Estava devendo este post faz tempo! Em março, visitei o Musée Yves Saint Laurent, inaugurado recentemente em Paris. Desde outubro de 2017, o endereço 5 avenue Marceau abriga um museu dedicado à vida e aos trabalhos desse verdadeiro artista da moda, no lugar onde, outrora, funcionava a maison de couture de Saint Laurent.

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Yves Mathieu-Saint-Laurent nasceu em 1º de agosto de 1936 em Oran, na Argélia. Filho de Lucienne e Charles Mathieu-Saint-Laurent, que dirigia uma companhia de seguros e era dono de uma cadeia de cinemas. Yves e suas duas irmãs, Michèle e Brigitte, cresceram no coração da brilhante sociedade de Oran. Nos bancos da escola primária e nas cadeiras do colégio, o jovem rapaz tímido e sensível consumia com assiduidade a literatura e as revistas de moda da sua mãe.

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“As modas passam, o estilo é eterno.”

Aos 13 anos, na sua cidade natal, Yves assistiu a uma apresentação da Escola Feminina, junto de Louis Jouvet. As decorações eram de Christian Bérard, um artista-prodígio, e que foi para Yves um grande choque. Na época, existiam turnês teatrais de qualidade extraordinária, e foi assim que o jovem Yves pode descobrir “La Machine Infernale” de Jean Cocteau, com Jean Marais, Elvire Popesco e Jean-Pierre Aumont, com as decorações de Bérard. Em seguida à tais descobertas, Yves constrói seu “Illustre Petit Théâtre”, uma miniatura sobre a qual os personagens de papel vestiam os trajes inventados pelo jovem rapaz. Essa paixão se junta ao seu amor pela literatura, e ele escreve seus primeiros poemas. Foi durante a adolescência que Yves Saint Laurent descobriu, com admiração, a obra de Marcel Proust, que continuaria a fascinar-lhe por toda a sua vida. Os primeiros croquis de figurinos de Yves Saint Laurent deixaram claros o seu dom para o desenho.

Entre 1953 e 1954, Yves começa a imaginar a maison de couture dos seus sonhos: “Yves Mathieu Saint Laurent Haute Couture Place Vendôme”. As revistas de moda preferidas de Lucienne, sua mãe, passam a ser recortadas por Yves, que selecionava as silhuetas das suas manequins preferidas e cria um guarda-roupas inteiro de papel, usando também guache e/ou aquarela.

Em 1953, aos 17 anos, Yves Saint Laurent participou do concurso anual do Secretariado Internacional da Lã, com um juri composto de célebres couturiers como Hubert de Givenchy e Christian Dior. O Secrétariat International de la Laine representava os produtores de lã do Hemisfério Sul, e se incumbia de promover o material, natural ou sintético. Este concurso contemplava três categorias: casacos, alfaiataria e vestidos. Yves Saint Laurent recebe o prêmio de terceiro lugar na categoria de vestidos, que ele vai receber em Paris acompanhado de sua mãe. Na sua primeira visita à capital francesa, Yves se encontra com Michel de Brunhoff, redator chefe da revista Vogue, que era conhecido de seu pai. A influência de seu pai será decisiva ao encorajá-lo a perseverar em tudo enquanto se aplicava para tornar-se bacharel.

Em setembro de 1954, Yves Saint Laurent se instala em um pequeno quarto no número 209 do Boulevard Pereire em Paris, e começa a estudar na Câmara Sindical de Costura. Em novembro do mesmo ano, ele participa em outro concurso do Secrétariat International de la Laine e, desta vez, ganha o primeiro e o terceiro prêmios na categoria de vestidos, entre os 6000 desenhos anônimos enviados. O modelo que ganhou o primeiro prêmio – um vestido coquetel em crepe preto – foi costurado nos ateliês de Hubert de Givenchy. Karl Lagerfeld, com 21 anos, ganhou o primeiro prêmio na categoria de casacos daquele mesmo concurso.

Yves e Michel de Brunhoff continuaram se correspondendo. Em junho de 1955, o jovem apresenta a Brunhoff alguns croquis. O redator chefe da Vogue Paris fica estupefato com a semelhança dos traços desenhados por Christian Dior, e decide mostrá-los a ele. Em 20 de junho de 1955, Yves Saint Laurent se encontra com Christian Dior no número 30 da Avenue Montaigne. Igualmente impressionado pelo talento do jovem, Dior o contrata imediatamente para trabalhar com ele. Um dos primeiros vestidos de Yves Saint Laurent na Dior foi imortalizado por Richard Avedon na famosa foto “Dovima et les éléphants”, fotografada no Cirque d’Hiver. Naquela época, Saint Laurent reencontra as manequins-vedettes Victoire Doutreleau e Anne-Marie Muñoz, que se tornaria sua colaboradora no estúdio depois da criação da sua maison de couture.

Ao longo de pouco mais de dois anos, Yves Saint Laurent vai aprender, ao lado do mestre Christian Dior, todos os segredos do meio do couturier. Entre desenhos de croquis e peças piloto, eles criaram juntos coleções de cerca de 200 modelos. Fica confiada à Yves a tarefa de decorar as boutiques, além de participar da confecção de muitos vestidos de alta costura. Yves Saint Laurent ganha rapidamente a confiança de Christian Dior, que lhe confia mais responsabilidades.

Em 24 de outubro de 1957, Christian Dior morre de ataque cardíaco enquanto se tratava em Montecatini, na Itália. Conforme tinha sonhado, Yves Saint Laurent, com apenas 21 anos, sucede M. Dior e é nomeado diretor artístico da maison de couture. Se, naquela época, eles ainda não se conheciam, Yves Saint Laurent e Pierre Bergé estiveram no enterro de Christian Dior. Pierre Bergé era amigo íntimo de Dior. Poucos meses depois, Yves e Pierre se conhecem.

Enquanto o mundo ainda chorava a morte de Dior, Yves Saint Laurent não tinha muito mais do que alguns meses para preparar a coleção de primavera/verão de 1958, com apresentação prevista para o dia 30 de janeiro. Ele volta para Oran, como era seu hábito, para desenhar os croquis que apresentaria em seguida: em 15 dias, ele tinha mais de 600 desenhos.

Às 10h da manhã do dia 30 de janeiro de 1958, uma quinta-feira, a primeira coleção de Yves Saint Laurent para Christian Dior estava prestes a ser apresentada; todos estavam impacientes, desde a imprensa internacional até Pierre Bergé que assistia, ao lado de Bernard Buffet, ao seu primeiro desfile de moda. Uma hora mais tarde, Yves foi ovacionado. A imprensa estava eufórica em imortalizar os primeiros passos do “Petit Prince de la mode”, o mais jovem couturier do mundo enquanto admiradoras choravam de felicidade. Os modelos eram refinados com linhas geométricas. A silhueta era diferente daquele New Look definido por Dior em 1947. Os vestidos não seguiam mais os corpos: eles flutuavam e se apoiavam mais nos ombros do que na silhueta – e eram, portanto, mais leves.

O reencontro entre Pierre Bergé e Yves Saint Laurent aconteceu alguns dias mais tarde, em um jantar organizado por Marie-Louise Bousquet, diretora da edição francesa da revista americana Harper’s Bazaar. Poucos meses depois, Pierre e Bernard Buffet terminam seu relacionamento, e o casal fora de série Yves e Pierre nunca mais se separa. Essa verdadeira comunhão de vida formará a base para a fundação da maison de couture de Yves Saint Laurent em 1961.

Depois de comandar seis coleções na maison Dior, em setembro de 1960, o conflito na Argélia se intensifica e Yves Saint Laurent é convocado aos frontes de batalha. Tomado por uma depressão, ele é hospitalizado no Val-de-Grâce. A maison Dior decide removê-lo de seu cargo, escolhendo Marc Bohan para substituí-lo. Quando Pierre Bergé contou a Yves esta decisão da maison Dior, Saint Laurent lhe disse que eles criariam uma maison de couture juntos, e que Pierre seria o diretor.

Assim, Pierre Bergé começou a coletar os fundos necessários para fundar uma maison de couture. Ele vendeu seu apartamento na Île Saint-Louis, e assinou um contrato com um investidor americano. Enquanto isso, Yves Saint Laurent já dava suas primeiras entrevistas antes mesmo da abertura da sua maison. Em seguida, a maison se instala no número 11 da rue Jean-Goujon, nos antigos ateliês Manguin, onde Christian Dior, em 1945, pensou em abrir sua própria maison antes de decidir pelo número 30 da Avenue Montaigne. As instalações na rue Jean-Goujon são provisórias, esperando que as obras no número 30 bis da rue Spontini terminem para abrigar definitivamente a maison, no antigo hôtel particulier do artista Jean-Louis Forain. No dia 4 de dezembro de 1961, a maison abre as suas portas, e o primeiro vestido, chamado “00001”, é entregue à Patricia Lopez-Willshaw, personalidade importante do Café Society no pós-guerra.

Desde o começo, Yves Saint Laurent buscava inspiração no vestuário masculino. Em 1962, ele busca o caban, um casaco de lã usado pelos oficiais da marinha para proteger-lhes do frio. Era uma peça de vestuário prática, de formas simples que esculpiam a silhueta. O fato de que o caban não era ajustado e que cobria os quadris era uma vantagem para as mulheres que não ousavam usar calças compridas e buscavam uma silhueta mais feminina.

O caban abre o desfile de 1962 como a primeira peça a ser apresentada. A manequim vestia o caban combinado a uma calça de shantung branca e mules. Esse look definia o estilo Saint Laurent, que pegava emprestado peças do vestiário masculino para dar às mulheres mais conforto e confiança. O couturier continuaria a desenvolver o navy look de maneira elegante, e de maneira mais notável na coleção de 1966.

O trench coat é outro exemplo do estilo de Saint Laurent, que mais uma vez toma emprestado do vestuário masculino uma peça a ser incorporada no guarda-roupa feminino. Yves Saint Laurent conserva as mangas raglan, a abotoação dupla e o cinto que passa a acentuar a silhueta feminina. Por sua vez, Yves reinventa o tamanho do trench coat, que, originalmente, cobria as panturrilhas. O trench coat passa a vestir e acentuar as curvas do corpo feminino, e é até hoje uma peça essencial do vestiário feminino.

Em 1964, a maison Yves Saint Laurent lança seu primeiro perfume, Y. Em 1965, o diálogo com a arte é traduzido numa coleção de vestidos que homenageavam Piet Mondrian.  O jersey de lã, trabalhado com detalhes, nunca tinha aparecido em outra coleção de couture, e permitia a Yves Saint Laurent transpor a matéria artística pintada em material têxtil, destacando o senso geométrico do pintor holandês. Para esta coleção, Saint Laurent desenhou sapatos que foram feitos por Roger Viver: eram scarpins pretos enfeitados por uma grande fivela quadrada em metal dourado ou prateado. Estes sapatos foram escolhidos para Catherine Deneuve no papel de protagonista do filme Belle de Jour, e o sucesso foi tamanho que os sapatos passaram a ser conhecidos pelo nome do filme.

No ano de 1966, Yves Saint Laurent e Pierre Bergé visitam o Marrocos pela primeira vez. O casal se apaixona pelo país imediatamente, a ponto de apresentar uma proposta de compra para uma pequena casa na medina de Marrakesh, Dar el-Hanch (a casa da serpente). A partir de então, Yves passará a visitar o Marrocos várias vezes por ano para desenhar suas coleções. Em 1974, o casal consegue finalmente comprar Dar el-Hanch, situada próxima ao Jardin Majorelle. Em 1980, o casal decide comprar também a Villa Oasis e o Jardin Marjorelle.

No mesmo ano, Yves Saint Laurent se torna o primeiro couturier a abrir uma boutique de prêt-à-porter com seu próprio nome. Durante os anos 1960, a evolução da sociedade tornava cada vez mais obsoletas as regras impostas pela alta costura, e um número crescente de mulheres desejava se vestir de maneira elegante e acessível. Yves Saint Laurent dá voz à sua vontade de criar roupas para todos, e não apenas para aqueles mais ricos, abrindo a sua primeira loja no dia 26 de setembro de 1966 no número 21 da rue de Tournon, no 6e arrondissement de Paris (SAINT LAURENT rive gauche). Ele não fazia do prêt-à-porter um derivado da alta costura com preço mais baixo, mas sim lança uma linha completa à qual ele dedicou a mesma atenção. O sucesso é incontestável: em 1968, abre sua primeira boutique além-mar em Nova Iorque, e no ano seguinte em Londres. Em 1969, Yves Saint Laurent abre sua primeira boutique de prêt-à-porter para os homens.

Na coleção de outono-inverno de 1966, Saint Laurent introduz a peça mais icônica do seu estilo: o smoking. Originalmente, era uma vestimenta masculina reservada ao ambiente de fumo, com o objetivo de proteger as outras peças de roupa do cheiro do cigarro. O smoking Saint Laurent não era uma simples cópia da peça masculina: ele utiliza todos os códigos para adaptar a peça ao corpo feminino. Muito inovador, a princípio não fez muito sucesso com os clientes da haute couture, passando muito tempo sem vender um único exemplar. Paradoxalmente, foi um sucesso de vendas na versão SAINT LAURENT rive gauche. A clientela mais jovem amou aquela inovação. O smoking se tornou, então, um clássico, revisitado em todas as suas coleções até 2002.

Yves Saint Laurent introduz a primeira saharienne nos desfiles de 1967, mas era um modelo único fora de coleção, imaginado para uma reportagem fotográfica da revista Vogue Paris, o que consagrou aquela peça rapidamente como um clássico. Com a saharienne, Yves Saint Laurent afirma a definição do seu estilo que pega emprestado dos códigos de vestimenta masculinos para revolucionar a moda feminina. Para a saharienne, ele se inspira pelo equipamento da Afrikakorps e, de maneira geral, dos modelos vestidos pelos homens ocidentais na África. A saharienne, em gabardine de algodão, é uma peça confortável e adaptada ao calor. Com Yves Saint Laurent, ela se torna um símbolo perfeito de libertação, impulsionado pelos anos 1960, mas também uma nova forma de sedução. Desde 1969, a saharienne está disponível em prêt-à-porter na boutique SAINT LAURENT rive gauche, e seu sucesso é imediato.

Como a saharienne, o macacão faz sua primeira aparição na apresentação da coleção de primavera-verão de 1968. Saint Laurent se inspira a partir de uma vestimenta funcional dos aviadores. Na versão masculina, há bolsos práticos e uma silhueta que não revela as formas. Yves inova ao criar um macacão que destaca as formas do corpo feminino: o macacão ajustado desenha uma silhueta muito elegante.

Não se pode falar em Yves Saint Laurent e não lembrar da coleção escandalosa de 1971. Em 29 de janeiro daquele ano, Saint Laurent apresenta a coleção chamada “Libération” ou “Quarante”, inspirada pela moda dos anos 1940, marcada pela guerra. Paloma Picasso inspira o couturier, porque ela se vestia com roupas mais velhas e de brechó. Vestidos curtos, solas baixas, ombros quadrados, maquiagem borrada, referencias à Paris da época da ocupação: tudo isso foi um escândalo. Violentamente criticado pela imprensa, a coleção dá eco à corrente retrô que tomará rapidamente as ruas.

Em 1974, a maison de couture Yves Saint Laurent, situada desde a sua criação em 1961 na rue Spontini, se muda para um hôtel particulier no número 5 da avenue Marceau. Este endereço vivia de acordo com o ritmo das coleções. A maison abrigava o estúdio onde trabalhava Yves Saint Laurent com seis ou sete colaboradores, e os ateliês de couture onde as criações eram realizadas por cerca de 200 costureiros e costureiras. No piso térreo, nos salões, as clientes eram recebidas individualmente para encomendar os modelos que desejavam.

Em 7 de janeiro de 2002, Yves Saint Laurent anuncia, numa coletiva de imprensa, que ele encerrava ali a sua carreira e fecha a maison de couture. Dois anos mais tardes, depois de muitos trabalhos, a Fundation Pierre Bergé – Yves Saint Laurent abre suas portas naquele mesmo endereço, abrigando o Musée Yves Saint Laurent Paris a partir de outubro de 2017.

No dia 1º de junho de 2008, Yves Saint Laurent morre em Paris, aos 71 anos. Seu velório foi organizado na Igreja Saint-Roche, contando com a presença de muitas personalidades políticas e culturais, como o então Presidente da República Francesa Nicolas Sarkozy. Foram instalados muitos telões na área externa para que todos os admiradores pudessem homenagear e se despedir deste grande ícone. Pierre Bergé fez um discurso emocionado sobre aquele que foi seu companheiro de vida por 50 anos.

 

 

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