Lenços na cabeça, de acordo com Hermès

É inegável que a pauta BBB está nos assuntos mais comentados por 9 em cada 10 brasileiros, seja por quais motivos for. As diversas polêmicas da edição 2021 do reality show incluem o uso de lenços na cabeça por alguns participantes do programa. Devo dizer que a maioria dos comentários que li “nas internets” sobre o uso desse acessório não foi positivo – o que não me surpreende, já que, culturalmente, os brasileiros não são muito adeptos a “acessórios de cabeça” no dia a dia.

Eu, por exemplo, sempre amei usar arcos e chapéus. Desde pequenininha, chapéu é um acessório que eu gosto de usar a maior parte do ano. Mas 99% das vezes que uso chapéu no Brasil, noto os mais diversos olhares de estranhamento. Vale notar que bonés não são tão julgados quanto chapéus – mas isso já seria motivo de reflexão suficiente pra outro post.

No ano passado, com a pandemia do novo coronavírus, eu me vi procurando alternativas de prender o meu cabelo o máximo possível nas vezes que precisei ir na rua durante o verão: estudos mostram que cabelos soltos podem ser vetor de contaminação, uma vez que temos a tendência de levar as mãos (nem sempre limpas) aos cabelos. Não vou entrar nos pormenores das questões higiênicas, muito menos das minhas manias de limpeza, mas fato é que encontrei nos tradicionais carrés da Hermès uma alternativa estilosa de deixar os cabelos bem presos.

Como todas as peças clássicas da maison, os carrés da Hermès tem uma história interessante. Estima-se que cada uma desta peça francesa clássica, um quadrado 90cm x 90 cm feito de seda pura (carré significa, literalmente, quadrado), seja vendida a cada 30 minutos ao redor do mundo. Com mais de 1500 desenhos disponíveis, a estampa Brides de Gala é considerada o principal bestseller da maison. As proporções generosas do carré neste material luxuoso e sensual, e seus desenhos coloridos inspirados pelo mundo equestre e também por viagens e arte, fizeram com que os carrés de Hermès se tornaram um símbolo do chique francês. Há um certo respeito por essa peça icônica, que pode atravessar gerações, sendo passada como um tesouro de mãe para filha.

As coleções de primavera/verão costumam ser as mais esperadas pelas francesas, que costumam escolher uma nova estampa para o período mais quente do ano. Reza a lenda de que toda menina francesa que se preze, ao completar 16 anos, recebe um carré de Hermès de presente. Mantendo a tradição da maison, os carrés são feitos à mão: por mais de meio século, os fios de seda (cerca de 450km de fio para cada carré) passam pelos teares de Perrin & Fils. Demora-se cerca de 400 a 600 horas para que os estampadores dissequem os desenhos, que podem ter até 30 cores. Isso sem falar no processo de bainha, enrolado à mão: as bordas dos carrés são costuradas com fios da mesma cor, depois de serem gentilmente enrolados. Sim, é puro luxo; não por acaso, os carrés de Hermès fazem parte da base do estilo BCBG (sigla para Bon Chic Bon Genre) parisiense, lado a lado das headbands de veludo, jaqueta Barbour e colar de pérolas.

Eu poderia fazer um texto (ainda mais) extenso sobre a história do carré, que é uma peça tão fascinante e cheia de história, mas agora vou direto ao ponto: o mais interessante é que esta peça icônica pode ser usada de mil maneiras diferentes, o que traz muita personalidade ao look. Os carrés de Hermès podem ser usados como foulards ao redor do pescoço em noites frescas de primavera, como cintos, como bolsas, ou até mesmo como um top/bustiê. Mas o tema deste post é o uso dos lenços nos cabelos! E é por isso que eu trago algumas imagens da Hermès para inspirar você a pensar fora da caixa e emoldurar seu rosto com muitas cores.

Acho que ficou provado que os lenços são peças super versáteis, não é?! E embora eu tenha usado a história do carré da Hermès e imagens da maison para ilustrar o post, é claro que podemos encontrar lenços das mais diferentes marcas, nas mais diversas lojas, e dos mais variados preços para encher o #lookdodia de interessância! O importante, como sempre, é você se expressar por meio do seu estilo, usando suas roupas para comunicar a imagem que você deseja transmitir!

Refletindo sobre consumo consciente em 2021

Depois de um grande hiato – em que eu mais rascunhei textos do que, de fato, terminei algum -, eis aqui o nosso primeiro post de 2021, que é uma reflexão diretamente provocada por um artigo da Vogue que eu li recentemente.

Neste artigo, a grande pergunta é: como o consumidor consciente se veste em 2021? E, mais: como consumir conscientemente neste ano? De acordo com a reportagem, é denominador comum que as palavras-chave na moda em 2021 são conforto e pragmatismo, com igual importância para a sustentabilidade. Então como fazer uma coleção de moda ser adequada a estes tempos?

O artigo da Vogue coloca a estilista Maria McManus como exemplo de preocupação com esses três conceitos-chaves desde antes da pandemia, já que ela começou a trabalhar numa linha de básicos chiques ainda em 2019. A Vogue destaca que um dos grandes benefícios de lançar sua marca nestes tempos que estamos vivendo é que McManus está diretamente engajada com novos consumidores conscientes.

O movimento de sustentabilidade na moda não é exatamente novo, mas ganhou força nos últimos anos. No entanto, tem sido um movimento inverso, em que as grandes forças deste mercado se engajam para melhorar suas já existentes práticas de trabalho e obtenção de materiais. No Brasil mesmo, são incontáveis as marcas que tiveram que rever seu processo produtivo por conta de denúncias de trabalho escravo na linha de produção, por exemplo. Por sua vez, há algumas marcas que realmente se comprometem com o slow fashion – pra mim, um grande exemplo é o Coletivo Lírico, que propõe vários designs super legais de t-shirts mas que só as produz de acordo com a demanda e não aceita devoluções (a menos que haja um defeito de produção), evitando acúmulo de produção e, consequentemente, gerando menos lixo.

com minha brusinha mais amada do Coletivo Líricoslow fashion 100% algodão, 1000% poesia.

Maria McManus começou do zero com uma política muito clara, e até bastante agressiva; de acordo com Maria, se o tecido não for reciclado, orgânico, biodegradável, ou obtido de maneira responsável, ela simplesmente não usa. Deste modo, McManus já edita a sua produção desde o começo, sabendo exatamente o que ela procura. Maria também se preocupa com o uso dos recursos disponíveis para as suas etiquetas, que são recicladas, e também com os botões que usa, feitos a partir de nozes corozo (ou nozes tagua, que são consideradas o marfim vegetal).

Maria McManus tem uma preocupação direta com os tecidos que ela usa, com uma lista bem clara de certificações objetivas: o nylon e a cashmere reciclados são certificados pelo padrão de reciclagem global (Global Recycled Standard); o algodão orgânico é certificado pelo padrão global de tecidos orgânicos (Global Organic Textile Standard), o que significa que os fios não podem ser tratados com alvejante de cloro, formaldeído ou outros produtos químicos; a lã merino é verificada pela OEKO-TEX e o padrão de lã responsável (Responsible Wool Standard); e o tencel é certificado pelo Conselho de Gestão Florestal (Forest Stewardship Council), o que garante a administração responsável dos recursos naturais obtidos.

Esse tipo de preocupação com os tecidos influencia diretamente na vida do consumidor. Como nós já conversamos diversas vezes por aqui, tecidos obtidos através de fibras orgânicas/naturais costumam ser mais duráveis, são mais agradáveis ao toque, tem uma manutenção mais fácil, são biodegradáveis, entre tantos outros benefícios. Se nós, enquanto consumidores, estamos mais ligados sobre a maneira como nossas roupas são feitas, essas certificações citadas anteriormente costumam ser a diferença entre o progresso e o greenwashing (o termo greenwashing compreende a prática de promoção de discursos, anúncios, propagandas e campanhas publicitárias com características ecologicamente/ambientalmente responsáveis/sustentáveis). Termos como orgânico, ecológico, natural e sustentável são frágeis; se uma marca de moda alega que o algodão usado na produção é 100% orgânico, é preciso estar preparado para provar a procedência e veracidade da informação.

É fato que ainda há uma parcela pequena de consumidores conscientes, que compreendem o seu papel no consumo de moda como agentes modeladores de um novo jeito de produção. A reciclagem de roupas, por exemplo, ainda é uma prática muito nova e pouco disseminada – são pouquíssimos os centros de arrecadação de roupas para reciclagem, e pouquíssimas são as lojas que dispõem de caixas de coleta para peças destinadas à reciclagem. De acordo com o artigo da Vogue, Maria McManus compreende isso, e sabe que o principal apelo das suas criações é resultar numa coleção cheia de peças essenciais e duráveis que nós costumamos querer no nosso dia a dia: roupas fáceis, clássicas e confortáveis, com um toque de atitude e um bônus de comprometimento com o planeta. Para além dos materiais, a atenção aos detalhes e ao caimento faz a diferença na coleção de McManus, que também oferece peças vintage, escolhidas a partir de uma curadoria cuidadosa para fazer parte do styling. Tudo isso complementa a visão de Maria McManus de criar itens que poderão ser usados por muitos e muitos anos, com muita transparência e honestidade no seu processo criativo e produtivo.

É claro que o lançamento de McManus não é para todos os bolsos – os preços podem girar em torno de USD400 e USD800 -, mas é certamente um bom exemplo do comprometimento com uma moda verdadeiramente mais sustentável. Pra mim, já está mais do que provado que nada se cria, tudo se copia, e é por isso que eu sou otimista em pensar que esse tipo de prática poderá ser cada vez mais disseminada entre marcas mais populares – no Brasil e no mundo.

Eu realmente acredito que os consumidores desempenham papel importantíssimo para que as marcas de moda se preocupem cada vez mais com o desenvolvimento responsável e sustentável das suas coleções, e é por isso que eu gosto tanto de trazer estes temas pra cá. Quanto mais a gente reflete sobre a origem das nossas peças, sobre o impacto ambiental causado pelo que a gente veste, e sobre as escolhas que a gente faz ao consumir, mais o debate se populariza, e são maiores as chances de consumirmos conscientemente e de cobrarmos práticas sustentáveis de quem produz.

Você deve ter uma peça nobre

A “peça nobre” (ou hero piece, como diria um dos meus professores na LCS) é um detalhe essencial que te valoriza da cabeça aos pés, que eleva o seu guarda-roupa, que te deixa mais confiante, que te dá a certeza de que você pode conquistar o mundo.

Mas não se engane: quando a gente fala em “detalhe”, podemos pensar que a peça nobre se restringe a algo pequeno, como um acessório. Na verdade, a hero piece pode ser basicamente qualquer coisa que você usa quando precisa se sentir forte.

Também não pense que a peça nobre precisa custar uma fortuna: você pode encontrá-la num brechó ou, com sorte, recebê-la como uma herança de família. Pode ser até que você a encontre numa fast fashion. A peça nobre é rara, bem conservada e, acima de tudo, imponente: pode ser um trench coat espetacular, um incrível par de sapatos, um vestido com caimento perfeito, um terno bem cortado, uma bolsa de couro de qualidade inquestionável, uma joia atemporal.

A peça nobre deve te vestir maravilhosamente bem, com um caimento perfeito, sem limitar seus movimentos mas ajudando a tornar os seus gestos em amplos, ágeis e graciosos. A sua peça nobre quer durar muitos anos na sua vida. O material da sua hero piece é impecável e o acabamento é perfeito, mas jamais será um manifesto.

Ao contrário do que a princípio possamos pensar, a hero piece não deve ser chamativa, mas quase um segredo; sua peça nobre deve ser atemporal, acima da moda, sem exageros, sem exibir marcas ou logotipos. Há quem diga que o luxo não deve exibir o seu nome.

A hero piece tem o poder de transformar-nos em verdadeiros heróis e heroínas: invencíveis.

O “french tuck” e a sua silhueta

Aproveitando que estamos falando sobre o je ne sais quoi francês por aqui, queria abordar um truque de styling muito simples que pode fazer maravilhas pela sua silhueta: o french tuck ou tucking in. Infelizmente eu não conheço uma tradução perfeita dessa expressão para o português, mas significa, simplesmente, enfiar apenas um pedacinho da sua camisa/blusa pra dentro da calça/saia/short/bermuda, geralmente na direção do umbigo.

Eu já falei por aqui que a silhueta mais proporcional, no caso feminino, é a ampulheta e, no caso masculino, trapezóide. Em geral, na consultoria de imagem, um dos objetivos principais é criar uma silhueta proporcional, que resulta num visual mais harmônico. É claro que este objetivo, como qualquer outro propósito dentro da consultoria de imagem (que, como eu sempre reforço, é algo absolutamente pessoal), pode ser ajustado de acordo com a projeção de imagem desejada.

Numa sociedade que está constantemente nos lembrando de que estamos fora do padrão e que precisamos nos encaixar, é muito comum que, tão logo ganhemos uns quilinhos a mais, recorramos a roupas mais largas, porque anos e anos de opressão nos levaram a acreditar que isso disfarça o que queremos esconder. Se você ainda não sabia, isso é uma mentira gigantesca.

Quando você usa roupas maiores e mais largas, o efeito causado é justamente o oposto: ao esconder a sua silhueta verdadeira, você perde perde a oportunidade de ressaltar as suas melhores características e apropriar-se de quem você é.

Eu mesma devo confessar que tenho passado por uma fase estranha quanto a isso: por ter um bumbum acima da média europeia, e por ter engordado um bocadinho durante o período de isolamento, precisei comprar algumas calças e shorts novos (meu closet definitivamente não estava preparado pro calorão que fez no verão por aqui). Ao comprar calças/bermudas/shorts, eu muitas vezes recorro a tamanhos maiores que podem de fato acomodar as minhas características físicas mas que, ao mesmo tempo, acabam adicionando volume onde não existe de verdade. Ideal seria se eu mandasse ajustá-las – fica aqui a nota mental para mim mesma.

E é aí que o french tuck também se torna uma ferramenta poderosa porque permite realçar a parte mais fina do meu corpo – que, em geral, é a parte mais fina do corpo de muita gente, mesmo que você não perceba isso em si mesmo.

Se você, como eu, tem uma barriguinha cultivada com carinho, uma pancinha charmosa de quem não se priva de um chocolate ou de um vinho, ou simplesmente ganhou uns quilinhos no período de isolamento, estou aqui para te dizer que, ao esconder o seu corpo dentro de roupas largas, você pode parecer até 2 tamanhos maiores do que você realmente é.

Não acredita? Então vou te propor um exercício: vá para a frente do espelho. Deixe a sua camisa/blusa pra fora da calça/short e faça uma nota mental – ou, melhor ainda, tire uma foto – de como a sua silhueta se apresenta. Agora coloque um pedacinho da camisa/blusa pra dentro da calça/short/saia e repita a nota menta/foto. O que você vê? Eu tenho certeza de que a imagem projetada é de uma silhueta mais enxuta, menorzinha. E também tenho certeza de que, se você adotar esse truque na próxima vez que sair de casa, ninguém vai notar a sua barriguinha charmosa. Na verdade, na maior parte do tempo, a gente costuma se preocupar demais com umas partes do nosso corpo que as outras pessoas nem notam.

Por fim, eu proponho mais um exercício: toda vez que você se olhar no espelho, imagine que está falando com um amigo/amiga. Coloque nessa conversa o mesmo amor, carinho e gentileza que você tem com outras pessoas e seus corpos. A linguagem que usamos para falar com aquela imagem refletida no espelho é tão importante quanto a linguagem que usamos ao conversar com outras pessoas. Eu prometo que, se você se olhar no espelho todos os dias focando sua energia em duas ou três coisas que você ama em você e/ou no seu corpo, ao invés de direcionar seus pensamentos somente para as coisas que você gostaria de mudar, a sua mentalidade, confiança e autoimagem vão melhorar muitíssimo.

Editando um armário cápsula de outono

Há mais de 2 anos, eu escrevi um post apresentando algumas dicas para fazer uma versão real do armário cápsula, que é um dos posts mais acessados na história desse blog. Com o começo do outono por aqui, que veio acompanhado de uma queda drástica nas temperaturas, eu resolvi editar um armário cápsula para a minha estação favorita a partir de peças que já habitam o meu armário.

Mais uma vez, meu ponto de partida foi uma paleta de cores restrita, buscando montar um grupo coerente de peças que funcionem entre si, permitindo multiplicar o máximo possível o número de combinações. O grupo de cores de base é formado pelos tons neutros de caramelo/cinza/preto, o grupo de suporte ficou por conta dos azuis, e as cores vinho e verde pontuam esse armário cápsula.

Para esse capsule wardrobe de outono, que poderia ser um armário cápsula de inverno em algumas cidades do Brasil, eu escolhi:

  • um trench coat longo
  • uma parka impermeável que tem forro removível
  • um blazer xadrez
  • um “chunky” suéter de lã
  • um suéter de algodão
  • um suéter de cashmere
  • uma camisa com pérolas aplicadas na pala
  • uma camisa social de veludo cotelê
  • uma camisa social xadrez
  • uma calça xadrez
  • uma calça de veludo cotelê
  • uma calça jeans
  • uma estola de cashmere
  • um cachecol de lã
  • uma bolsa grande
  • uma bolsa média
  • uma bolsa pequena
  • um par de tênis branco
  • um par de mocassim preto
  • um par de botas modelo “Chelsea”

Note que, das 20 peças escolhidas para o meu armário cápsula de outono, 4 delas já formavam conjuntinhos: o blazer e a calça xadrez compõem um terninho, look clássico para situações mais formais, enquanto a camisa e a calça de veludo cotelê já garantiriam um look caí na tinta. Além disso, esse armário cápsula segue o princípio de ter mais peças de cima (tops) do que peças de baixo (bottoms), o que sempre garante uma maior versatilidade.

O grande twist desse armário cápsula é, pra mim, o tênis branco. Um tênis branco tem a capacidade de modernizar o que é clássico, de dar personalidade ao look. Por sua vez, a bota modelo “Chelsea” é um clássico, diria até um básico para estações mais frias.

Com essas 20 peças, eu consigo pensar em incontáveis combinações: todas as calças combinam com todas as camisas, todas as calças combinam com todos os suéteres, resultando em 18 combinações possíveis. Se pensarmos nos casacos, esse número ainda triplica!

Como a matemática do custo por uso pode te ajudar a comprar menos e melhor

Eu lembro bem da primeira vez que comecei a pensar na lógica do custo por uso na minha vida: foi em 2009, quando eu era guia pra Orlando. Consequentemente, visitava outlets e shoppings a cada 6 meses numa época em que a cotação dólar x real permitia fazer várias comprinhas por temporada. Na época, nem se pensava em ter Forever 21 no Brasil, e a ideia de comprar várias brusinhas por preços baixíssimos (estamos falando de no máximo US$5 numa época em que a cotação do dólar turismo ficava entre R$1,70 e R$2,40) era muito atrativa para uma pessoa de 19 anos que estava na faculdade (da graduação ao mestrado) e queria fazer render ao máximo o dinheirinho que ganhava. Até então, eu achava que fazer render o meu dinheirinho era comprar muitas peças de roupas diferentes.

Eis que em 2009 eu comprei muito mais do que brusinhas na Forever 21 (tô usando Forever 21 como exemplo principal porque era a mais baratinha de todas, mas isso valia também pra H&M e até Abercrombie/Hollister, que bombavam na minha época de jovem): em seguida do meu grupo de julho, eu viria para a Suíça(!) pela primeira vez, participar de uma semana de simulações dos comitês da Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Genebra. Com isso, eu olhei a forevinha de outro jeito, comprando brusinhas sim porém tentando também fazer alguns achados que eu pudesse aproveitar nos looks formais nessa semana que eu passaria na ONU. Só que aí a American Airlines não colocou as malas do nosso grupo no nosso voo (sério, t-o-d-o-s chegamos no Brasil sem a bagagem que tínhamos despachado), e eu fiquei de mãos abanando, já que meu voo pra Genebra era, literalmente, no dia seguinte, e as malas não chegariam a tempo.

Ou seja: eu tinha enchido UMA MALA INTEIRA de coisas da forevinha que simplesmente não chegaram em tempo de cumprir o seu propósito principal, e ainda tive que sair correndo pra comprar roupas pra viajar no dia seguinte – sem contar que tive que comprar mala também. Sem contar que eu coloquei os cabos e fonte da minha câmera digital novinha na mala despachada e tive que viajar pra zoropa com uma câmera mais velha. Desde então, eu nunca na minha vida mais despachei nem um único cabo/fonte.

Corta pra quando eu cheguei de volta em Niterói depois de 2 semanas entre Genebra e Paris (essa foi a minha primeira viagem pra Europa e eu literalmente implorei pra minha mãe pra eu passar uns dias em Paris, mesmo sozinha, mesmo pegando dia dos pais e aniversário da Mivó, e ela deixou). Abri as malas que vieram de Orlando, e aquele monte de roupa que eu comprei na forevinha simplesmente não fazia sentido pra mim. Eu lembro que, enquanto eu fazia essas compras, desde antes de virar guia, eu me convencia de que valia a pena porque eu chegaria no Brasil com um armário completo pra nova estação e não precisaria comprar mais n-a-d-a nas lojas brasileiras (pense em Farm, Dress To, Cantão, Maria Filó, Animale, etc). Veja bem, era um bom argumento, bastante convincente. Só que aí era só sair coleção nova que eu já tava lá, conferindo as novas estampas, as novidadinhas, gastando minha mesada/bolsa de estudos todinha naquelas roupas que também acabariam vivendo por pouco tempo no meu armário – afinal de contas, pra tudo que entrava, alguma coisa tinha que sair.

Foi justamente nesse período que o conceito de custo por uso começou a ser formulado. Ao ver as notas de compras na forevinha, que eu sempre guardava, eu notei que a soma de todas aquelas brusinhas dava pra comprar uma bolsa de luxo. Imagina a ficha caindo?! Eu fiquei pasma: quase não acreditava que tinha gasto o equivalente a uma bolsa da Louis Vuitton (que, na época, ainda era objeto de cobiça) em brusinha/óculos escuros de qualidade questionável.

Seria injusto eu dizer que nunca fiz uma compra verdadeiramente boa na Forever 21 (ou equivalente): algumas peças tinham qualidade bastante razoável, tendo durado alguns anos no meu guarda-roupa, e cheguei até a ir a mais de um casamento vestida com lookinhos forevinha que custaram uma bagatela e faziam bonito. Essas peças realmente tiveram um custo por uso MUITO baixo, mas são itens que eu conto nos dedos da mão. Em geral, tudo isso que eu comprava a cada 6 meses nos EUA, tinha um tempo de vida útil muito curto no meu armário, sendo doadas muito rapidamente.

Isso era um tipo de consumo insustentável. E foi aí que eu entendi que, se eu comprasse coisas muito baratas que não usava nunca, o custo por uso foi altíssimo. Mas se eu comprasse uma coisa cara que eu usasse por muitos anos (preferencialmente, a vida inteira), o custo por uso seria baixíssimo. Por exemplo: se eu usasse 2 vezes uma brusinha de US$5 antes de doá-la, o custo por uso dela seria de US$2,50; por sua vez, se eu usasse cinquenta vezes uma blusa de US$50, o custo por uso dessa peça seria US$1.

No momento em que essa ficha caiu, eu me decidi que, na temporada de janeiro de 2010, a prioridade do meu orçamento de viagem seria comprar uma Speedy 30 da Louis Vuitton: eu era alucinada por esse modelo por vê-la nas mãos da Audrey Hepburn, que era uma referência de estilo muito grande pra mim na época (e ainda é, na verdade). Com o dinheiro que sobrasse, eu estaria livre pra comprar quaisquer outras coisas que quisesse (bota aí que boa parte do meu orçamento sempre ia nas coisas de parque, porque eu sempre fui assim).

toda faceira usando a Speedy pela primeira vez em Downtown Disney (hoje Disney Springs)

Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão do custo-benefício, principalmente considerando compras de luxo. Nesse caso, o custo por uso é bastante objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25. Ou seja: a bolsa de US$1000 tem um custo por uso menor do que a bolsa de US$50, e consequentemente corresponde a um uso melhor do meu dinheiro.

Sempre que eu fico com vontade de comprar alguma besteira, eu penso que aquela quantia poderia ser investida numa coisa mais duradoura e reflito MUITO sobre cada compra. Isso não significa que eu não compre mais nenhuma besteirinha, que eu não compre nenhuma coisinha baratinha; no entanto, significa que a minha reflexão sobre todas as minhas compras diminui o meu ritmo de consumo, me fazendo me perguntar o porquê de cada compra, e por vezes me fazendo desistir das besteirinhas em prol de uma coisa mais cara que tem mais potencial de uso e durabilidade na minha vida.

Desde a Speedy 30, todas as vezes que fui pra Orlando como guia eu aproveitei pra “investir na bolsa”; alguns investimentos foram melhores do que outros, e algumas bolsas eu acabei vendendo porque não eram usadas como deveriam (aumentando o custo por uso e ocupando espaço precioso no meu armário). Mas essa matemática que eu aprendi há mais de 10 anos atrás continua guiando as minhas compras até hoje, e eu procuro ensiná-la aos meus clientes da consultoria de imagem e estilo.

Slow fashion: ask why before you buy

O primeiro passo para adotar o slow fashion é perguntar-se o propósito de cada compra antes de efetivamente comprar (ask why before you buy) – ou seja, comprar com intenção.

Uma das principais funções do personal stylist é educar os seus clientes sobre como criar um armário que será verdadeiramente amado e valorizado.

Quando você compra com intenção e de fato se pergunta o porquê antes de comprar, você com certeza adicionará somente itens que você realmente ama ao seu guarda-roupa. Então, o vestir diário torna-se uma verdadeira diversão, e não simplesmente uma função, pois o seu armário só tem peças que você realmente ama e que serão usadas muitas e muitas vezes, diminuindo o custo por uso.

Ao questionar cada compra, você de fato diminui o ritmo do seu consumo, e isso é uma coisa ótima tanto para o meio ambiente quanto para o seu saldo bancário.

Você não precisa de um armário lotado de coisas. Você precisa de um armário com coisas boas, adquiridas por meio de compras pensadas de peças que você de fato vai amar por várias estações.

Elegância não depende de orçamento

Há um tempo atrás, eu escrevi um post que debatia, de maneira sucinta, como podemos ter um estilo elevado independente do orçamento. Hoje, eu quero entrar um pouco mais nesse debate, trazendo algumas dicas de como vestir-se de maneira mais elegante, seguindo a mesma linha de raciocínio de que ter um estilo polido não tem nada a ver com o seu orçamento.

Antes de entrar nas dicas práticas que podem nos ajudar a desenvolver um vestir mais elegante, eu devo dizer que, na minha humilde opinião, elegância vai muito além do que se veste. Pra mim, ser elegante é algo que está relacionado diretamente ao seu estilo de vida, desde a maneira como você trata as outras pessoas até o jeito de fechar uma gaveta.

Depois desse disclaimer, me sinto pronta pra falar sobre alguns aspectos que definem um estilo elegante.

Tecidos fluidos

Ainda que nem sempre sejam usados nas roupas mais práticas, os tecidos fluidos tem a capacidade de instantaneamente elevar um look. Pense, por exemplo, em blusas/camisas/camisetas de seda e sua fluidez: há uma elegância inata a essas peças.

Pouco contraste entre as cores

Embora looks super coloridos sejam muito interessantes visualmente, em geral eles são menos elegantes do que propostas que apresentam um menor contraste entre as cores. Nesse caso, um look branco e preto (que é altíssimo contraste) é menos elegante do que a combinação cinza e branco, ou azul marinho e preto, por exemplo.

Combinações monocromáticas ou análogas com intensidade suave

Quando a gente pensa que roupa preta é mais chique do que qualquer outra, ou que “preto emagrece”, é porque o nosso pensamento mais básico leva a perceber uma elegância inerente ao que é monocromático. Na verdade, o que tem essa “chiqueza” toda é o uso de uma única cor – o que também é percebido quando escolhemos tons suaves e análogas. Usadas corretamente, combinações monocromáticas podem ter o mesmo efeito “emagrecedor” de uma roupa toda preta, o que é um ótimo recurso para quem não tem preto na cartela.

Tom sobre tom

Uma cartela de cores é muito conveniente na hora de montar um look tom sobre tom, já que muitas delas tem as variações das cores e facilita visualmente a escolha dos tons que mais nos agradam e/ou temos a nossa disposição. Um look tom sobre tom não é só elegante mas pode ser até mesmo “calmante” não só para quem tá usando mas também pra quem encontra conosco – não podemos nos esquecer nunca da psicologia das cores.

Alfaiataria

Ternos, costumes, blazers, calças de corte reto, tailleurs (ou terninhos), vestidos tubinhos ou de outros cortes retos/simples, e até mesmo bermudas de corte reto fazem parte desta categoria de roupas, que tem uma elegância originada na história da alfaiataria, uma vez que essas peças costumavam ser feitas manualmente em oficinas, observando as medidas individuais de cada cliente, com caráter de exclusividade.

Corte e caimento

Uma peça bem cortada, com caimento perfeito, é garantia de elegância. Mas não se engane: não só apenas as peças de alfaiataria que são bem cortadas e/ou tem caimento perfeito. É possível usar uma simples t-shirt de algodão que é super bem cortada e veste perfeitamente, e isso já vai fazer toda a diferença para elevar o seu estilo.

Estampas mais suaves

Em geral, as estampas que tem a capacidade de deixar o seu look mais elegante são as mais suaves como, por exemplo, o tradicional floral Liberty. Estampas de cores análogas ou com intensidade suave também podem entrar nesse grupo.

Acessórios minimalistas

Acessórios em linhas retas/simples, menores, sem muitas cores costumam garantir um visual mais elegante. Pérolas pequenas, brincos discretos, pulseiras e colares mais finos, sem muitos pingentes, são alguns dos exemplos de acessórios minimalistas.

É lógico que você não precisa aplicar todas essas dicas de uma só vez, ou mesmo prender-se ao que eu escrevi aqui. Um dos caminhos da consultoria de estilo e imagem é a estratégia intencional, aplicando as diretrizes em alguns lugares e/ou determinados momentos nos quais o desejo é transmitir determinada mensagem por meio do vestir.

O que é a estratégia intencional na imagem?

Em 2014, eu recebi o meu título de Mestre em Estudos Estratégicos da Defesa Nacional e Segurança Internacional. E o que isso tem a ver com esse post?

Simples: estratégia. Uma das primeiras disciplinas que eu cursei no mestrado versava sobre o pensamento estratégico e diversas maneiras possíveis de aplicá-lo. E é claro que eu aplico o pensamento estratégico que eu aprendi na pós-graduação na construção da imagem e do estilo (também continuo aplicando nos meus estudos de doutorado, mas isso é outra história).

Um dos caminhos da consultoria de estilo e imagem é a estratégia intencional, na qual são aplicadas certas diretrizes, em algumas situações, em determinados ambientes, com o objetivo de controlar a mensagem transmitida por meio do vestir.

Tudo o que a gente veste conta uma história sobre quem nós somos. Por isso, é tão importante prestarmos atenção a essa história que estamos contando. Ao ter plena consciência da história que estamos contando por meio das nossas roupas, acessórios, sapatos, podemos ter controle sobre essa narrativa visual e garantir que ela seja o mais verdadeira possível.

Essa comunicação do vestir é instantânea: podemos não falar nada e emitir uma mensagem clara do que somos pelas nossas roupas, acessórios, sapatos. Mas essa comunicação não acontece só para os outros, mas também para nós mesmos, no reflexo que vemos nos espelhos, na maneira como nos sentimos. Todas as escolhas que fazemos (cores, cortes, caimentos, texturas) contam um pouco do que somos, construindo uma expectativa. O vestir intencional, consciente, mesmo que para as mais simples atividades diárias, pode nos animar para o dia, dando um gás extra para todos os desafios.

Um armário consciente, bem editado, que atenda bem às demandas do cotidiano individual, certamente contribui para que o vestir intencional se dê de uma maneira mais simples, podendo ser aplicado a mais situações sem que seja necessário passar muito tempo pensando no que vestir.

Vestir-se intencionalmente não tem nada a ver com o tempo que você leva pensando no que vestir; pelo contrário, quanto mais consciente da mensagem que deseja transmitir, mais fácil se torna a aplicação da estratégia intencional e, consequentemente, você leva menos tempo para se arrumar.

Zona de conforto ou look assinatura?

Estamos sempre ouvindo que é preciso sair da zona de conforto – ou melhor, das muitas zonas de conforto: seja no trabalho, no que fazemos em momentos de lazer, no que vestimos, etc. Pois eu venho humildemente contestar esse tipo de afirmação – pelo menos no que diz respeito a ter uma zona de conforto dentro do seu armário.

Não, você não leu errado. Não, eu não to doida. Na verdade, eu acho que o papel de um consultor de imagem e estilo pessoal é justamente ajudar cada indivíduo a encontrar a sua zona de conforto, transformando-a no que podemos chamar de “look assinatura”.

Pensa comigo: quantas vezes você já abriu seu armário abarrotado de roupas e teve a certeza de que não tinha o que vestir? Quantas vezes você comprou um acessório, um sapato ou uma bolsa da moda e acabou não usando? Em meio a todas as tendências de moda que consumimos, é fácil confundir-se e lotar o armário de coisas que simplesmente não fazem sentido para nós. Mas eu também tenho certeza de que, no meio de todas essas roupas que te levam a acreditar que não tem o que vestir, você tem algumas peças do coração, aquelas na direção das quais você sempre gravita, aquelas que te fazem sentir segurança e que te ajudam a ter mais gás pra enfrentar o mundo. Acertei?

Essa seria a sua zona de conforto – ou melhor, as peças que podem compor o seu look assinatura.

Se você ama usar terninho, este pode se tornar seu look assinatura. Se você ama vestidos, eles podem ser seu look assinatura. Se você gosta do comprimento midi, você pode adotá-lo como seu look assinatura. E você também pode ter mais de um look assinatura. Aliás, eu diria que a gente deve ter alguns looks assinatura, algumas combinações de peças que nos dão muita segurança e tranquilidade ao vestir para as mais diversas situações.

Em tempos de quarentena, muita gente tem descoberto a importância do conforto no home office, e tenho certeza de que muitas pessoas vão querer implementar o conforto nos looks de trabalho uma vez que a rotina fora de casa for retomada no “novo normal” (ainda não sei se gosto desse termo). E eu diria que o seu look assinatura deve ser, sim, muito confortável. 

Eu reconheço que tenho alguns looks assinatura, que compõem a minha “zona de conforto” pra facilitar a minha vida. Até mesmo para o home office eu tenho um look assinatura, já que (mesmo antes do coronavirus) eu passo muito tempo estudando, escrevendo e trabalhando de casa: calça de moletom + t-shirt, com um casaco de moletom sempre por perto. Aliás, acho que já falei por aqui que não vejo nada de errado em trabalhar de casa usando moletom; muito pelo contrário, acho a melhor opção desde que esteja num estado decente (no mínimo, sem furos ou rasgos). Para o look do home office, a minha regra é não usar nada que não pudesse usar na rua ou numa chamada de vídeo.

A gente nunca pode confundir conforto com desleixo. É absolutamente possível e nem um pouco difícil montar um look confortável com cara de pensei-muito-me-esforcei-e-o-lookinho-ficou-ótimo sem, de fato, gastar muito tempo pensando no look. Para isso, bastam algumas ferramentas de styling. É lógico que a ajuda de um consultor de imagem profissional será valiosa nesse momento, o que não significa que você não possa aprender alguns truques sozinho.