Você deve ter uma peça nobre

A “peça nobre” (ou hero piece, como diria um dos meus professores na LCS) é um detalhe essencial que te valoriza da cabeça aos pés, que eleva o seu guarda-roupa, que te deixa mais confiante, que te dá a certeza de que você pode conquistar o mundo.

Mas não se engane: quando a gente fala em “detalhe”, podemos pensar que a peça nobre se restringe a algo pequeno, como um acessório. Na verdade, a hero piece pode ser basicamente qualquer coisa que você usa quando precisa se sentir forte.

Também não pense que a peça nobre precisa custar uma fortuna: você pode encontrá-la num brechó ou, com sorte, recebê-la como uma herança de família. Pode ser até que você a encontre numa fast fashion. A peça nobre é rara, bem conservada e, acima de tudo, imponente: pode ser um trench coat espetacular, um incrível par de sapatos, um vestido com caimento perfeito, um terno bem cortado, uma bolsa de couro de qualidade inquestionável, uma joia atemporal.

A peça nobre deve te vestir maravilhosamente bem, com um caimento perfeito, sem limitar seus movimentos mas ajudando a tornar os seus gestos em amplos, ágeis e graciosos. A sua peça nobre quer durar muitos anos na sua vida. O material da sua hero piece é impecável e o acabamento é perfeito, mas jamais será um manifesto.

Ao contrário do que a princípio possamos pensar, a hero piece não deve ser chamativa, mas quase um segredo; sua peça nobre deve ser atemporal, acima da moda, sem exageros, sem exibir marcas ou logotipos. Há quem diga que o luxo não deve exibir o seu nome.

A hero piece tem o poder de transformar-nos em verdadeiros heróis e heroínas: invencíveis.

Editando um armário cápsula de outono

Há mais de 2 anos, eu escrevi um post apresentando algumas dicas para fazer uma versão real do armário cápsula, que é um dos posts mais acessados na história desse blog. Com o começo do outono por aqui, que veio acompanhado de uma queda drástica nas temperaturas, eu resolvi editar um armário cápsula para a minha estação favorita a partir de peças que já habitam o meu armário.

Mais uma vez, meu ponto de partida foi uma paleta de cores restrita, buscando montar um grupo coerente de peças que funcionem entre si, permitindo multiplicar o máximo possível o número de combinações. O grupo de cores de base é formado pelos tons neutros de caramelo/cinza/preto, o grupo de suporte ficou por conta dos azuis, e as cores vinho e verde pontuam esse armário cápsula.

Para esse capsule wardrobe de outono, que poderia ser um armário cápsula de inverno em algumas cidades do Brasil, eu escolhi:

  • um trench coat longo
  • uma parka impermeável que tem forro removível
  • um blazer xadrez
  • um “chunky” suéter de lã
  • um suéter de algodão
  • um suéter de cashmere
  • uma camisa com pérolas aplicadas na pala
  • uma camisa social de veludo cotelê
  • uma camisa social xadrez
  • uma calça xadrez
  • uma calça de veludo cotelê
  • uma calça jeans
  • uma estola de cashmere
  • um cachecol de lã
  • uma bolsa grande
  • uma bolsa média
  • uma bolsa pequena
  • um par de tênis branco
  • um par de mocassim preto
  • um par de botas modelo “Chelsea”

Note que, das 20 peças escolhidas para o meu armário cápsula de outono, 4 delas já formavam conjuntinhos: o blazer e a calça xadrez compõem um terninho, look clássico para situações mais formais, enquanto a camisa e a calça de veludo cotelê já garantiriam um look caí na tinta. Além disso, esse armário cápsula segue o princípio de ter mais peças de cima (tops) do que peças de baixo (bottoms), o que sempre garante uma maior versatilidade.

O grande twist desse armário cápsula é, pra mim, o tênis branco. Um tênis branco tem a capacidade de modernizar o que é clássico, de dar personalidade ao look. Por sua vez, a bota modelo “Chelsea” é um clássico, diria até um básico para estações mais frias.

Com essas 20 peças, eu consigo pensar em incontáveis combinações: todas as calças combinam com todas as camisas, todas as calças combinam com todos os suéteres, resultando em 18 combinações possíveis. Se pensarmos nos casacos, esse número ainda triplica!

Como a matemática do custo por uso pode te ajudar a comprar menos e melhor

Eu lembro bem da primeira vez que comecei a pensar na lógica do custo por uso na minha vida: foi em 2009, quando eu era guia pra Orlando. Consequentemente, visitava outlets e shoppings a cada 6 meses numa época em que a cotação dólar x real permitia fazer várias comprinhas por temporada. Na época, nem se pensava em ter Forever 21 no Brasil, e a ideia de comprar várias brusinhas por preços baixíssimos (estamos falando de no máximo US$5 numa época em que a cotação do dólar turismo ficava entre R$1,70 e R$2,40) era muito atrativa para uma pessoa de 19 anos que estava na faculdade (da graduação ao mestrado) e queria fazer render ao máximo o dinheirinho que ganhava. Até então, eu achava que fazer render o meu dinheirinho era comprar muitas peças de roupas diferentes.

Eis que em 2009 eu comprei muito mais do que brusinhas na Forever 21 (tô usando Forever 21 como exemplo principal porque era a mais baratinha de todas, mas isso valia também pra H&M e até Abercrombie/Hollister, que bombavam na minha época de jovem): em seguida do meu grupo de julho, eu viria para a Suíça(!) pela primeira vez, participar de uma semana de simulações dos comitês da Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Genebra. Com isso, eu olhei a forevinha de outro jeito, comprando brusinhas sim porém tentando também fazer alguns achados que eu pudesse aproveitar nos looks formais nessa semana que eu passaria na ONU. Só que aí a American Airlines não colocou as malas do nosso grupo no nosso voo (sério, t-o-d-o-s chegamos no Brasil sem a bagagem que tínhamos despachado), e eu fiquei de mãos abanando, já que meu voo pra Genebra era, literalmente, no dia seguinte, e as malas não chegariam a tempo.

Ou seja: eu tinha enchido UMA MALA INTEIRA de coisas da forevinha que simplesmente não chegaram em tempo de cumprir o seu propósito principal, e ainda tive que sair correndo pra comprar roupas pra viajar no dia seguinte – sem contar que tive que comprar mala também. Sem contar que eu coloquei os cabos e fonte da minha câmera digital novinha na mala despachada e tive que viajar pra zoropa com uma câmera mais velha. Desde então, eu nunca na minha vida mais despachei nem um único cabo/fonte.

Corta pra quando eu cheguei de volta em Niterói depois de 2 semanas entre Genebra e Paris (essa foi a minha primeira viagem pra Europa e eu literalmente implorei pra minha mãe pra eu passar uns dias em Paris, mesmo sozinha, mesmo pegando dia dos pais e aniversário da Mivó, e ela deixou). Abri as malas que vieram de Orlando, e aquele monte de roupa que eu comprei na forevinha simplesmente não fazia sentido pra mim. Eu lembro que, enquanto eu fazia essas compras, desde antes de virar guia, eu me convencia de que valia a pena porque eu chegaria no Brasil com um armário completo pra nova estação e não precisaria comprar mais n-a-d-a nas lojas brasileiras (pense em Farm, Dress To, Cantão, Maria Filó, Animale, etc). Veja bem, era um bom argumento, bastante convincente. Só que aí era só sair coleção nova que eu já tava lá, conferindo as novas estampas, as novidadinhas, gastando minha mesada/bolsa de estudos todinha naquelas roupas que também acabariam vivendo por pouco tempo no meu armário – afinal de contas, pra tudo que entrava, alguma coisa tinha que sair.

Foi justamente nesse período que o conceito de custo por uso começou a ser formulado. Ao ver as notas de compras na forevinha, que eu sempre guardava, eu notei que a soma de todas aquelas brusinhas dava pra comprar uma bolsa de luxo. Imagina a ficha caindo?! Eu fiquei pasma: quase não acreditava que tinha gasto o equivalente a uma bolsa da Louis Vuitton (que, na época, ainda era objeto de cobiça) em brusinha/óculos escuros de qualidade questionável.

Seria injusto eu dizer que nunca fiz uma compra verdadeiramente boa na Forever 21 (ou equivalente): algumas peças tinham qualidade bastante razoável, tendo durado alguns anos no meu guarda-roupa, e cheguei até a ir a mais de um casamento vestida com lookinhos forevinha que custaram uma bagatela e faziam bonito. Essas peças realmente tiveram um custo por uso MUITO baixo, mas são itens que eu conto nos dedos da mão. Em geral, tudo isso que eu comprava a cada 6 meses nos EUA, tinha um tempo de vida útil muito curto no meu armário, sendo doadas muito rapidamente.

Isso era um tipo de consumo insustentável. E foi aí que eu entendi que, se eu comprasse coisas muito baratas que não usava nunca, o custo por uso foi altíssimo. Mas se eu comprasse uma coisa cara que eu usasse por muitos anos (preferencialmente, a vida inteira), o custo por uso seria baixíssimo. Por exemplo: se eu usasse 2 vezes uma brusinha de US$5 antes de doá-la, o custo por uso dela seria de US$2,50; por sua vez, se eu usasse cinquenta vezes uma blusa de US$50, o custo por uso dessa peça seria US$1.

No momento em que essa ficha caiu, eu me decidi que, na temporada de janeiro de 2010, a prioridade do meu orçamento de viagem seria comprar uma Speedy 30 da Louis Vuitton: eu era alucinada por esse modelo por vê-la nas mãos da Audrey Hepburn, que era uma referência de estilo muito grande pra mim na época (e ainda é, na verdade). Com o dinheiro que sobrasse, eu estaria livre pra comprar quaisquer outras coisas que quisesse (bota aí que boa parte do meu orçamento sempre ia nas coisas de parque, porque eu sempre fui assim).

toda faceira usando a Speedy pela primeira vez em Downtown Disney (hoje Disney Springs)

Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão do custo-benefício, principalmente considerando compras de luxo. Nesse caso, o custo por uso é bastante objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25. Ou seja: a bolsa de US$1000 tem um custo por uso menor do que a bolsa de US$50, e consequentemente corresponde a um uso melhor do meu dinheiro.

Sempre que eu fico com vontade de comprar alguma besteira, eu penso que aquela quantia poderia ser investida numa coisa mais duradoura e reflito MUITO sobre cada compra. Isso não significa que eu não compre mais nenhuma besteirinha, que eu não compre nenhuma coisinha baratinha; no entanto, significa que a minha reflexão sobre todas as minhas compras diminui o meu ritmo de consumo, me fazendo me perguntar o porquê de cada compra, e por vezes me fazendo desistir das besteirinhas em prol de uma coisa mais cara que tem mais potencial de uso e durabilidade na minha vida.

Desde a Speedy 30, todas as vezes que fui pra Orlando como guia eu aproveitei pra “investir na bolsa”; alguns investimentos foram melhores do que outros, e algumas bolsas eu acabei vendendo porque não eram usadas como deveriam (aumentando o custo por uso e ocupando espaço precioso no meu armário). Mas essa matemática que eu aprendi há mais de 10 anos atrás continua guiando as minhas compras até hoje, e eu procuro ensiná-la aos meus clientes da consultoria de imagem e estilo.

Slow fashion: ask why before you buy

O primeiro passo para adotar o slow fashion é perguntar-se o propósito de cada compra antes de efetivamente comprar (ask why before you buy) – ou seja, comprar com intenção.

Uma das principais funções do personal stylist é educar os seus clientes sobre como criar um armário que será verdadeiramente amado e valorizado.

Quando você compra com intenção e de fato se pergunta o porquê antes de comprar, você com certeza adicionará somente itens que você realmente ama ao seu guarda-roupa. Então, o vestir diário torna-se uma verdadeira diversão, e não simplesmente uma função, pois o seu armário só tem peças que você realmente ama e que serão usadas muitas e muitas vezes, diminuindo o custo por uso.

Ao questionar cada compra, você de fato diminui o ritmo do seu consumo, e isso é uma coisa ótima tanto para o meio ambiente quanto para o seu saldo bancário.

Você não precisa de um armário lotado de coisas. Você precisa de um armário com coisas boas, adquiridas por meio de compras pensadas de peças que você de fato vai amar por várias estações.

O que aconteceu com “repensar o sistema de moda”?

No começo da pandemia, principalmente quando o surto tomou conta da Europa, o debate já antigo no mercado da moda sobre reinicializar sua abordagem tradicional de exibição, entrega e desconto de coleções começou a esquentar. Eu mesma escrevi alguns dedos de prosa por aqui sobre o tema. Entretanto, o interesse por essa questão diminuiu, com algumas das maiores marcas do setor, com mentalidades mais tradicionais e interesses significativos na manutenção do status quo, jogando água fria na ideia de uma reinicialização em todo o sistema.

Segundo a reflexão publicada no BoF, repensar as ineficiências do sistema tradicional é, certamente, mais urgente para marcas menores, que estão atualmente sob pressão como nunca antes devido à forte dependência de varejistas terceirizados e à falta de apoio financeiro para absorver choques causados pela pandemia. Mas a abordagem atual da moda está fundamentalmente fora de sincronia com o mundo de hoje e, em última análise, destrói valor para toda a indústria, incluindo as super marcas.

De qualquer forma, já sabemos que não podemos mudar de um mundo passado do “modelo A” para um mundo futuro do “modelo B”, onde todos os jogadores adotam uma abordagem única para desfiles, entregas e descontos. De fato, é mais provável que vejamos o surgimento de modelos de A a Z, com cada marca fazendo o melhor para seus próprios negócios. No entanto, o calendário do setor exige um certo grau de coordenação para funcionar, com atividades desde entregas de lojas de departamentos até semanas de moda. E as pequenas marcas, com mais incentivos para atualizar sua abordagem, terão dificuldade em avançar, a menos que os grandes players também participem.

A mudança claramente não acontecerá da noite para o dia. De acordo com o BoF, muito embora o coronavírus tenha se mostrado um catalisador para a conversa sobre mudanças sistêmicas, a pandemia também criou uma enorme incerteza que pode simultaneamente criar obstáculos à reforma. O ciclo da moda que começa em setembro provavelmente será altamente incomum, com a incerteza programada para continuar até 2021, à medida que as empresas se preparam para a possibilidade de uma segunda (ou terceira) onda de infecções. Com tanta coisa no ar, pode levar de 12 a 24 meses para que as coisas se acalmem e o sistema evolua. Mas, para acompanhar o mundo digitalizado e globalizado, é preciso evoluir.

Consumo pós-pandemia: mais dois dedos de prosa

De ontem pra hoje, estava conversando com uma amiga sobre novos padrões de consumo pós-pandemia – se é que a gente já pode pensar em pós-pandemia ou mesmo falar em novos padrões de consumo. E é claro que essa conversa acabou virando post, complementando/aprofundando/continuando o post que publiquei aqui há pouco mais de um mês atrás. De novo, tudo o que eu escrevo aqui em relação a pandemia é uma previsão, considerando diferentes circunstâncias, tentando interpretar o que já está acontecendo e projetando possíveis cenários. É, também, um convite a pensar – a caixa de comentários está aberta pra gente conversar! 

A reabertura do comércio aqui na Suíça começou no dia 27 de abril, com lojas de segmentos específicos (material de construção, DIY, e afins) – e desde o dia 11 de maio todas as lojas (de todos os segmentos) estão abertas. No primeiro dia de reabertura, foram registradas filas quilométricas do lado de fora das boutiques das principais maisons de luxo tanto em Zurique quanto em Genebra – sem falar nas lojas de departamento e fast fashion. Desde então, algumas maisons tem mandado email para seus clientes pedindo gentilmente que as visitas sejam agendadas previamente, evitando a aglomeração nas boutiques.

Esse tipo de comportamento – principalmente se considerarmos que o povo suíço não é lá o mais ávido consumidor de peças de luxo – me leva a crer que, em geral, os padrões de consumo não vão mudar muito no pós-pandemia.

Eu realmente acho que algumas pessoas passarão a consumir moda de uma maneira mais consciente. Mas consumo consciente pode significar desde gastar menos a comprar menos – afinal, pode-se comprar menos e gastar mais, dependendo das escolhas. Outras pessoas provavelmente aumentarão o consumo (correspondendo ao “revenge buying“), compensando tudo o que não consumiram no período de privações e limitações. Mas, na minha opinião, a maioria das pessoas continuará com os mesmos hábitos de consumo. 

É claro que essa minha análise considera uma manutenção da renda, sem perda salarial ou descontos imprevistos. Para as pessoas que perderem renda por conta da pandemia, é muito provável que o consumo de moda não estará entre as prioridades (ou, pelo menos, não deveria estar), podendo ser cortado do orçamento por tempo indeterminado.

O que eu acho muito provável que aconteça é que as pessoas modifiquem um pouco muito o seu modo de vestir por terem percebido neste período que nada é melhor nem mais importante do que o conforto. Estar confortavelmente vestido ajuda, inclusive, a aumentar a produtividade – e, em tempos de home office, o conforto no vestir-se tornou-se fundamental. As vendas online, que tem sido a saída para a maioria dos lojistas do mundo inteiro, registram um aumento significativo na busca por roupas confortáveis e bonitas (incluindo loungewear/pijamas), e eu tenho a impressão de que a tendência é  de que as pessoas busquem cada mais esse conforto também nas “roupas de sair/trabalhar”, impulsionando a indústria a produzir peças assim – um caso simples de demanda x oferta.

E, por falar em vendas online, no pico da pandemia (por aqui, a curva já está achatada), todas as lojas online da Suíça tinham um disclaimer avisando que as demandas estavam excepcionalmente altas e que, por esta razão, as compras poderiam demorar mais do que o normal para ser postadas e entregues – afinal, os correios e transportadoras também estavam sobrecarregados. Isso é um testemunho de que as pessoas simplesmente não param de consumir porque o comércio não está aberto – simplesmente há uma modificação na maneira de consumir; nesse caso, cabe aos lojistas identificar uma maneira sustentável de continuar vendendo e cumprindo com suas responsabilidades – principalmente pagando seus funcionários. A economia só para de girar quando há má vontade para adaptar-se a novos tempos.

E adaptar-se aos novos tempos requer, também, a praticidade no vestir-se – e eu acho que as pessoas vão dar especial valor para a praticidade das suas roupas. Ao compreender a importância de lavar as roupas com maior frequência como prevenção contra o coronavírus, creio que haverá uma busca cada vez maior por peças com fácil manutenção, que sejam fáceis de lavar e, preferencialmente, que não precisem ser passadas a cada lavagem. Acho que caminhamos para uma maior valorização dos tecidos orgânicos, reforçando uma tendência que já estava em curso, já que costumam ser mais fáceis de cuidar e, em geral, também são mais confortáveis e gostosos de vestir. Para completar, acho que as pessoas vão dar mais valor ao que estão consumindo, procurando construir um guarda roupa mais atemporal, que possa atendê-las nas mais diversas circunstâncias.

Desde o último post sobre consumo x coronavírus, a Saint Laurent (comandada por Anthony Vaccarello) e a Gucci (sob comando de Alessandro Michele) anunciaram que não vão mais seguir os calendários de moda como nós conhecemos (ou conhecíamos). Essas decisões provavelmente terão impactos fortíssimos na indústria da moda como um todo, e não só no mercado de luxo. Ao adotarem esta postura, estes dois diretores criativos, que transformaram completamente as respectivas maisons nos últimos anos, lançando tendências copiadas e replicadas pelos mais diversos setores, propõem uma mudança no pensamento da indústria como um todo, e até mesmo uma desaceleração (necessária) nas produções de coleções. 

Caso realmente aconteça, a desaceleração da indústria da moda será benéfica em vários fronts – pra começar, desacelerar as produções de novas coleções impactará positivamente no meio ambiente. De mãos dadas com a demanda por peças de segunda-mão (que vem vindo numa crescente nos últimos anos), desacelerar a produção de novas peças, que demandam sempre bastante matéria-prima, pode ser o início de uma (nova) revolução industrial, partindo da moda e que poderá ser implementada também por outros setores industriais, com a consciência ambiental como norte.

Consumo e Coronavírus: o que podemos esperar?

Em tempos tão difíceis e tão incertos, prever qualquer coisa fica difícil. No entanto, eu sempre gostei de construir cenários, então resolvi tentar imaginar como serão os padrões de consumo na moda depois dessa pandemia.

Há muitos prognósticos de que a crise do coronavírus vai impulsionar os consumidores de moda a repensarem seus valores e redirecionar seus gastos, evitando fast fashion e o luxo exacerbado das grandes marcas, priorizando a sustentabilidade e uma certa sobriedade. Alguns argumentam que os padrões de consumo atuais, principalmente no que diz respeito ao consumo fast fashion, são muito recentes e já vinham sendo repensados por uma grande parcela dos consumidores, que já cobravam das grandes redes um posicionamento mais sustentável e já desaceleravam o seu consumo. De acordo com estes prognósticos, vamos consumir menos e de maneira mais responsável.

No entanto, isso pode não ser uma verdade absoluta. De fato, em tempos de crise os consumidores re-priorizam suas necessidades. ⁠Mas também é verdade que, uma vez que uma crise passa, os consumidores de modo geral retomam seus antigos padrões de consumo.

O consumo de moda é altamente direcionado pela necessidade fundamental de símbolos de projeção social, que afirmam aspectos da personalidade, e os gigantes da indústria da moda se tornaram, com o passar dos anos, incrivelmente hábeis em atender a essas necessidades. De modo geral, as pessoas consomem a moda como uma distração quando se sentem bem, e uma terapia quando se sentem mal. Esse padrão de comportamento tem sido mantido por décadas, e talvez não modifique após a pandemia.

É claro que diferentes contextos econômicos e sociais determinam padrões de comportamento e diferentes cenários surgem. A diminuição do consumo em tempos de crise conduz as marcas de moda a um esforço para continuar mantendo um certo fluxo de vendas ao propor promoções diárias em suas lojas online. Muitos negócios estão adotando grandes descontos para evitar que seus inventários fiquem sobrecarregados de mercadorias. Segundo alguns analistas, é apenas uma questão de tempo até que as vendas alcancem os profundos níveis de períodos de recessão. Entretanto, dar desconto por desconto pode não ser o suficiente para engajar os consumidores: as marcas de moda devem adotar uma abordagem criativa e disciplinada para ajudar a vender seu inventário sem destruir o perfil da marca.

Alguns especialistas recomendam às marcas de luxo que elas “adormeçam” neste ano, restringindo a manufatura e cortando custos sem demitir seus empregados ou fechar lojas, como uma forma de não acumular mais mercadoria que forçosamente receberia preços promocionais uma vez que as lojas reabram. A Chanel, por exemplo, anunciou que parou toda a sua produção (espalhada entre França, Itália e Suíça) neste período.

A recente recessão de 2008 conduziu a um minimalismo generalizado, traduzido nas marcas de luxo pela abordagem prática de Phoebe Philo na Céline e a riqueza furtiva das bolsas sem logo da Bottega Veneta, por exemplo. Desde que os EUA se tornaram o epicentro da pandemia do coronavírus, pode-se confirmar uma nova transição na moda. A mudança já estava no ar: até mesmo a Gucci já estava simplificando seu estilo barroco nas coleções recentes. Depois de uma década, não é uma coincidência que as tendências estejam seguindo caminhos parecidos. Em tempos de incerteza, os consumidores priorizam roupas profissionais e são mais reflexivos sobre suas compras. Porém, desde as tendências ao consumismo, muita coisa mudou desde a última vez que a indústria da moda viu uma mudança tão dramática.

Por sua vez, muita gente ainda está consumindo – principalmente os millennials que desfrutam de segurança salarial. Jovens consumidores já são mais propensos a fazer compras online e, como estão passando mais tempo online por conta do home office, consequentemente passam mais tempo mexendo nas mídias sociais, o que influencia o consumo. Os efeitos psicológicos da pandemia no comportamento dos consumidores é multi-facetado: enquanto o auto-isolamento e a tristeza podem conduzir alguns consumidores que normalmente já destinam parte da sua renda para retail therapy (terapia de compras), outros evitam. Outros, por estarem presos em casa sem ter onde vestir suas novas compras, simplesmente não enxergam razão para comprar. Alguns outros ficam eticamente conflitados, uma vez que entregas em casa requerem que as pessoas que trabalham nos centros de distribuição e nas entregas saiam de casa num momento em que sabemos que o isolamento social (ou seja, ficar em casa) é a melhor maneira de conter a disseminação do vírus. No entanto, outros se sentem numa obrigação moral de gastar para manter a economia girando da maneira que dá.

Como eu falei lá em cima, é muito difícil prever qualquer coisa em tempos de tanta incerteza, principalmente depois da notícia recente de que a Hermès bateu recorde de vendas na reabertura da sua loja em Guangzhou, o que indica uma forte recuperação do consumo de luxo no país pós-coronavírus. O recorde de vendas da Hermès na China (US$2,7 milhões em um único dia) é uma ótima notícia também para outras marcas, principalmente para as luxuosas maisons que encontram nos chineses os seus mais ávidos consumidores. Entretanto, antes de antecipar um revenge buying generalizado pelo mundo, há que se considerar, além de questões culturais, o crescimento econômico ininterrupto da China nos últimos anos, o que coloca o país em um contexto muito diferente de outras nações: o quadro pode ser bem diferente em países que já vinham de um cenário de crise e desvalorização da moeda, e as marcas que não são internacionalizadas podem sofrer – e muito – depois da pandemia.

Elevar seu estilo não tem nada a ver com dinheiro

Ter estilo não está diretamente relacionado à grana que você tem no banco ou quanto gasta no seu guarda-roupa. Para encontrar seu estilo pessoal, você não precisa gastar um tostão; aliás, acho que a maneira mais eficaz de encontrar seu estilo pessoal e estabelecer diretrizes mentais que poderão guiar suas futuras compras é no seu próprio armário, encarando-o como se fosse uma loja, pensando se, hoje, eu compraria tal peça ou não.

Se você já passou por essa etapa, ou se está se preparando para fazê-lo (afinal, às vezes, é preciso uma boa dose de coragem pra fazer uma limpa honesta no guarda-roupa), e gostaria de elevar seu estilo, aqui vão quatro dicas práticas para fazê-lo.

Preste atenção às proporções do seu corpo em relação a sua roupa

Todos os corpos são lindos e temos liberdade total para nos vestir da maneira que bem entendemos. Mas é bom lembrar sempre que há algumas proporções que nos deixam mais elegantes do que outras. Por exemplo: uma saia midi será sempre mais elegante do que uma saia acima do joelho; uma bermuda no estilo mom jeans será uma alternativa mais elegante a um short curto para encarar o calor; e, em geral, cintura alta é mais elegante do que cintura baixa. No caso dos rapazes, uma bermuda lisa com corte de alfaiataria e sem muitos bolsos, por exemplo, é uma alternativa mais elegante do que um short ou bermuda estampada e/ou muito larga.

Proporção também é importante quando pensamos em bolsas e acessórios: uma bolsa muito grande para uma pessoa pequena pode ficar muito desproporcional; brincos, colares e/ou pulseiras muito grandes podem achatar a silhueta de uma pessoa; cintura marcada num lugar errado pode arruinar a imagem que você quer transmitir pro mundo.

Opte por tecidos de fibra natural

Olha eu defendendo a fibra natural de novo. Eu realmente faço o que eu digo, e acho que já contei por aqui que nem tiro uma peça de roupa da arara de uma loja antes de olhar a etiqueta de composição. Acontece que peças de roupa fabricadas com tecidos de fibra natural costumam ser bem mais elegantes, com um caimento melhor no corpo, abraçando cada parte do nosso ser com delicadeza. Além disso, costumam ser mais frescas pro verão e aquecer de verdade no inverno – tricô de acrílico num inverno hard, por exemplo, vai fazer qualquer um passar frio.

Para comprar roupas de fibra natural, não é preciso gastar uma fortuna – hoje, é possível encontrar muitas peças interessantes em lojas para os mais diversos bolsos. E, mais uma vez, antes de pensar em gastar mais dinheiro com roupas, o primeiro passo deve ser sempre olhar o seu próprio armário, observar quais são as matérias-primas com que suas roupas foram feitas, e quais delas são as suas favoritas – isso vai ajudar muito na construção do seu estilo.

Equilibre as proporções das suas roupas

Essa é uma dica simples, mas podemos nos esquecer facilmente dela seja porquê motivo for: um look será sempre mais elegante se não somar decote + saia/short, calça muito apertada + blusa muito apertada, etc. Se você gosta de um decote mais generoso, o ideal é equilibrar com uma saia midi mais solta/rodada; se sua paixão é calça skinny, opte por combinar com t-shirt mais soltinha, ou mesmo uma regata de seda mais solta. Pensemos assim: se em algum lugar aperta ou mostra demais, do outro lado a gente “esconde” um pouquinho mais.

Para os homens, a proporção também é muito importante, principalmente quando pensamos em ternos! Ternos de herança americana, por exemplo, sempre deixarão os homens com proporções menos elegantes e até menos agradáveis aos olhos, porque são muito largos.

Menos moda, mais estilo

Por fim, lembremo-nos mais uma vez que de a moda passa, e o estilo permanece. A moda pode nos fazer gastar muito dinheiro com coisas das quais não precisamos verdadeiramente. Conhecendo nosso estilo e fazendo escolhas acertadas na hora de nos vestir, podemos adicionar pontualmente uma ou outra peça de roupa ao armário para atualizá-lo sem quebrar o banco, com peças atemporais e de qualidade para durar muitas temporadas.

7 dicas para investir no luxo de maneira inteligente

Quem me segue no Instagram já notou que meus looks do dia costumam ser pontuados por bolsinhas lindas de algumas das renomadas maisons de luxo. Isso porque, desde 2010, eu comecei a “investir na bolsa” e escolher com cautela cada acessório que entra no meu armário, que é pra usar muito as coisas que tem uma qualidade singular e que podem durar muito muito muito tempo na minha vida (preferencialmente, para sempre).

Sou uma entusiasta desse tipo de compra, e gosto de pesquisar modelos incríveis que poderão fazer a diferença no meu vestir diário, mas cada compra desse tipo é feita de maneira super consciente! Resolvi dividir aqui com vocês um pouquinho do meu processo que leva a cada compra de luxo, em 7 dicas para investir de maneira inteligente.

1- Conheça o seu armário

Mais uma vez, a dica de ouro, fundamental pra qualquer compra inteligente: é preciso conhecer o seu armário, saber o que vai fazer a real diferença na hora de montar seus looks. Se isso vale pra qualquer compra, para compras de luxo isso é ainda mais importante, já que a meta é ter a tal peça para sempre e usar muito. Se a sua compra de luxo se encaixar perfeitamente no seu estilo de vida e combinar com tudo do seu armário, você certamente multiplicará os usos, o que diminui o custo por uso daquela peça.

2- Namore MUITO o que você quer antes de comprar

Você TEM QUE AMAR MUITO aquela coisa que você quer comprar, porque é um investimento. Quando você compra uma coisa cara, de luxo, a meta deve ser ter aquela peça PARA SEMPRE e pra usar MUITO – o que não significa comprar só coisas básicas (até porque o conceito de básico é subjetivo). Na minha opinião, é mais fácil aplicar esse princípio aos acessórios, por isso eu prefiro as bolsas. Pesquise muito sobre o item que você quer comprar, inclusive indo na loja pra ver ao vivo e experimentar. Não tenha vergonha de entrar numa loja de luxo e pedir para experimentar uma coisa (ou duas, ou três) e não comprar imediatamente. Olhe-se no espelho vestindo aquela peça, tire fotos, e depois saia pra dar uma volta antes de fazer a compra definitiva.

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experimentando a nano belt na Céline do Le Bon Marché

Já aconteceu comigo, por exemplo, de namorar muito uma bolsa da Céline – a mini luggage -, definir que queria comprá-la e, quando eu cheguei na loja e a experimentei, ela simplesmente ficou horrível pra mim. O formato da bolsa e o tamanho da alça crossbody ficaram péssimos pra minha altura e tipo físico, e então eu acabei não comprando a bolsa. No mesmo dia, experimentei a nano belt mas decidi não comprar naquele momento; quando voltei na loja 2 dias depois, experimentei a nano belt de novo e também a large trio, e foi justamente a large trio que ganhou meu coração e voltou comigo pra casa. Não é que eu não tenha gostado da nano belt, eu gostei e, inclusive, quando vejo essa foto me dá vontade de comprar uma, talvez um dia quem sabe (mas em outra cor) mas, naquele momento, foi a large trio que fez meu coração de fato bater mais forte. Aliás, nessas horas, tirar foto portando a peça (conselho: sempre peça autorização ao vendedor, por uma questão de cortesia e educação) é muito útil, porque você pode rever aquela foto muito tempo depois e considerar se ainda seria uma compra inteligente, se ainda combina com o seu estilo e o seu armário.

3- Pense o propósito da sua compra

Investir numa peça de luxo não pode ser uma compra leviana – aliás, nenhuma compra deveria ser leviana, porém quanto mais dinheiro envolvido na peça, aí é que a gente precisa pensar mesmo na compra. Itens de luxo costumam ter informação de moda, mas um acessório com informação de moda em excesso pode complicar os seus usos no dia a dia. Por isso, as dicas 1 + 2 + 3 andam muito juntinhas, já que conhecer o seu armário e namorar a peça que você quer ajudarão a definir o propósito da sua compra, aumentando as chances de acertar em cheio e não se arrepender nem por um segundo.

4- Estude as marcas e procure aquela com a qual você mais se identifica

Se você quer comprar alguma coisa bacana, mas você ainda não sabe exatamente o que você quer, pense na marca. Saber um pouquinho de história de cada maison de luxo pode ser um ótimo meio de saber se aquela peça se encaixa na sua vida, se tem a ver com o seu estilo, se você se identifica. Essas compras mais pensadas precisam envolver pesquisa. Por exemplo, quando o Alessandro Michele entrou na Gucci, ele revolucionou a marca e foi um boom de Gucci por tudo quanto é lado: lembro que, quando comprei minha primeira bolsa da maison italiana (lá nos idos de 2010), a marca não tinha a mesma potência fashion que tem hoje, tanto que eu escolhi um modelo bem basicão; já a minha última compra da Gucci, no ano passado, foi uma bolsa cheia de informação de moda, em camurça azul com couro vermelho no modelo Ophidia, que foi resgatado pelo Michele nos arquivos da maison de Florença da década de 1970 e tem uma pegada vintage que eu adoro.

5- Faça a matemática do custo por uso

Se você compra uma coisa muito barata e não usa nunca, o custo por uso desta peça foi altíssimo. Se você compra uma coisa cara (do tipo do investimento que estamos falando aqui) e usa muito, o custo por uso dessa peça cai. Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão aprimorada do custo-benefício porque, na verdade, custo-benefício é uma coisa ainda mais relativa e que eu acho que não presta muito para compras de luxo. Por sua vez, o custo por uso é bem mais objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25.

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A vasta maioria das minhas bolsas tem um custo por uso baixíssimo, porque eu as uso muito, e eu compreendi que, particularmente, não adianta eu ficar comprando bolsas muito baratinhas, porque eu perco o interesse rápido e o custo por uso delas fica muito alto; já as bolsas mais caras, que tem uma qualidade superior e costumam carregar uma história herdada da maison, despertam muito mais o meu interesse e me fazem ter muito mais vontade de escrever a minha própria história tendo-as como acessórios. O mesmo aconteceu com meu trench coat da Burberry (por enquanto, minha única roupa de luxo): ele foi caro sim, porém o custo por uso dele ficou baixíssimo já nos 5 primeiros meses, pois eu o uso muito desde que o comprei.

6- Não descarte os outlets

Seja em viagens ou mesmo no Brasil (que agora tem marcas renomadas em alguns outlets pelo país), não deixe de pesquisar nos outlets as muitas opções de luxo. De novo, a compra tem que ser pensada, estudada, que tenha um propósito na sua vida e, preferencialmente, com um custo por uso maneiro. Se a ideia é ter aquela peça para a vida toda, não precisa comprar na loja com preço cheio, e o outlet tem a redução do preço simplesmente porque não são mais da estação, enquanto as peças continuam sendo incríveis. É fato que no outlet é mais difícil de planejar tanto, porque nem sempre a gente sabe o que vai encontrar por lá, e aí o conhecimento profundo do seu armário vai te ajudar e muito a definir se a compra vai encaixar no seu estilo de vida.

7- Se o orçamento permitir, siga o seu coração

É, eu sei, eu falei tanto no planejamento, na importância de pesquisar, etc, etc, pra agora falar pra você simplesmente seguir o seu coração? Sim, e isso é absolutamente coerente com todo o resto que escrevi! Basta olhar o exemplo que dei na dica nº 2: eu experimentei 3 bolsas na Céline (me recuso a escrever sem o acento agudo) pra acabar comprando aquela que, no fim das contas, fez o meu coração bater mais forte. É lógico que eu fiz isso porque já tinha pesquisado a história da maison, estava querendo há muito tempo adicionar uma bolsa dessa marca francesa ao meu armário, mas no fim das contas o modelo que eu tinha planejado comprar não funcionaria pra mim e, ao invés de simplesmente desistir da compra, experimentei outros modelos e deixei meu coração decidir – tudo dentro do orçamento, sem a menor chance de me deixar no vermelho.

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o meu chapéu da D’ESTRËE

Algo semelhante aconteceu com o chapéu da D’ESTRËE que é o meu xodó. Eu amo chapéus desde que me entendo por gente e, ao conhecer essa marca francesa super chique e cool, eu não resisti e comprei um chapéu azul. Naquele dia, eu não tinha a menor intenção de comprar mais um chapéu pra minha coleção, muito menos um de uma marca de luxo, mas ele era lindo demais e combinava demais com as outras coisas que moram no meu armário pra eu simplesmente ignorar as palpitações do meu coração ao experimentá-lo. Mesmo tendo sido uma compra cara, o custo por uso dele já se tornou baixíssimo porque eu o uso muito. Por isso que é importante, também, seguir o coração se o orçamento permitir. Assim, a sua compra ainda será consciente e inteligente, e você viverá a sensação luxuosa de comprar algo incrível sem tanto planejamento.

Sempre prove as roupas!

Tem muita gente que não gosta de provar roupas. Já vi muitas pessoas entrarem em lojas e simplesmente pegarem as peças, olharem o tamanho e se dirigirem direto ao caixa; ao questioná-las, me responderam que “já sabiam sua numeração” e “não precisavam perder tempo provando as peças”.

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no provador da Eva, um dos mais fotogênicos do Brasil!

Muita gente considera provar roupa, sapatos ou acessórios uma perda de tempo. Olha a peça na arara ou na prateleira, gostou, acha que vai vestir bem, é do tamanho que está habituado a comprar, vai direto pro caixa pagar. Ignorando os provadores, leva a roupa pra casa sem experimentar. E aí, quando vai vestir em casa, muitas vezes muito tempo depois de ter expirado o prazo pra troca, ou sem nem mesmo saber onde foi parar a nota fiscal, ou ainda na hora de sair de casa para algum evento, se dá conta de que a roupa não era bem aquilo que se esperava.

Além da falta de tempo (a desculpa mais comum), não gostar dos provadores de lojas pode ser resultado de vários fatores: iluminação e espelhos ruins que parecem ressaltar apenas as coisas que ainda não aprendemos a gostar em nós (ou mesmo que queremos mudar), equipe de vendas despreparada para lidar com o público, cabines apertadas e/ou pouco confortáveis, e até mesmo provadores e espelhos sujos (eca!), entre outros.

As compras online são uma alternativa interessante para provarmos as roupas com calma, na nossa casa, combinando com as nossas outras roupas (que também devemos experimentar!), tendo a opção de trocarmos ou ainda de devolvermos e sermos reembolsados.

Experimentar o que se pretende comprar é parte fundamental do processo de escolha e compra. Os provadores das lojas não devem ser lugares de muitas dúvidas ou de nos deixarmos levar pela emoção ou pela pressa. Se já sabemos o que nos veste bem e quais as cores nos favorecem, por exemplo, nossos critérios ficam mais objetivos, tanto quanto se tivermos uma lista do que realmente precisamos, tornando o processo um hábito automático porém consciente. Assim, fica mais fácil e mais rápido passar pelos provadores das lojas!

Parte do processo é, por exemplo, observar a etiqueta interna e ler a composição do tecido, bem como quais cuidados específicos aquela peça requer. Eu, por exemplo, já leio a etiqueta de composição antes mesmo de olhar o preço ou remover a peça da arara: assim, se ela não corresponde aos meus desejos, eu já descarto. Só aí eu olho o valor cobrado, e faço mentalmente a conta do custo x benefício, para então tirar a peça da arara e ir para o provador.

Este processo também fica mais fácil se você conhece a sua cartela de cores. A cartela de cores não serve para limitar, mas sim para guiar suas escolhas para um armário mais coerente, com combinações mais fáceis. Conhecendo as suas cores, fica mais fácil escolher o que levar pro provador. Se as cores das suas roupas se coordenam facilmente, você invariavelmente consegue se arrumar mais rápido no dia a dia.

Observar o caimento é outra questão importantíssima no provador. Ao analisar se a roupa vestiu adequadamente, você também avalia se precisará considerar ajustes; se a loja tiver uma costureira, ótimo, mas se não tem, você invariavelmente vai gastar um pouco mais com aquela peça. É importante notar se as costuras dos ombros estão onde deviam estar (essa parte é dificílima de ajustar!), se a gola fica no lugar, se os botões estão bem presos ou mesmo se deixam espaço aberto entre as casas, se me aperta em algum lugar ou se limita meus movimentos.

E aí vamos para os detalhes: observar se a costura está bem feita, se o acabamento é bem executado, se as costuras laterais se encontram nas estampas ou não, se tem alguma transparência, se o forro tem o tamanho correto,  se eu me sinto acolhida pela peça, se tem alguma imperfeição (manchas, furos, rasgos), etc.

Outra coisa importante no provador é ter um olhar criterioso para o que os vendedores nos oferecem. Já virou praxe que os vendedores das lojas tragam para o provador muito mais do que pedimos, então é preciso termos clareza do nosso estilo e do que verdadeiramente queremos para fazermos escolhas coerentes com nosso estilo de vida e com nosso bolso. Ademais, é fundamental não comprar simplesmente porque passou muito tempo nos provadores e sentiu constrangimento por ocupar o vendedor: não podemos ter vergonha de simplesmente agradecer pela ajuda e dizer que vamos pensar mais um pouco, caso seja exatamente isso que queremos fazer. Se você sentir algum tipo de pressão, agradeça e explique que é uma pessoa minuciosa, atenta aos detalhes, e que precisa daquele tempo para realizar uma compra verdadeiramente satisfatória. Do mesmo modo, o ideal é evitar fazer compras com outra pessoa, a menos que seja um personal stylist que está ali para te atender: o profissional deve ter calma no atendimento e respeitar o seu tempo.

Experimentar as roupas que já temos em casa também é importantíssimo. Por vezes, pode ser muito produtivo e também divertido abrir seu armário e provar suas roupas como se você estivesse numa loja. Coloca uma música que você goste e, peça por peça, você reflete: eu compraria essa peça hoje? Eu estou realmente usando isso? Esta roupa mostra para o mundo quem eu realmente sou? É esta imagem que eu quero projetar? Esta peça precisa de algum ajuste para atender melhor minhas necessidades? Está faltando alguma coisa no meu armário? Consigo ver todas as minhas peças? Uso tudo o que eu tenho?

Claro que algumas dessas perguntas são mais facilmente respondidas com a ajuda de um consultor de estilo, mas você também é capaz de refletir e responder a algumas destas perguntas numa jornada de autoconhecimento. Ao provar as peças que estão no seu armário, você valoriza o que você já tem e não precisa fazer compras por hábito ou simplesmente para se distrair, além de ter a chance de escolher algumas peças para doar ou até vender, deixando a energia circular no seu armário e consumindo de maneira consciente.