O que a Paris Fashion Week S/S 2020 tem a dizer sobre sustentabilidade

Já faz um tempo que a discussão sobre sustentabilidade tangencia a moda, e muitas vezes influencia nossa maneira de consumir. Estava lendo uma matéria no BoF que é praticamente um resumão do que vimos na última fashion week e me chamou a atenção a reflexão que Angelo Flaccavento propôs  sobre sustentabilidade na semana de moda – e é um pouquinho disso que quero dividir com vocês.

Flaccavento destaca que, embora tenhamos visto muitas eco-conversas na Paris Fashion Week S/S 2020, tudo foi pouco convincente. É sempre positivo ver designers e grandes maisons adotando iniciativas ambientalmente responsáveis e apresentando uma abordagem mais consciente, fazendo upcycling de tecidos e reaproveitando estoques; entretanto, Flaccavento destaca que transformar tudo isso numa estratégia de relações públicas pode ser desagradável. Afinal de contas, a sustentabilidade deveria corresponder a ações concretas.

No desfile da Dior, a jardinagem era um tema central, com uma incrível floresta composta por árvores diferentes (um “jardim inclusivo”) que tinham destino certo depois do desfile: serem plantadas em diversas áreas de Paris. Angelo diz que isso era pouco mais do que uma fantasia pois, do lado de fora do Hippodrome de Longchamp, um mar de carros pretos aguardava editores e compradores que sairiam rapidamente para o próximo desfile; por conta disso, muitos destes carros aguardavam com os motores ligados.

De acordo com Angelo Flaccavento, “a moda é maravilhosamente superficial”: a sustentabilidade estava por todas as partes, embora predominantemente nas notas à imprensa e nas estampas florais.

Segundo a reportagem, 70% da coleção apresentada por Stella McCartney era sustentável. McCartney esteve compromissada com iniciativas sustentáveis desde o início da sua carreira, mesmo quando iniciativas “verdes” não estavam na moda. Por sua vez, Kei Ninomiya, que está por trás da marca Noir de Comme des Garçons, levou a mensagem ecológica para outros níveis, com uma coleção que sugeria um ciclo de caos e renascimento, composta por criações criativas muito mais destinadas à inspirar do que propriamente vestir. No desfile idealizado por Ninomiya, a ecologia era um quadro conceitual, mas funcionou.

Reativamente ao espírito ecológico, também vimos ressurgir glamour e sensualidade, reafirmando que a moda adora ser controversa. Neste sentido, o destaque fica para a versão de John Galliano na Maison Margiela, que se aventurou pela estética dos anos 40, numa visão um pouco literal demais das memórias.

Nesta estação, também vimos uma celebração da icônica imagem do chique parisiense dos anos 1970. Anthony Vaccarello inspirou-se na coleção russa de Yves Saint Laurent, resgatando o smoking dos arquivos e dando a ele seu próprio twist sexy. Ao mesmo tempo, a Celine de Hedi Slimane celebrou figuras francesas como Isabelle Adjani, Sophie Marceau e a prórpia Loulou de la Falaise, musa de Saint Laurent. Por sua vez, a Chanel de Viginie Viard usou os telhados parisienses de plano de fundo para um desfile pragmático e focado nas vendas dos produtos: a coleção apresentada por Viard é altamente comercial e real, um guarda-roupa muito usável com características de Chanel facilmente identificáveis.

Também vimos muitas fórmulas fechadas nesta semana de moda; Isabel Marant é mestre nisso, pois ela faz sempre a mesma coisa, embora sempre seja um pouco diferente. Pierpaolo Piccioli, à frente da Valentino, encontrou sua própria fórmula: algo de poético e emotivo, que coloca os espectadores em êxtase. A coleção mais recente de Piccioli é visualmente deslumbrante, partindo do branco puro para o neon, passando pelas estampas e voltando ao branco. Por sua vez, Demna Gvasalia apresentou uma Balenciaga potente, talvez completamente inovadora; Gvasalia tem um olhar único para o arquétipo, em que os ombros amplos e estruturados eram cruamente polidos e consequentemente inovadores.

Mas o verdadeiro e melhor espírito da estação estava no retorno à essência, ao tecido, ao trabalho manual. Yohji Yamamanoto criou maravilhosidades com drapeados e cortes precisos, feitos com a maestria que lhe é característica. Na Loewe, Jonathan Anderson elevou e levou pra frente a marca, promovendo uma elegância aristocrática que se via nos detalhes.

Por sua vez, Sarah Burton levou Alexander McQueen de volta ao período em que as coisas eram todas feitas à mão. Ao trabalhar muito linho e guipure, em branco e preto, Burton demonstrou controle absoluto dos seus meios criativos. Ela fez menos, e ela fez melhor, confiando no valor humano – que é onde a sustentabilidade verdadeiramente começa.

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