Elegância não depende de orçamento

Há um tempo atrás, eu escrevi um post que debatia, de maneira sucinta, como podemos ter um estilo elevado independente do orçamento. Hoje, eu quero entrar um pouco mais nesse debate, trazendo algumas dicas de como vestir-se de maneira mais elegante, seguindo a mesma linha de raciocínio de que ter um estilo polido não tem nada a ver com o seu orçamento.

Antes de entrar nas dicas práticas que podem nos ajudar a desenvolver um vestir mais elegante, eu devo dizer que, na minha humilde opinião, elegância vai muito além do que se veste. Pra mim, ser elegante é algo que está relacionado diretamente ao seu estilo de vida, desde a maneira como você trata as outras pessoas até o jeito de fechar uma gaveta.

Depois desse disclaimer, me sinto pronta pra falar sobre alguns aspectos que definem um estilo elegante.

Tecidos fluidos

Ainda que nem sempre sejam usados nas roupas mais práticas, os tecidos fluidos tem a capacidade de instantaneamente elevar um look. Pense, por exemplo, em blusas/camisas/camisetas de seda e sua fluidez: há uma elegância inata a essas peças.

Pouco contraste entre as cores

Embora looks super coloridos sejam muito interessantes visualmente, em geral eles são menos elegantes do que propostas que apresentam um menor contraste entre as cores. Nesse caso, um look branco e preto (que é altíssimo contraste) é menos elegante do que a combinação cinza e branco, ou azul marinho e preto, por exemplo.

Combinações monocromáticas ou análogas com intensidade suave

Quando a gente pensa que roupa preta é mais chique do que qualquer outra, ou que “preto emagrece”, é porque o nosso pensamento mais básico leva a perceber uma elegância inerente ao que é monocromático. Na verdade, o que tem essa “chiqueza” toda é o uso de uma única cor – o que também é percebido quando escolhemos tons suaves e análogas. Usadas corretamente, combinações monocromáticas podem ter o mesmo efeito “emagrecedor” de uma roupa toda preta, o que é um ótimo recurso para quem não tem preto na cartela.

Tom sobre tom

Uma cartela de cores é muito conveniente na hora de montar um look tom sobre tom, já que muitas delas tem as variações das cores e facilita visualmente a escolha dos tons que mais nos agradam e/ou temos a nossa disposição. Um look tom sobre tom não é só elegante mas pode ser até mesmo “calmante” não só para quem tá usando mas também pra quem encontra conosco – não podemos nos esquecer nunca da psicologia das cores.

Alfaiataria

Ternos, costumes, blazers, calças de corte reto, tailleurs (ou terninhos), vestidos tubinhos ou de outros cortes retos/simples, e até mesmo bermudas de corte reto fazem parte desta categoria de roupas, que tem uma elegância originada na história da alfaiataria, uma vez que essas peças costumavam ser feitas manualmente em oficinas, observando as medidas individuais de cada cliente, com caráter de exclusividade.

Corte e caimento

Uma peça bem cortada, com caimento perfeito, é garantia de elegância. Mas não se engane: não só apenas as peças de alfaiataria que são bem cortadas e/ou tem caimento perfeito. É possível usar uma simples t-shirt de algodão que é super bem cortada e veste perfeitamente, e isso já vai fazer toda a diferença para elevar o seu estilo.

Estampas mais suaves

Em geral, as estampas que tem a capacidade de deixar o seu look mais elegante são as mais suaves como, por exemplo, o tradicional floral Liberty. Estampas de cores análogas ou com intensidade suave também podem entrar nesse grupo.

Acessórios minimalistas

Acessórios em linhas retas/simples, menores, sem muitas cores costumam garantir um visual mais elegante. Pérolas pequenas, brincos discretos, pulseiras e colares mais finos, sem muitos pingentes, são alguns dos exemplos de acessórios minimalistas.

É lógico que você não precisa aplicar todas essas dicas de uma só vez, ou mesmo prender-se ao que eu escrevi aqui. Um dos caminhos da consultoria de estilo e imagem é a estratégia intencional, aplicando as diretrizes em alguns lugares e/ou determinados momentos nos quais o desejo é transmitir determinada mensagem por meio do vestir.

Um pouco da história da alfaiataria

A gente fala muito em peças de alfaiataria, muitas vezes sem nem se dar conta direito do que é essa técnica de modelagem e costura diferenciada, que é usada para construir roupas sociais, com um DNA de muita elegância.

A palavra “alfaiate” vem do árabe (al-ẖayyât) e significa costureiro. Consequentemente, alfaiataria foi o nome dado às oficinas onde as roupas eram feitas manualmente, com as medidas individuais do cliente, com caráter exclusivo. Nestas oficinas, eram feitos ternos, calças, casacos e blazers, e esses atendimentos eram originalmente direcionados ao público masculino. No pós-guerra, as peças de alfaiataria passaram a ser usadas também por mulheres, uma vez que, com a subsequente crise, o dinheiro para compra de tecidos era pouco, e as peças de alfaiataria tem corte mais reto e gastam menos tecido.

Até os anos 70, ternos, blazers e costumes eram feitos por alfaiates, sob medida, e a maior parte do acabamento era feito à mão, já que, até então, as máquinas de costura faziam apenas costura reta simples. Hoje, uma peça de alfaiataria pode ser feita em ateliês ou fábricas, exclusivas ou em série. Ao fazer uma peça de alfaiataria sob medida, é preciso prová-la para que fique perfeita no corpo, e os ajustes são inevitáveis; é necessário fazer, no mínimo, 3 provas antes de concluir uma peça de alfaiataria feita sob medida, com o objetivo de deixá-la perfeita no corpo.

As peças de alfaiataria são estruturadas, de corte mais reto e ajustado, feitas com tecidos mais estruturados, secos, com caimento impecável. Essas peças são elegantes e sociais, sem fluidez. Por exemplo: não podemos confundir com alfaiataria uma saia evasê ou godê, ou um vestido solto, fluido, feito de seda; esse tipo de peça pode ser alta-costura, caso seja feito em um ateliê onde o trabalho é artesanal, feito quase todo à mão – mas não é alfaiataria. Por sua vez, nada impede que uma peça esportiva seja alfaiataria, desde que siga as técnicas e padrões.

Outra característica importante nas peças de alfaiataria é o preciosismo com o acabamento, que deve ser invisível. A maioria das peças de alfaiataria são forradas, ou tem acabamento interno com viés.

Há vários tipos de alfaiataria, que correspondem à diferentes heranças da técnica. A mais antiga delas é a alfaiataria francesa. A alfaiataria alemã é caracterizada pelos uniformes militares impecáveis. A alfaiataria inglesa é a mais tradicional; por sua vez, a alfaiataria italiana é considerada a mais elegante.

A alfaiataria passou a fazer parte da alta-costura pelas mãos de alfaiates renomados como Monsieur Guilson (França) nos anos 50 e 60, Hugo Boss (Alemanha) nos anos 50, Paul Smith (Inglaterra) nos anos 60 e 70, Ermenegildo Zegna e Giorgio Armani (Itália) nos anos 60 e 70. Foi pelas mãos destes alfaiates que as peças de alfaiataria foram elevadas, indo além do uniforme ou traje executivo, chamando atenção pela elegância e sofisticação.

Estilistas como Alexander Mcqueen, Jean Paul Gaultier e Yves Saint Laurent foram responsáveis por colocar nas passarelas de alta-costura feminina as peças de alfaiataria, feitas com tecidos luxuosos e as vezes bordadas com delicadeza, precisão e requinte. A Gucci também levou a alfaiataria para o universo da alta-costura feminina.

Na alfaiataria, a queda de ombro (altura da cava maior nas costas) comum na modelagem masculina é usada também na modelagem feminina; os casacos, blazer e paletós são entretelados, e feitos com ombreiras, para deixar o ombro mais reto. A manga dos casacos, blazer e paletós costumam ser de duas folhas, para melhor dar formato a curva do braço, perto do cotovelo. Por sua vez, as calças de alfaiataria não são justas demais e nem muito largas, e tem um corte mais reto.

O estilo clássico é determinante de uma peça de alfaiataria, embora possamos reconhecer variáveis que foram criadas por grandes estilistas ao longo do tempo. A criatividade é livre e pode-se brincar com a alfaiataria, mas não se pode destruí-la: a estrutura das peças e o corte reto prevalece.

Na alfaiataria, usa-se tecidos mais seco, que tenham caimento mais reto, liso e firme. De modo geral, são tecidos de alfaiataria: lãs frias, linho, crepe, jacquard, zibeline, gabardine, tweed, cashmere, microfibra two way, oxford. Entre os tecidos de alfaiataria, diferenciam-se os mais nobres, chamados tecidos de primeira linha, e os de segunda ou terceira linha: tudo depende da quantidade de fios usada para fabricar o tecido. Além disso, há muitos tecidos sintéticos usados em alfaiataria, e é por isso que é preciso ter cuidado ao comprar uma peça de alfaiataria: se ela tiver um preço muito barato, há grandes chances de ter sido feita com tecidos mais baratos, sintéticos. Ainda assim, uma peça alfaiataria precisa ser bem feita, independentemente do tecido ser barato ou caro, pois uma roupa de alfaiataria não é feita para ser descartável.

Sem dúvida, a escolha de tecidos de qualidade, a modelagem e o capricho na finalização da peça determinam a beleza de uma peça de alfaiataria.