gucci veio se tornando uma maison cada vez mais valorizada e atraente para os millennials, valorizando os produtos que são chamados de “entry-level” (algo como “produtos de entrada”): por exemplo, cintos, acessórios e bolsas com valores abaixo de mil euros. Do mesmo modo, a Gucci aprendeu a abraçar a cultura chinesa sem caricaturas, dividindo-a globalmente com todos os seus consumidores, em um modelo respeitoso que trata a China como China.

Desde 2018, ano quando Mickey Mouse completou 90 anos, o desenho clássico do rato mais famoso do mundo passou a ganhar cada vez mais espaço nas mais importantes passarelas de moda. Além de uma breve aparição na Gucci, marcas como Rag & Bone, Giggi Burris, Karen Walker, Burberry, Kaia Gerber, Opening Ceremony, Givenchy, Coach e Moschino deram destaque aos personagens do mundo mágico criado por Walt Disney.

Uma estratégia antiga de vendas da Disney pode parecer familiar para as principais marcas de moda hoje: o “Disney Vault”, que reintroduziu clássicos que estavam fora de circulação por anos e depois reintroduzidos (a exemplo de Aladdin, A Bela e a Fera, O Rei Leão, entre outros), é um precursor das edições limitadas e das reedições de clássicos (uma olhadinha nas mais recentes bolsas da Gucci de Michele prova este argumento, já que o diretor criativo tem revisitado constantemente os arquivos da marca para os lançamentos de acessórios-desejo).

A presença de personagens do mundo mágico em produtos de todos os preços e para todos os públicos tem sido uma base do marketing da Disney desde os anos 1930, despertando o desejo de consumo desde tênis Converse até porcelanas.

Em geral, quando as colaborações de moda são pensadas, o time da Disney faz a seguinte pergunta: de que modo podemos manifestar uma ligação emocional por meio de um produto físico? Em geral, a resposta é nostalgia; afinal, todo mundo tem memórias da Disney como parte da infância. Para a Disney, o desafio é conectar-se com as pessoas constantemente na medida em que elas crescem.

Embora a maioria das marcas seja incapaz de usar essa conexão da infância que é intrínseca a identidade da Disney, estas marcas podem usar elementos de fantasia para atrair consumidores do luxo sem perder o seu DNA – e é exatamente isso que a Gucci faz com essa coleção, cujo item mais barato custa 145 euros.

Pode-se, também, especular se a Gucci tem intenção de abrir uma unidade no Disney Springs, o grande espaço dedicado às compras em Orlando dentro do complexo do Walt Disney World Resort e que atrai cada vez mais turistas endinheirados. Para ter um espaço no Disney Springs, as marcas tem que manter pelo menos um item com temática da Disney nas suas coleções. A Coach, por exemplo, que lançou timidamente uma coleção temática em 2016, passou a ter seu espaço no Disney Springs e, com isso, já lançou diversas coleções novas com a Disney desde então. Talvez seja um pouco cedo pra esse tipo de especulação mas, como boa Disney Freak que eu sou, minha imaginação voa longe.

*todas as imagens deste post foram copiadas do site da Gucci. A campanha foi fotografada e filmada no parque Disneyland (Disneyland Resort, Califórnia).