Refletindo sobre consumo consciente em 2021

Depois de um grande hiato – em que eu mais rascunhei textos do que, de fato, terminei algum -, eis aqui o nosso primeiro post de 2021, que é uma reflexão diretamente provocada por um artigo da Vogue que eu li recentemente.

Neste artigo, a grande pergunta é: como o consumidor consciente se veste em 2021? E, mais: como consumir conscientemente neste ano? De acordo com a reportagem, é denominador comum que as palavras-chave na moda em 2021 são conforto e pragmatismo, com igual importância para a sustentabilidade. Então como fazer uma coleção de moda ser adequada a estes tempos?

O artigo da Vogue coloca a estilista Maria McManus como exemplo de preocupação com esses três conceitos-chaves desde antes da pandemia, já que ela começou a trabalhar numa linha de básicos chiques ainda em 2019. A Vogue destaca que um dos grandes benefícios de lançar sua marca nestes tempos que estamos vivendo é que McManus está diretamente engajada com novos consumidores conscientes.

O movimento de sustentabilidade na moda não é exatamente novo, mas ganhou força nos últimos anos. No entanto, tem sido um movimento inverso, em que as grandes forças deste mercado se engajam para melhorar suas já existentes práticas de trabalho e obtenção de materiais. No Brasil mesmo, são incontáveis as marcas que tiveram que rever seu processo produtivo por conta de denúncias de trabalho escravo na linha de produção, por exemplo. Por sua vez, há algumas marcas que realmente se comprometem com o slow fashion – pra mim, um grande exemplo é o Coletivo Lírico, que propõe vários designs super legais de t-shirts mas que só as produz de acordo com a demanda e não aceita devoluções (a menos que haja um defeito de produção), evitando acúmulo de produção e, consequentemente, gerando menos lixo.

com minha brusinha mais amada do Coletivo Líricoslow fashion 100% algodão, 1000% poesia.

Maria McManus começou do zero com uma política muito clara, e até bastante agressiva; de acordo com Maria, se o tecido não for reciclado, orgânico, biodegradável, ou obtido de maneira responsável, ela simplesmente não usa. Deste modo, McManus já edita a sua produção desde o começo, sabendo exatamente o que ela procura. Maria também se preocupa com o uso dos recursos disponíveis para as suas etiquetas, que são recicladas, e também com os botões que usa, feitos a partir de nozes corozo (ou nozes tagua, que são consideradas o marfim vegetal).

Maria McManus tem uma preocupação direta com os tecidos que ela usa, com uma lista bem clara de certificações objetivas: o nylon e a cashmere reciclados são certificados pelo padrão de reciclagem global (Global Recycled Standard); o algodão orgânico é certificado pelo padrão global de tecidos orgânicos (Global Organic Textile Standard), o que significa que os fios não podem ser tratados com alvejante de cloro, formaldeído ou outros produtos químicos; a lã merino é verificada pela OEKO-TEX e o padrão de lã responsável (Responsible Wool Standard); e o tencel é certificado pelo Conselho de Gestão Florestal (Forest Stewardship Council), o que garante a administração responsável dos recursos naturais obtidos.

Esse tipo de preocupação com os tecidos influencia diretamente na vida do consumidor. Como nós já conversamos diversas vezes por aqui, tecidos obtidos através de fibras orgânicas/naturais costumam ser mais duráveis, são mais agradáveis ao toque, tem uma manutenção mais fácil, são biodegradáveis, entre tantos outros benefícios. Se nós, enquanto consumidores, estamos mais ligados sobre a maneira como nossas roupas são feitas, essas certificações citadas anteriormente costumam ser a diferença entre o progresso e o greenwashing (o termo greenwashing compreende a prática de promoção de discursos, anúncios, propagandas e campanhas publicitárias com características ecologicamente/ambientalmente responsáveis/sustentáveis). Termos como orgânico, ecológico, natural e sustentável são frágeis; se uma marca de moda alega que o algodão usado na produção é 100% orgânico, é preciso estar preparado para provar a procedência e veracidade da informação.

É fato que ainda há uma parcela pequena de consumidores conscientes, que compreendem o seu papel no consumo de moda como agentes modeladores de um novo jeito de produção. A reciclagem de roupas, por exemplo, ainda é uma prática muito nova e pouco disseminada – são pouquíssimos os centros de arrecadação de roupas para reciclagem, e pouquíssimas são as lojas que dispõem de caixas de coleta para peças destinadas à reciclagem. De acordo com o artigo da Vogue, Maria McManus compreende isso, e sabe que o principal apelo das suas criações é resultar numa coleção cheia de peças essenciais e duráveis que nós costumamos querer no nosso dia a dia: roupas fáceis, clássicas e confortáveis, com um toque de atitude e um bônus de comprometimento com o planeta. Para além dos materiais, a atenção aos detalhes e ao caimento faz a diferença na coleção de McManus, que também oferece peças vintage, escolhidas a partir de uma curadoria cuidadosa para fazer parte do styling. Tudo isso complementa a visão de Maria McManus de criar itens que poderão ser usados por muitos e muitos anos, com muita transparência e honestidade no seu processo criativo e produtivo.

É claro que o lançamento de McManus não é para todos os bolsos – os preços podem girar em torno de USD400 e USD800 -, mas é certamente um bom exemplo do comprometimento com uma moda verdadeiramente mais sustentável. Pra mim, já está mais do que provado que nada se cria, tudo se copia, e é por isso que eu sou otimista em pensar que esse tipo de prática poderá ser cada vez mais disseminada entre marcas mais populares – no Brasil e no mundo.

Eu realmente acredito que os consumidores desempenham papel importantíssimo para que as marcas de moda se preocupem cada vez mais com o desenvolvimento responsável e sustentável das suas coleções, e é por isso que eu gosto tanto de trazer estes temas pra cá. Quanto mais a gente reflete sobre a origem das nossas peças, sobre o impacto ambiental causado pelo que a gente veste, e sobre as escolhas que a gente faz ao consumir, mais o debate se populariza, e são maiores as chances de consumirmos conscientemente e de cobrarmos práticas sustentáveis de quem produz.

Um pouco da história da alfaiataria

A gente fala muito em peças de alfaiataria, muitas vezes sem nem se dar conta direito do que é essa técnica de modelagem e costura diferenciada, que é usada para construir roupas sociais, com um DNA de muita elegância.

A palavra “alfaiate” vem do árabe (al-ẖayyât) e significa costureiro. Consequentemente, alfaiataria foi o nome dado às oficinas onde as roupas eram feitas manualmente, com as medidas individuais do cliente, com caráter exclusivo. Nestas oficinas, eram feitos ternos, calças, casacos e blazers, e esses atendimentos eram originalmente direcionados ao público masculino. No pós-guerra, as peças de alfaiataria passaram a ser usadas também por mulheres, uma vez que, com a subsequente crise, o dinheiro para compra de tecidos era pouco, e as peças de alfaiataria tem corte mais reto e gastam menos tecido.

Até os anos 70, ternos, blazers e costumes eram feitos por alfaiates, sob medida, e a maior parte do acabamento era feito à mão, já que, até então, as máquinas de costura faziam apenas costura reta simples. Hoje, uma peça de alfaiataria pode ser feita em ateliês ou fábricas, exclusivas ou em série. Ao fazer uma peça de alfaiataria sob medida, é preciso prová-la para que fique perfeita no corpo, e os ajustes são inevitáveis; é necessário fazer, no mínimo, 3 provas antes de concluir uma peça de alfaiataria feita sob medida, com o objetivo de deixá-la perfeita no corpo.

As peças de alfaiataria são estruturadas, de corte mais reto e ajustado, feitas com tecidos mais estruturados, secos, com caimento impecável. Essas peças são elegantes e sociais, sem fluidez. Por exemplo: não podemos confundir com alfaiataria uma saia evasê ou godê, ou um vestido solto, fluido, feito de seda; esse tipo de peça pode ser alta-costura, caso seja feito em um ateliê onde o trabalho é artesanal, feito quase todo à mão – mas não é alfaiataria. Por sua vez, nada impede que uma peça esportiva seja alfaiataria, desde que siga as técnicas e padrões.

Outra característica importante nas peças de alfaiataria é o preciosismo com o acabamento, que deve ser invisível. A maioria das peças de alfaiataria são forradas, ou tem acabamento interno com viés.

Há vários tipos de alfaiataria, que correspondem à diferentes heranças da técnica. A mais antiga delas é a alfaiataria francesa. A alfaiataria alemã é caracterizada pelos uniformes militares impecáveis. A alfaiataria inglesa é a mais tradicional; por sua vez, a alfaiataria italiana é considerada a mais elegante.

A alfaiataria passou a fazer parte da alta-costura pelas mãos de alfaiates renomados como Monsieur Guilson (França) nos anos 50 e 60, Hugo Boss (Alemanha) nos anos 50, Paul Smith (Inglaterra) nos anos 60 e 70, Ermenegildo Zegna e Giorgio Armani (Itália) nos anos 60 e 70. Foi pelas mãos destes alfaiates que as peças de alfaiataria foram elevadas, indo além do uniforme ou traje executivo, chamando atenção pela elegância e sofisticação.

Estilistas como Alexander Mcqueen, Jean Paul Gaultier e Yves Saint Laurent foram responsáveis por colocar nas passarelas de alta-costura feminina as peças de alfaiataria, feitas com tecidos luxuosos e as vezes bordadas com delicadeza, precisão e requinte. A Gucci também levou a alfaiataria para o universo da alta-costura feminina.

Na alfaiataria, a queda de ombro (altura da cava maior nas costas) comum na modelagem masculina é usada também na modelagem feminina; os casacos, blazer e paletós são entretelados, e feitos com ombreiras, para deixar o ombro mais reto. A manga dos casacos, blazer e paletós costumam ser de duas folhas, para melhor dar formato a curva do braço, perto do cotovelo. Por sua vez, as calças de alfaiataria não são justas demais e nem muito largas, e tem um corte mais reto.

O estilo clássico é determinante de uma peça de alfaiataria, embora possamos reconhecer variáveis que foram criadas por grandes estilistas ao longo do tempo. A criatividade é livre e pode-se brincar com a alfaiataria, mas não se pode destruí-la: a estrutura das peças e o corte reto prevalece.

Na alfaiataria, usa-se tecidos mais seco, que tenham caimento mais reto, liso e firme. De modo geral, são tecidos de alfaiataria: lãs frias, linho, crepe, jacquard, zibeline, gabardine, tweed, cashmere, microfibra two way, oxford. Entre os tecidos de alfaiataria, diferenciam-se os mais nobres, chamados tecidos de primeira linha, e os de segunda ou terceira linha: tudo depende da quantidade de fios usada para fabricar o tecido. Além disso, há muitos tecidos sintéticos usados em alfaiataria, e é por isso que é preciso ter cuidado ao comprar uma peça de alfaiataria: se ela tiver um preço muito barato, há grandes chances de ter sido feita com tecidos mais baratos, sintéticos. Ainda assim, uma peça alfaiataria precisa ser bem feita, independentemente do tecido ser barato ou caro, pois uma roupa de alfaiataria não é feita para ser descartável.

Sem dúvida, a escolha de tecidos de qualidade, a modelagem e o capricho na finalização da peça determinam a beleza de uma peça de alfaiataria.

Tecido plano X Malha

Já conversamos por aqui sobre a importância de ler a etiqueta de composição do que já temos no nosso armário, e do que estamos pensando em incorporar ao nosso guarda-roupas. Esse conhecimento é muito útil e definitivamente nos ajuda a fazer escolhas melhores na hora das compras, mas a experiência fica muito mais completa quando sabemos diferenciar tipos de tecidos para além das etiquetas de composição.

Se as etiquetas de composição contam uma história para nós (de onde a peça veio, com qual fibra foi feita, quais os cuidados devemos ter com ela), os tecidos contam uma história para o mundo – afinal, as pessoas não vêem o que está escrito na etiqueta interna das nossas peças, e sim a própria peça que vestimos.

Vamos começar por um conceito bem simples: todo tecido que não estica quando a gente puxa duas pontas em direções opostas é um tecido plano, enquanto um tecido que “deforma” e “cresce” quando esticado é malha. Tecidos planos e malhas podem ser feitos tanto de fibras naturais e não-naturais. Mas qual é a utilidade prática de saber diferenciar malhas de tecidos planos?

Bem, esses dois tipos de tecidos tem efeitos diferentes na nossa silhueta, e esses efeitos variam de acordo com as partes que cobrem, além de render sensações diferentes para quem os usa! Ademais, cada um tem uma função a desempenhar, e cada um desses tecidos se encaixa melhor em alguns ambientes e situações do que em outros.

As peças em malha são extremamente maleáveis e acompanham as formas de quem veste, podendo marcar mais quaisquer gordurinhas e volumes extras. Já as peças em tecido plano tem um caimento mais reto (mesmo quando são maleáveis, como a seda), e por isso criam formas mais lisas e estruturadas, que podem ser ideais para quem quer disfarças as próprias formas, “desarredondando” a silhueta.

Os tecidos planos quase sempre parecem mais sofisticados e formais, enquanto as malhas parecem ser sempre mais confortáveis e esportivas. Eventos elegantes, como festas e casamentos, e ambientes profissionais muito formais não são lugares adequados para se usar peças em malhas, ao passo que as peças feitas de tecido plano podem ir para qualquer lugar – e, de quebra, garantir um visual sempre mais sofisticado.

Mas não se assuste: a malha não é vilã nem inimiga do povo! Na verdade, são inúmeras as situações em que ela é o investimento mais certo. Por ser maleável e mais confortável, a malha é uma ótima companheira de viagem, uma vez que amassa menos e é mais fácil de “desamassar” do que tecidos planos. A malha também veste bem em momentos quando todo o resto do armário nos aperta, sendo especialmente boa para as grávidas, pra quem tá amamentando, pra quem se movimenta muito em função dos filhos e/ou animais de estimação, etc. A malha é também o tecido perfeito para o homewear. As peças de malha geralmente são (ou, pelo menos, deveriam ser) mais baratinhas.

Existem, também, algumas maneiras de deixar a malha mais refinada. As peças em malha podem ter modelagens mais interessantes, ou podem ser mais fininhas e ter uma leve transparência, ou podem ter cores mais neutras. Pode reparar que quase todas as marcas mais caras fazem camisetas em malhas finas, com cortes e recortes que as transformam em algo além de uma simples camiseta.

Já as peças em tecido plano, que em geral são bem mais elegantes e mais refinadas, podem também parecer mais modernas quando as modelagens são menos óbvias e/ou menos clássicas, tem mais cores e/ou estampas, e também mais texturas. As peças em tecido plano geralmente custam mais, mas também duram muito mais se adotarmos os cuidados indicados na etiqueta de composição.

Misturar peças de malha e tecido plano em um único look é uma outra maneira bastante interessante de refinar um pouco mais a malha e circular por diversos ambientes sem estar desarrumada ou arrumada demais. É o tipo de truque que pode, por exemplo, fazer render ainda mais uma mala inteligente!