Nos últimos tempos, muito tem sido falado sobre quiet luxury. Pode-se dizer que o quiet luxury, ou low key luxury, é, na verdade, uma tendência anti-tendência, já que as peças que fazem parte desse universo são, de modo geral, clássicas, discretas, minimalistas, atemporais.
Inclusive, algumas pessoas tem associado o quiet luxury ao minimalismo e/ou ao armário cápsula, mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Muito embora uma pessoa adepta ao quiet luxury possa se enquadrar no estilo minimalista, não é todo mundo que tem um estilo minimalista que poderá manifestá-lo de modo luxuoso. Isso acontece porque, no âmago do quiet luxury, está, exatamente, o luxo, as peças e marcas inacessíveis para a maioria de nós, meros mortais. E quando eu falo de luxo, aqui, eu não tô falando só de uma hero piece e/ou de um acessório de luxo que passamos meses (ou anos) nos planejando para comprar: aqui, o luxo se trata mesmo de usar um look totalmente formado por peças de marcas caríssimas, mas que não gritam de onde vem, que só reconhece quem faz parte desse círculo restrito de uma richesse (potencialmente) inalcançável. Por isso, o quiet luxury é, antes de mais nada, um código de consumo.
O termo “luxo” passou a ser usado de diversas formas, descrevendo de tudo um pouco, desde carros esportivos e viagens até colchões e maquiagem. A onipresença dessa palavra entra em dissonância com a exclusividade que supostamente denota. Entretanto, na indústria da moda, que é regida pela hierarquia das marcas, a categorização do luxo permaneceu relativamente consistente, embora a estética tenha sofrido mudanças com o passar do tempo.
E é nesse embalo de mudança de estética do que significa luxo na moda que o quiet luxury (que também pode ser chamado stealth wealth, ou riqueza discreta) ganha espaço, na medida em que os ricos (ou aqueles que aspiram ser/parecer) dão preferência a uma moda sem logotipos aparentes e a etiquetas de preços astronômicos.
A moda é cíclica, e essa tendência vai e vem. Embora tenha aumentado após a pandemia, essa riqueza discreta tem suas raízes nos industriais americanos do século XIX e na França do século XVIII. Os varejistas, é claro, estão prestando atenção, assim como mais e mais designers que procuram capturar não só os ricos, mas também os aspirantes.
Existe um ditado em inglês que diz “when you know, you know” – algo como “quem sabe, sabe”. E essa tendência da riqueza discreta se encaixa totalmente nesse ditado, porque se constrói sobre armários totalmente grifados mas sem nada aparente, sem nenhuma logo que entregue ao olhar de um outsider de onde vem cada peça.
É lógico que essa tendência é elitista e excludente e, por isso, se trata mais de um código de consumo do que, verdadeiramente, uma tendência. Mas os super ricos e multimilionários não se importam com isso; eles se importam com os seus pares, com aqueles que reconhecem toda a riqueza discreta que é comunicada somente pelas roupas, sapatos e acessórios que vestem.
A discrição mora, também, aí. Ao contrário de quem tem estilos mais extravagantes, de quem se propõe a chamar atenção, a discrição transita das roupas que não gritam para os salões onde estas pessoas circulam. É claro, também, que há muita gente extremamente rica com estilo extravagante, mas é o resultado do look que tem propostas diferentes.
Por sua vez, as marcas estão dando mais espaço nas suas coleções para peças em tons e formatos discretos nas passarelas e prateleiras. Algumas, inclusive, fazem isso ao mesmo tempo em que permanecem fiéis em oferecer opções também aos seus clientes que gostam de exibir logotipos e joias chamativas e amplamente conhecidas.
Marcas com uma identidade mais chamativa, como Loewe, Saint Laurent e Miu Miu, deram um passo significativo na direção do luxo silencioso, juntando-se às já solidificadas nesse segmento como The Row, Brunello Cucinelli, Loro Piana, entre outras. Esse movimento pode ser explicado, em parte, pela pandemia, quando jovens endinheirados foram em busca de grandes marcas com grandes logos visíveis. Isso resultou em um cansaço visual que, hoje, caminha lado a lado de uma economia incerta. Por isso, algumas pessoas não estão sentindo vontade de ostentar o quão ricas elas são.
O momento do quiet luxury tem seus altos e baixos, como todo ciclo da moda. Desde fabricantes de pasta de dentes até grandes lojistas de departamento estão buscando meios de impulsionar suas vendas e lucros ao focar em itens premium num momento de desaceleração do consumo. O código stealth wealth já existe faz tempo entre os super ricos mas, num momento de recessão, todas as pessoas buscam uma imagem imaculada – principalmente aquelas que estão com seus empregos em risco.
Nem todos podem alcançar essa imagem pagando os preços altíssimos das grandes grifes e maisons, mas podem fazer compras mais inteligentes, escolhendo peças de qualidade em marcas mais acessíveis, já que o segredo costuma estar no tecido e na textura. É lógico que existe uma diferença abissal entre suéteres de cashmere da Uniqlo, da J.Crew e da Tom Ford, mas é aquela velha história da gente sempre tentar comprar o melhor dentro das nossas possibilidades, colocando nosso rico dinheirinho no que realmente vale a pena.
O quiet luxury está em destaque porque, de modo geral, as pessoas gostam de ostentar quando tudo vai muito bem, não quando se está no meio de uma crise financeira. Os ricos, então, tentam imitar as massas, enquanto aqueles de classe média e classe alta procuram imitar os ricos minimalistas.
A moda da discrição não é uma novidade. Nos anos 1990, a estética minimalista, capitaneada por Donna Karan e Miuccia Prada com seus designs práticos, foi predominante. Inclusive, a Prada é uma das maisons que tem capitaneado essa volta do low key luxury às passarelas. No final da década de 2000, seguindo a crise econômica de 2008-2009, essa estética também voltou ao centro da moda. Mas, na verdade, as pessoas realmente ricas e poderosas sempre seguiram esse código de stealth wealth, rejeitando o maximalismo.
Se pensarmos, por exemplo, no fim do século XVIII, com o fim da monarquia francesa, o crescimento da industrialização e da urbanização, as pessoas que estavam no poder rejeitaram as perucas, rendas, vestidos armados e roupas chamativas em geral. A vida na corte deixa de existir, e a base do poder passa a ser da classe industrialista, que chega construindo riqueza e poder usando ternos escuros.
Atualmente, essa abordagem do luxo é uma tendência menos austera do que o minimalismo, só que mais polida do que o normcore. Não é uma estética fácil de alcançar, principalmente porque é mais um estado de espírito do que qualquer outra coisa. Mas o look quiet luxury com certeza vai sobreviver às mudanças cíclicas da moda, uma vez que é, essencialmente, um sinônimo para básicos sofisticados.
É por isso que precisamos ter muito claro o que é quiet luxury e o que é minimalismo: seria, no mínimo, contraditório dizer que montamos um look stealth wealth usando peças da Zara, da Uniqlo ou da Renner, por exemplo, já que essas marcas produzem para as grandes massas, em larga escala, e com preços mais acessíveis. De modo geral, o que nós, consumidores médios, fazemos é nos vestir de modo minimalista com peças dessas e de outras marcas acessíveis. O resultado é uma imagem bastante polida e sofisticada usando roupas atemporais, porque prestamos atenção aos materiais e acabamentos.
O minimalismo se escora nas peças neutras e essenciais, aquelas que podemos chamar de esqueleto do nosso guarda-roupa. São aquelas roupas que resistem às tendências momentâneas, que provam sua qualidade depois de repetidas lavagens, e que continuamos usando repetidas vezes ao longo dos anos. São as camisetas e regatas lisas, as camisas de tricoline, as peças de linho no verão e de lã no inverno, os jeans de lavagem clássica, as peças de alfaiataria (terno/costume, blazer, colete, pantalona) de cortes impecáveis, as estampas atemporais (listras, xadrez, floral liberty), o mocassim de couro, a bolsa de formas simples e material de excelente qualidade, os óculos escuros discretos e atemporais que arrematam o look.
Pra montar um look minimalista e chique, não é necessário gastar milhões. E não se trata de fake it until you make it, e sim de vestir-se com propósito, seguindo uma determinada estratégia de imagem, sendo fiel ao seu próprio estilo e, acima de tudo, fiel a sua realidade.

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