Sempre prove as roupas!

Tem muita gente que não gosta de provar roupas. Já vi muitas pessoas entrarem em lojas e simplesmente pegarem as peças, olharem o tamanho e se dirigirem direto ao caixa; ao questioná-las, me responderam que “já sabiam sua numeração” e “não precisavam perder tempo provando as peças”.

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no provador da Eva, um dos mais fotogênicos do Brasil!

Muita gente considera provar roupa, sapatos ou acessórios uma perda de tempo. Olha a peça na arara ou na prateleira, gostou, acha que vai vestir bem, é do tamanho que está habituado a comprar, vai direto pro caixa pagar. Ignorando os provadores, leva a roupa pra casa sem experimentar. E aí, quando vai vestir em casa, muitas vezes muito tempo depois de ter expirado o prazo pra troca, ou sem nem mesmo saber onde foi parar a nota fiscal, ou ainda na hora de sair de casa para algum evento, se dá conta de que a roupa não era bem aquilo que se esperava.

Além da falta de tempo (a desculpa mais comum), não gostar dos provadores de lojas pode ser resultado de vários fatores: iluminação e espelhos ruins que parecem ressaltar apenas as coisas que ainda não aprendemos a gostar em nós (ou mesmo que queremos mudar), equipe de vendas despreparada para lidar com o público, cabines apertadas e/ou pouco confortáveis, e até mesmo provadores e espelhos sujos (eca!), entre outros.

As compras online são uma alternativa interessante para provarmos as roupas com calma, na nossa casa, combinando com as nossas outras roupas (que também devemos experimentar!), tendo a opção de trocarmos ou ainda de devolvermos e sermos reembolsados.

Experimentar o que se pretende comprar é parte fundamental do processo de escolha e compra. Os provadores das lojas não devem ser lugares de muitas dúvidas ou de nos deixarmos levar pela emoção ou pela pressa. Se já sabemos o que nos veste bem e quais as cores nos favorecem, por exemplo, nossos critérios ficam mais objetivos, tanto quanto se tivermos uma lista do que realmente precisamos, tornando o processo um hábito automático porém consciente. Assim, fica mais fácil e mais rápido passar pelos provadores das lojas!

Parte do processo é, por exemplo, observar a etiqueta interna e ler a composição do tecido, bem como quais cuidados específicos aquela peça requer. Eu, por exemplo, já leio a etiqueta de composição antes mesmo de olhar o preço ou remover a peça da arara: assim, se ela não corresponde aos meus desejos, eu já descarto. Só aí eu olho o valor cobrado, e faço mentalmente a conta do custo x benefício, para então tirar a peça da arara e ir para o provador.

Este processo também fica mais fácil se você conhece a sua cartela de cores. A cartela de cores não serve para limitar, mas sim para guiar suas escolhas para um armário mais coerente, com combinações mais fáceis. Conhecendo as suas cores, fica mais fácil escolher o que levar pro provador. Se as cores das suas roupas se coordenam facilmente, você invariavelmente consegue se arrumar mais rápido no dia a dia.

Observar o caimento é outra questão importantíssima no provador. Ao analisar se a roupa vestiu adequadamente, você também avalia se precisará considerar ajustes; se a loja tiver uma costureira, ótimo, mas se não tem, você invariavelmente vai gastar um pouco mais com aquela peça. É importante notar se as costuras dos ombros estão onde deviam estar (essa parte é dificílima de ajustar!), se a gola fica no lugar, se os botões estão bem presos ou mesmo se deixam espaço aberto entre as casas, se me aperta em algum lugar ou se limita meus movimentos.

E aí vamos para os detalhes: observar se a costura está bem feita, se o acabamento é bem executado, se as costuras laterais se encontram nas estampas ou não, se tem alguma transparência, se o forro tem o tamanho correto,  se eu me sinto acolhida pela peça, se tem alguma imperfeição (manchas, furos, rasgos), etc.

Outra coisa importante no provador é ter um olhar criterioso para o que os vendedores nos oferecem. Já virou praxe que os vendedores das lojas tragam para o provador muito mais do que pedimos, então é preciso termos clareza do nosso estilo e do que verdadeiramente queremos para fazermos escolhas coerentes com nosso estilo de vida e com nosso bolso. Ademais, é fundamental não comprar simplesmente porque passou muito tempo nos provadores e sentiu constrangimento por ocupar o vendedor: não podemos ter vergonha de simplesmente agradecer pela ajuda e dizer que vamos pensar mais um pouco, caso seja exatamente isso que queremos fazer. Se você sentir algum tipo de pressão, agradeça e explique que é uma pessoa minuciosa, atenta aos detalhes, e que precisa daquele tempo para realizar uma compra verdadeiramente satisfatória. Do mesmo modo, o ideal é evitar fazer compras com outra pessoa, a menos que seja um personal stylist que está ali para te atender: o profissional deve ter calma no atendimento e respeitar o seu tempo.

Experimentar as roupas que já temos em casa também é importantíssimo. Por vezes, pode ser muito produtivo e também divertido abrir seu armário e provar suas roupas como se você estivesse numa loja. Coloca uma música que você goste e, peça por peça, você reflete: eu compraria essa peça hoje? Eu estou realmente usando isso? Esta roupa mostra para o mundo quem eu realmente sou? É esta imagem que eu quero projetar? Esta peça precisa de algum ajuste para atender melhor minhas necessidades? Está faltando alguma coisa no meu armário? Consigo ver todas as minhas peças? Uso tudo o que eu tenho?

Claro que algumas dessas perguntas são mais facilmente respondidas com a ajuda de um consultor de estilo, mas você também é capaz de refletir e responder a algumas destas perguntas numa jornada de autoconhecimento. Ao provar as peças que estão no seu armário, você valoriza o que você já tem e não precisa fazer compras por hábito ou simplesmente para se distrair, além de ter a chance de escolher algumas peças para doar ou até vender, deixando a energia circular no seu armário e consumindo de maneira consciente.

Melania Trump e a mensagem que as nossas roupas transmitem

Não se falou em outra coisa nessa última sexta feira (ok, talvez o assunto tenha dividido um pouco os holofotes depois da vitória sofrida do Brasil) a não ser sobre o casaco que Melania Trump, Primeira Dama dos Estados Unidos, usou para visitar os abrigos onde estão as crianças imigrantes que foram separadas de seus pais enquanto tentavam cruzar a fronteira dos EUA. O famigerado casaco – uma peça de US$39 da Zara – traz, nas costas, a mensagem “I really don’t care. Do u?” (ou, em bom português, “Eu realmente não me importo. E você?”).

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Todas as roupas que nós usamos comunicam uma mensagem. Em menos de 3 segundos, a nossa imagem causa um impacto visual e, se não temos controle absoluto da mensagem que queremos transmitir com o que estamos vestindo, podemos ser percebidos da maneira errada. Isso vale para qualquer pessoa, pública ou anônima, em qualquer ambiente.

A assessora de comunicações da Sra. Trump, Stephanie Grisham, disse, em comunicado a imprensa, que era “apenas uma jaqueta” e que “não havia mensagem oculta.” De fato, a mensagem não estava oculta; estava ESTAMPADA e muito VISÍVEL para todo o mundo (literalmente). Se foi uma escolha deliberada ou não, fato é que foi um erro grotesco. Aliás, na minha humilde opinião, eu acho que o erro começa pela Primeira Dama dos EUA ter essa peça no armário dela – não pelo preço ou por ser de uma marca fast fashion, mas justamente pela mensagem que a peça comunica.

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A diretora de moda do New York Times, Vanessa Friedman, deu uma entrevista ao The Guardian dizendo que não tem dúvidas de que esse episódio não foi um acidente, e que Melania tomou a decisão de usar aquela jaqueta. Friedman ainda nota que é sabido que a Primeira Dama dos EUA compra suas próprias roupas, e dá a palavra final sobre seus looks, mesmo se forem selecionados por um stylist.

Toda a polêmica envolvida nos serve para refletir, mais uma vez, sobre a importância das decisões e escolhas que fazemos quando nos vestimos. Neste episódio infeliz, a frase “I really don’t care. Do u?” se tornou ainda mais inadequada pelo contexto político em que está inserida – mas, na verdade, não acho uma mensagem como essa adequada para ninguém porque nós sempre temos algo (ou alguém) com o que nos importar.

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arte de @justinteodoro

Melania Trump já foi muito criticada pelas suas escolhas de roupas, muitas vezes tidas como inacessíveis, o que tornaria a própria Primeira Dama dos EUA inacessível. No caso dela, em meio de um closet recheado de marcas de luxo, um toque de fast fashion pode fazer bem como estratégia de aproximação – e, certamente, não foi o que esse casaco fez.

Seja uma camisa da Balmain de US$1.380 ou uma jaqueta da Zara de US$39, devemos  sempre fazer uma escolha consciente do que entra no nosso armário e do que nos veste. Assim, poderemos nos expressar, de maneira autêntica, por meio das peças que escolhemos, assumindo o controle da nossa imagem e tendo a certeza de que o mundo nos enxergará do jeito que nós queremos ser vistos.