From Skinny to Loose: uma nova era das calças jeans?

Deu no New York Times: depois de uma década, as calças skinny estão perdendo seu posto como absolutas favoritas entre os consumidores.

A matéria do NYT destaca que o obituário do jeans skinny já foi escrito várias vezes ao longo dos anos desde a sua ascensão há mais de uma década e, mesmo assim, a peça de roupa continuou super popular – não só nas lavagens mais clássicas, mas também em novas cores e cortes, e com diferentes porcentagens de stretch, sendo reinventada a cada estação.

No entanto, atualmente, os sussurros de que seu reinado esteja chegando ao fim pode ter um peso real já que os consumidores tem buscado cada vez mais calças jeans de cintura alta e modelagem mais solta. De acordo com a reportagem do NYT, os executivos da Levi Strauss & Co. confirmaram que as tendências de vendas confirmaram que modelagens mais soltas – até mesmo bem amplas, no estilo baggy – de calças jeans femininas e masculinas tiveram um boom nas vendas, e podem se tornar uma marca do mundo pós-pandêmico.

Chip Bergh, executivo-chefe da Levi’s, declarou, em entrevista, que o último ciclo do jeans durou mais de 10 anos e, embora possa ser cedo para dizer que chegou ao fim o ciclo das calças skinny, é possível ver uma demanda crescente dos modelos mais largos – não só na Levi’s mas também entre outros fabricantes de jeans. De acordo com Bergh, se essa tendência se sustentar por mais uma ou duas estações, é bastante possível que estejamos em um novo ciclo do jeans.

O principal estilo mais amplo buscado pelos consumidores é popularmente conhecido como “mom jeans“. Embora já estivesse à venda há alguns anos (eu mesma lembro que comprei meu primeiro mom jeans em 2017), foi neste último ano que o modelo passou a ganhar maior visibilidade em fashionistas das redes sociais e personagens jovens dos programas disponíveis em serviços de streaming. O look costuma ser formado pela calça mom com blusas mais ajustadas – segundo Bergh, esse parece ser o look favorito da Geração Z e dos jovens millennials.

Levi’s® RED™ Low Loose Work Pants 1
Fonte: Levi’s
501® Levi's® Crop Jeans 1
Fonte: Levi’s
Ribcage Wide Leg Jeans 1
Fonte: Levi’s

A reportagem do NYT ressalta que o tipo de jeans vestido pelos norte-americanos – seja ele calça boca de sino, flares ou skinny – costuma ser associado à eras específicas, e as lojas/fabricantes estão ansiosos pra ver o quão forte será a tendência dos jeans mais soltinhos nos tempos pós-pandemia. É claro que, para o setor de venda de roupas, depois de um ano de quedas vertiginosas nas vendas, a perspectiva de um novo estilo de jeans ser popularizado é animadora, já que este setor busca aumentar suas vendas e deixar os consumidores animados com (a compra de) roupas outra vez.

No Brasil, jeans é coisa séria. Uma reportagem de 2016 da revista Superinteressante mostra que o jeans representa cerca de 68% de todo o vestuário fabricado no país. Estima-se que 100 milhões de peças jeans sejam vendidas anualmente, fazendo do Brasil o 2º maior mercado de jeans do mundo, atrás apenas dos EUA. Todo ano, cerca de 40 modelos de jeans chegam às lojas todo ano, e 5 deles costumam virar tendência.

Na década de 1960, a marca Lee virou sinônimo de jeans no Brasil – do mesmo jeito que, até hoje, temos o costume de chamar lâminas de raspagem pelo nome da marca Gillette, naquela época as pessoas se referiam às calças jeans como “calça Lee”. No começo dos anos 1970, em meio à ditadura militar, vive-se o “milagre econômico”, concomitante a uma acelerada transformação no comportamento dos jovens. De olho no mercado brasileiro, em 1974, a Levi’s adaptou o corte dos seus jeans aos gostos nacionais: calças justas na frente para os homens, e atrás para as mulheres. No mesmo ano, a Ellus introduziu a moda dos jeans stone washed. Depois, vieram as grifes – é curioso pensar que em nenhum país do mundo há tantas marcas famosas assinando peças jeans como no Brasil.

No início do ano passado, a Levi’s introduziu uma coleção pequena de calças femininas de cintura alta, mais largas e wide-leg chamadas calças balloon, que venderam muito bem, levando a companhia a dobrar sua produção. No último quadrimestre de 2020, a Levi’s também viu um aumento de 50% das vendas dos modelos masculinos mais relaxados (como os clássicos da linha 500) em relação ao mesmo período no ano anterior. E pensar que, há poucos anos atrás, a Levi’s considerou interromper a produção desses modelos, que não estavam vendendo tão bem.

Stay Loose Jeans 1
Fonte: Levi’s
501® Levi's® Original Jeans 1
Fonte: Levi’s
Levi's® Vintage Clothing 501® 1954 Jeans 3
Fonte: Levi’s

Pode-se dizer que a pandemia tem uma influência direta nesta nova tendência, desde o ganho de peso que a maioria de nós teve no último ano até a animadora perspectiva de retomar um pouco de normalidade no dia a dia – ambas razões que podem motivar os consumidores a procurar novos modelos de jeans.

Para quem é fissurado em calça skinny, pode ficar tranquilo: mesmo que o look dos anos 2020s seja definido por calças jeans mais amplas, isso não significa o desaparecimento por completo dos modelos mais justinhos. A tendência é que tenhamos mais ofertas de mais modelos diferentes, aumentando as opções para atender aos mais diferentes gostos e ocasiões.

Refletindo sobre consumo consciente em 2021

Depois de um grande hiato – em que eu mais rascunhei textos do que, de fato, terminei algum -, eis aqui o nosso primeiro post de 2021, que é uma reflexão diretamente provocada por um artigo da Vogue que eu li recentemente.

Neste artigo, a grande pergunta é: como o consumidor consciente se veste em 2021? E, mais: como consumir conscientemente neste ano? De acordo com a reportagem, é denominador comum que as palavras-chave na moda em 2021 são conforto e pragmatismo, com igual importância para a sustentabilidade. Então como fazer uma coleção de moda ser adequada a estes tempos?

O artigo da Vogue coloca a estilista Maria McManus como exemplo de preocupação com esses três conceitos-chaves desde antes da pandemia, já que ela começou a trabalhar numa linha de básicos chiques ainda em 2019. A Vogue destaca que um dos grandes benefícios de lançar sua marca nestes tempos que estamos vivendo é que McManus está diretamente engajada com novos consumidores conscientes.

O movimento de sustentabilidade na moda não é exatamente novo, mas ganhou força nos últimos anos. No entanto, tem sido um movimento inverso, em que as grandes forças deste mercado se engajam para melhorar suas já existentes práticas de trabalho e obtenção de materiais. No Brasil mesmo, são incontáveis as marcas que tiveram que rever seu processo produtivo por conta de denúncias de trabalho escravo na linha de produção, por exemplo. Por sua vez, há algumas marcas que realmente se comprometem com o slow fashion – pra mim, um grande exemplo é o Coletivo Lírico, que propõe vários designs super legais de t-shirts mas que só as produz de acordo com a demanda e não aceita devoluções (a menos que haja um defeito de produção), evitando acúmulo de produção e, consequentemente, gerando menos lixo.

com minha brusinha mais amada do Coletivo Líricoslow fashion 100% algodão, 1000% poesia.

Maria McManus começou do zero com uma política muito clara, e até bastante agressiva; de acordo com Maria, se o tecido não for reciclado, orgânico, biodegradável, ou obtido de maneira responsável, ela simplesmente não usa. Deste modo, McManus já edita a sua produção desde o começo, sabendo exatamente o que ela procura. Maria também se preocupa com o uso dos recursos disponíveis para as suas etiquetas, que são recicladas, e também com os botões que usa, feitos a partir de nozes corozo (ou nozes tagua, que são consideradas o marfim vegetal).

Maria McManus tem uma preocupação direta com os tecidos que ela usa, com uma lista bem clara de certificações objetivas: o nylon e a cashmere reciclados são certificados pelo padrão de reciclagem global (Global Recycled Standard); o algodão orgânico é certificado pelo padrão global de tecidos orgânicos (Global Organic Textile Standard), o que significa que os fios não podem ser tratados com alvejante de cloro, formaldeído ou outros produtos químicos; a lã merino é verificada pela OEKO-TEX e o padrão de lã responsável (Responsible Wool Standard); e o tencel é certificado pelo Conselho de Gestão Florestal (Forest Stewardship Council), o que garante a administração responsável dos recursos naturais obtidos.

Esse tipo de preocupação com os tecidos influencia diretamente na vida do consumidor. Como nós já conversamos diversas vezes por aqui, tecidos obtidos através de fibras orgânicas/naturais costumam ser mais duráveis, são mais agradáveis ao toque, tem uma manutenção mais fácil, são biodegradáveis, entre tantos outros benefícios. Se nós, enquanto consumidores, estamos mais ligados sobre a maneira como nossas roupas são feitas, essas certificações citadas anteriormente costumam ser a diferença entre o progresso e o greenwashing (o termo greenwashing compreende a prática de promoção de discursos, anúncios, propagandas e campanhas publicitárias com características ecologicamente/ambientalmente responsáveis/sustentáveis). Termos como orgânico, ecológico, natural e sustentável são frágeis; se uma marca de moda alega que o algodão usado na produção é 100% orgânico, é preciso estar preparado para provar a procedência e veracidade da informação.

É fato que ainda há uma parcela pequena de consumidores conscientes, que compreendem o seu papel no consumo de moda como agentes modeladores de um novo jeito de produção. A reciclagem de roupas, por exemplo, ainda é uma prática muito nova e pouco disseminada – são pouquíssimos os centros de arrecadação de roupas para reciclagem, e pouquíssimas são as lojas que dispõem de caixas de coleta para peças destinadas à reciclagem. De acordo com o artigo da Vogue, Maria McManus compreende isso, e sabe que o principal apelo das suas criações é resultar numa coleção cheia de peças essenciais e duráveis que nós costumamos querer no nosso dia a dia: roupas fáceis, clássicas e confortáveis, com um toque de atitude e um bônus de comprometimento com o planeta. Para além dos materiais, a atenção aos detalhes e ao caimento faz a diferença na coleção de McManus, que também oferece peças vintage, escolhidas a partir de uma curadoria cuidadosa para fazer parte do styling. Tudo isso complementa a visão de Maria McManus de criar itens que poderão ser usados por muitos e muitos anos, com muita transparência e honestidade no seu processo criativo e produtivo.

É claro que o lançamento de McManus não é para todos os bolsos – os preços podem girar em torno de USD400 e USD800 -, mas é certamente um bom exemplo do comprometimento com uma moda verdadeiramente mais sustentável. Pra mim, já está mais do que provado que nada se cria, tudo se copia, e é por isso que eu sou otimista em pensar que esse tipo de prática poderá ser cada vez mais disseminada entre marcas mais populares – no Brasil e no mundo.

Eu realmente acredito que os consumidores desempenham papel importantíssimo para que as marcas de moda se preocupem cada vez mais com o desenvolvimento responsável e sustentável das suas coleções, e é por isso que eu gosto tanto de trazer estes temas pra cá. Quanto mais a gente reflete sobre a origem das nossas peças, sobre o impacto ambiental causado pelo que a gente veste, e sobre as escolhas que a gente faz ao consumir, mais o debate se populariza, e são maiores as chances de consumirmos conscientemente e de cobrarmos práticas sustentáveis de quem produz.

O que nunca te contaram sobre o estilo de vida francês

Eu queria refletir, de modo um pouco mais aprofundado, sobre o estilo francês, sobre esse je ne sais quoi que encanta tanto e que desperta tanto desejo. Eu não sou a maior especialista no assunto, mas sempre fui muito observadora e nunca perdi a oportunidade de reparar nos franceses nas vezes em que na terra deles estive. Além disso, já li uma parcela (jamais suficiente) de literatura sobre moda e estilo francês, tendo notado que um tema recorrente como característica marcante do estilo de vida deles é o bem-estar (bien-être), o sentir-se bem na sua própria pele (bien dans sa peau).

Se você já viu um francês/uma francesa porque esteve na França presencialmente ou por meio de filmes e séries, convido a uma breve reflexão: qual é a primeira imagem que vem a sua cabeça? Com certeza não é uma boina vermelha, porque isso, sim, é um clichê daqueles (não é que não exista, mas é algo demasiadamente caricato). Se eu fecho os olhos e me lembro de Paris, eu imediatamente me transporto para os parques e jardins espalhados pela cidade. Temos, aí, a primeira grande marca do bien-être: a conexão com o ar livre e, diretamente ligado a isso, o exercício físico praticado de modo inconsciente.

*toca Charles Aznavour ao fundo*

Na França, academias não fazem muito sucesso. Pra que ficar numa esteira, por exemplo, se você mora num prédio de escada, se pode subir e descer as escadas do metrô, se pode caminhar pelas ruas entre um compromisso e outro? Em Paris, como em outras cidades europeias, elevador é artigo de luxo – no prédio em que moramos, por exemplo, temos um elevador minúsculo, para apenas 2 pessoas, e que não chega exatamente até nosso andar, precisando subir sempre “meio lance” de escada (sim, prédios na Suíça, ou pelo menos em Berna, são estranhos). Da mesma forma, contratar alguém para desempenhar as tarefas domésticas é algo absolutamente restrito a uma camada muito rica da sociedade. E quem nunca entendeu que uma bela faxina em casa é um excelente exercício físico, está perdendo uma bela oportunidade!

E, por falar em caminhar, a mulher francesa jamais usará um sapato que não lhe seja absolutamente confortável e adequado para as suas tarefas diárias. Salto no dia a dia? Esqueça. Se parte do je ne sais quoi francês é o bien dans sa peau, jamais faria sentido usar peças no vestuário que possam limitar ou até mesmo atrapalhar os seus movimentos.

Vamos voltar um pouquinho no tempo e pensar, por exemplo, em Mademoiselle Chanel e na icônica bolsa Chanel 2.55: Gabrielle estava cansada de ter que carregar bolsas nos braços e decidiu criar um modelo que deixasse as suas mãos livres. É muito interessante pensar que, como marca, a Chanel sempre prezou pelo conforto feminino, e algumas fontes dizem que as bolsas transpassadas usadas por militares nos anos 1920 inspiraram o design da bolsa Chanel 2.55 (que leva esse nome por conta do mês e ano de sua criação: Fevereiro de 1955. E, imagine só: este modelo custava apenas USD220 naquela época!). Com esta criação, Coco Chanel revolucionou a história das bolsas femininas: pela primeira vez na história, era aceitável que mulheres de determinado status social carregassem bolsas em seus ombros, deixando as mãos livres.

Estar bem na sua própria pele é, com certeza, o primeiro passo para ter uma boa autoestima, uma autoconfiança elevada. Pensando na mulher francesa, ela investe muito mais no cuidado com a sua pele do que em maquiagem. De novo, um exercício: feche os olhos por um segundo e pense nas prateleiras de produtos para skin care da sua farmácia mais próxima. Quantas marcas francesas estão ali? Tudo isso tem uma razão de ser. Se uma francesa usa maquiagem, ela não quer que você saiba que ela está usando maquiagem. Tudo é milimetricamente pensado para parecer que não foi pensado – a diferença é que elas se acostumam desde a infância a isso, aprendendo em casa, com suas mães e avós, a cuidar da pele, a sentir-se bem na própria pele.

E, por falar da pele, os franceses acreditam que a cultura deixa a pele rosada (a famosa “cara de saúde”), tanto quanto consumir produtos frescos. O interesse por arte, cultura e política permeia o dia a dia e molda todo o estilo de vida.

Por fim, pra quem acha que a unha francesinha nasceu na França e é moda entre as francesas, devo informar que elas não entendem o porquê desse tipo de pintura, nem jamais o usariam: na verdade, elas consideram que representa exatamente o contrário do chique francês…