O que aconteceu com “repensar o sistema de moda”?

No começo da pandemia, principalmente quando o surto tomou conta da Europa, o debate já antigo no mercado da moda sobre reinicializar sua abordagem tradicional de exibição, entrega e desconto de coleções começou a esquentar. Eu mesma escrevi alguns dedos de prosa por aqui sobre o tema. Entretanto, o interesse por essa questão diminuiu, com algumas das maiores marcas do setor, com mentalidades mais tradicionais e interesses significativos na manutenção do status quo, jogando água fria na ideia de uma reinicialização em todo o sistema.

Segundo a reflexão publicada no BoF, repensar as ineficiências do sistema tradicional é, certamente, mais urgente para marcas menores, que estão atualmente sob pressão como nunca antes devido à forte dependência de varejistas terceirizados e à falta de apoio financeiro para absorver choques causados pela pandemia. Mas a abordagem atual da moda está fundamentalmente fora de sincronia com o mundo de hoje e, em última análise, destrói valor para toda a indústria, incluindo as super marcas.

De qualquer forma, já sabemos que não podemos mudar de um mundo passado do “modelo A” para um mundo futuro do “modelo B”, onde todos os jogadores adotam uma abordagem única para desfiles, entregas e descontos. De fato, é mais provável que vejamos o surgimento de modelos de A a Z, com cada marca fazendo o melhor para seus próprios negócios. No entanto, o calendário do setor exige um certo grau de coordenação para funcionar, com atividades desde entregas de lojas de departamentos até semanas de moda. E as pequenas marcas, com mais incentivos para atualizar sua abordagem, terão dificuldade em avançar, a menos que os grandes players também participem.

A mudança claramente não acontecerá da noite para o dia. De acordo com o BoF, muito embora o coronavírus tenha se mostrado um catalisador para a conversa sobre mudanças sistêmicas, a pandemia também criou uma enorme incerteza que pode simultaneamente criar obstáculos à reforma. O ciclo da moda que começa em setembro provavelmente será altamente incomum, com a incerteza programada para continuar até 2021, à medida que as empresas se preparam para a possibilidade de uma segunda (ou terceira) onda de infecções. Com tanta coisa no ar, pode levar de 12 a 24 meses para que as coisas se acalmem e o sistema evolua. Mas, para acompanhar o mundo digitalizado e globalizado, é preciso evoluir.

Consumo pós-pandemia: mais dois dedos de prosa

De ontem pra hoje, estava conversando com uma amiga sobre novos padrões de consumo pós-pandemia – se é que a gente já pode pensar em pós-pandemia ou mesmo falar em novos padrões de consumo. E é claro que essa conversa acabou virando post, complementando/aprofundando/continuando o post que publiquei aqui há pouco mais de um mês atrás. De novo, tudo o que eu escrevo aqui em relação a pandemia é uma previsão, considerando diferentes circunstâncias, tentando interpretar o que já está acontecendo e projetando possíveis cenários. É, também, um convite a pensar – a caixa de comentários está aberta pra gente conversar! 

A reabertura do comércio aqui na Suíça começou no dia 27 de abril, com lojas de segmentos específicos (material de construção, DIY, e afins) – e desde o dia 11 de maio todas as lojas (de todos os segmentos) estão abertas. No primeiro dia de reabertura, foram registradas filas quilométricas do lado de fora das boutiques das principais maisons de luxo tanto em Zurique quanto em Genebra – sem falar nas lojas de departamento e fast fashion. Desde então, algumas maisons tem mandado email para seus clientes pedindo gentilmente que as visitas sejam agendadas previamente, evitando a aglomeração nas boutiques.

Esse tipo de comportamento – principalmente se considerarmos que o povo suíço não é lá o mais ávido consumidor de peças de luxo – me leva a crer que, em geral, os padrões de consumo não vão mudar muito no pós-pandemia.

Eu realmente acho que algumas pessoas passarão a consumir moda de uma maneira mais consciente. Mas consumo consciente pode significar desde gastar menos a comprar menos – afinal, pode-se comprar menos e gastar mais, dependendo das escolhas. Outras pessoas provavelmente aumentarão o consumo (correspondendo ao “revenge buying“), compensando tudo o que não consumiram no período de privações e limitações. Mas, na minha opinião, a maioria das pessoas continuará com os mesmos hábitos de consumo. 

É claro que essa minha análise considera uma manutenção da renda, sem perda salarial ou descontos imprevistos. Para as pessoas que perderem renda por conta da pandemia, é muito provável que o consumo de moda não estará entre as prioridades (ou, pelo menos, não deveria estar), podendo ser cortado do orçamento por tempo indeterminado.

O que eu acho muito provável que aconteça é que as pessoas modifiquem um pouco muito o seu modo de vestir por terem percebido neste período que nada é melhor nem mais importante do que o conforto. Estar confortavelmente vestido ajuda, inclusive, a aumentar a produtividade – e, em tempos de home office, o conforto no vestir-se tornou-se fundamental. As vendas online, que tem sido a saída para a maioria dos lojistas do mundo inteiro, registram um aumento significativo na busca por roupas confortáveis e bonitas (incluindo loungewear/pijamas), e eu tenho a impressão de que a tendência é  de que as pessoas busquem cada mais esse conforto também nas “roupas de sair/trabalhar”, impulsionando a indústria a produzir peças assim – um caso simples de demanda x oferta.

E, por falar em vendas online, no pico da pandemia (por aqui, a curva já está achatada), todas as lojas online da Suíça tinham um disclaimer avisando que as demandas estavam excepcionalmente altas e que, por esta razão, as compras poderiam demorar mais do que o normal para ser postadas e entregues – afinal, os correios e transportadoras também estavam sobrecarregados. Isso é um testemunho de que as pessoas simplesmente não param de consumir porque o comércio não está aberto – simplesmente há uma modificação na maneira de consumir; nesse caso, cabe aos lojistas identificar uma maneira sustentável de continuar vendendo e cumprindo com suas responsabilidades – principalmente pagando seus funcionários. A economia só para de girar quando há má vontade para adaptar-se a novos tempos.

E adaptar-se aos novos tempos requer, também, a praticidade no vestir-se – e eu acho que as pessoas vão dar especial valor para a praticidade das suas roupas. Ao compreender a importância de lavar as roupas com maior frequência como prevenção contra o coronavírus, creio que haverá uma busca cada vez maior por peças com fácil manutenção, que sejam fáceis de lavar e, preferencialmente, que não precisem ser passadas a cada lavagem. Acho que caminhamos para uma maior valorização dos tecidos orgânicos, reforçando uma tendência que já estava em curso, já que costumam ser mais fáceis de cuidar e, em geral, também são mais confortáveis e gostosos de vestir. Para completar, acho que as pessoas vão dar mais valor ao que estão consumindo, procurando construir um guarda roupa mais atemporal, que possa atendê-las nas mais diversas circunstâncias.

Desde o último post sobre consumo x coronavírus, a Saint Laurent (comandada por Anthony Vaccarello) e a Gucci (sob comando de Alessandro Michele) anunciaram que não vão mais seguir os calendários de moda como nós conhecemos (ou conhecíamos). Essas decisões provavelmente terão impactos fortíssimos na indústria da moda como um todo, e não só no mercado de luxo. Ao adotarem esta postura, estes dois diretores criativos, que transformaram completamente as respectivas maisons nos últimos anos, lançando tendências copiadas e replicadas pelos mais diversos setores, propõem uma mudança no pensamento da indústria como um todo, e até mesmo uma desaceleração (necessária) nas produções de coleções. 

Caso realmente aconteça, a desaceleração da indústria da moda será benéfica em vários fronts – pra começar, desacelerar as produções de novas coleções impactará positivamente no meio ambiente. De mãos dadas com a demanda por peças de segunda-mão (que vem vindo numa crescente nos últimos anos), desacelerar a produção de novas peças, que demandam sempre bastante matéria-prima, pode ser o início de uma (nova) revolução industrial, partindo da moda e que poderá ser implementada também por outros setores industriais, com a consciência ambiental como norte.

Consumo e Coronavírus: o que podemos esperar?

Em tempos tão difíceis e tão incertos, prever qualquer coisa fica difícil. No entanto, eu sempre gostei de construir cenários, então resolvi tentar imaginar como serão os padrões de consumo na moda depois dessa pandemia.

Há muitos prognósticos de que a crise do coronavírus vai impulsionar os consumidores de moda a repensarem seus valores e redirecionar seus gastos, evitando fast fashion e o luxo exacerbado das grandes marcas, priorizando a sustentabilidade e uma certa sobriedade. Alguns argumentam que os padrões de consumo atuais, principalmente no que diz respeito ao consumo fast fashion, são muito recentes e já vinham sendo repensados por uma grande parcela dos consumidores, que já cobravam das grandes redes um posicionamento mais sustentável e já desaceleravam o seu consumo. De acordo com estes prognósticos, vamos consumir menos e de maneira mais responsável.

No entanto, isso pode não ser uma verdade absoluta. De fato, em tempos de crise os consumidores re-priorizam suas necessidades. ⁠Mas também é verdade que, uma vez que uma crise passa, os consumidores de modo geral retomam seus antigos padrões de consumo.

O consumo de moda é altamente direcionado pela necessidade fundamental de símbolos de projeção social, que afirmam aspectos da personalidade, e os gigantes da indústria da moda se tornaram, com o passar dos anos, incrivelmente hábeis em atender a essas necessidades. De modo geral, as pessoas consomem a moda como uma distração quando se sentem bem, e uma terapia quando se sentem mal. Esse padrão de comportamento tem sido mantido por décadas, e talvez não modifique após a pandemia.

É claro que diferentes contextos econômicos e sociais determinam padrões de comportamento e diferentes cenários surgem. A diminuição do consumo em tempos de crise conduz as marcas de moda a um esforço para continuar mantendo um certo fluxo de vendas ao propor promoções diárias em suas lojas online. Muitos negócios estão adotando grandes descontos para evitar que seus inventários fiquem sobrecarregados de mercadorias. Segundo alguns analistas, é apenas uma questão de tempo até que as vendas alcancem os profundos níveis de períodos de recessão. Entretanto, dar desconto por desconto pode não ser o suficiente para engajar os consumidores: as marcas de moda devem adotar uma abordagem criativa e disciplinada para ajudar a vender seu inventário sem destruir o perfil da marca.

Alguns especialistas recomendam às marcas de luxo que elas “adormeçam” neste ano, restringindo a manufatura e cortando custos sem demitir seus empregados ou fechar lojas, como uma forma de não acumular mais mercadoria que forçosamente receberia preços promocionais uma vez que as lojas reabram. A Chanel, por exemplo, anunciou que parou toda a sua produção (espalhada entre França, Itália e Suíça) neste período.

A recente recessão de 2008 conduziu a um minimalismo generalizado, traduzido nas marcas de luxo pela abordagem prática de Phoebe Philo na Céline e a riqueza furtiva das bolsas sem logo da Bottega Veneta, por exemplo. Desde que os EUA se tornaram o epicentro da pandemia do coronavírus, pode-se confirmar uma nova transição na moda. A mudança já estava no ar: até mesmo a Gucci já estava simplificando seu estilo barroco nas coleções recentes. Depois de uma década, não é uma coincidência que as tendências estejam seguindo caminhos parecidos. Em tempos de incerteza, os consumidores priorizam roupas profissionais e são mais reflexivos sobre suas compras. Porém, desde as tendências ao consumismo, muita coisa mudou desde a última vez que a indústria da moda viu uma mudança tão dramática.

Por sua vez, muita gente ainda está consumindo – principalmente os millennials que desfrutam de segurança salarial. Jovens consumidores já são mais propensos a fazer compras online e, como estão passando mais tempo online por conta do home office, consequentemente passam mais tempo mexendo nas mídias sociais, o que influencia o consumo. Os efeitos psicológicos da pandemia no comportamento dos consumidores é multi-facetado: enquanto o auto-isolamento e a tristeza podem conduzir alguns consumidores que normalmente já destinam parte da sua renda para retail therapy (terapia de compras), outros evitam. Outros, por estarem presos em casa sem ter onde vestir suas novas compras, simplesmente não enxergam razão para comprar. Alguns outros ficam eticamente conflitados, uma vez que entregas em casa requerem que as pessoas que trabalham nos centros de distribuição e nas entregas saiam de casa num momento em que sabemos que o isolamento social (ou seja, ficar em casa) é a melhor maneira de conter a disseminação do vírus. No entanto, outros se sentem numa obrigação moral de gastar para manter a economia girando da maneira que dá.

Como eu falei lá em cima, é muito difícil prever qualquer coisa em tempos de tanta incerteza, principalmente depois da notícia recente de que a Hermès bateu recorde de vendas na reabertura da sua loja em Guangzhou, o que indica uma forte recuperação do consumo de luxo no país pós-coronavírus. O recorde de vendas da Hermès na China (US$2,7 milhões em um único dia) é uma ótima notícia também para outras marcas, principalmente para as luxuosas maisons que encontram nos chineses os seus mais ávidos consumidores. Entretanto, antes de antecipar um revenge buying generalizado pelo mundo, há que se considerar, além de questões culturais, o crescimento econômico ininterrupto da China nos últimos anos, o que coloca o país em um contexto muito diferente de outras nações: o quadro pode ser bem diferente em países que já vinham de um cenário de crise e desvalorização da moeda, e as marcas que não são internacionalizadas podem sofrer – e muito – depois da pandemia.

Coronavirus e o mercado da moda

Na medida em que os casos globais de coronavirus continuam a crescer, as marcas de luxo estão se preparando para o pior. Duas semanas depois do fim do “feriado” prorrogado, decretado pelo governo, de Ano Novo Lunar Chinês, novos casos de COVID-19 aumentaram em países como Irã, Coreia do Sul e Itália, onde já são 7 mortos e mais de 280 contaminados. As bolsas de valores de todo o mundo despencaram enquanto o governo italiano decretou bloqueios (lockdowns) em 10 cidades e proibiu eventos públicos, incluindo o Carnaval de Veneza. Na semana de moda de Milão, a maison Giorgio Armani transmitiu online o seu desfile sem platéia.

De acordo com o site BoF, o coronavirus pode ser um cisne negro para uma indústria que, durante anos, se manteve impermeável as volatilidades macroeconômicas e políticas e dependente da China para garantir o seu crescimento. De acordo com um estudo da Altagamma, BCG e Bernstein, a previsão é de que mesmo as principais marcas podem enfrentar um declínio de até 10 bilhões de euros nas vendas de luxo nesse ano. A indústria poderia perder entre 30 e 40 bilhões de euros em vendas neste ano.

Ao mesmo tempo, as condições desafiadoras de comércio pode persistir até o próximo ano já que os consumidores chineses – que, desde 2012, contribuíram pra 70% do crescimento global no segmento de luxo – ficam em casa, e uma desaceleração é espelhada nos principais mercados de luxo como o Japão.

A previsão da agência de consultores de luxo Ortelli & Co. prevê que o período correspondente aos primeiros 3 meses de 2020 será um dos piores da indústria de luxo em anos, embora algumas marcas fiquem mais expostas aos riscos do que outras, a exemplo da Louis Vuitton e da Burberry, que dependem muito dos consumidores chineses.

A epidemia, que atrapalhou as viagens não só de/para a China mas também em outros países, já demonstra seus efeitos nas lojas em aeroportos e em pontos turísticos, que testemunham uma diminuição brusca no fluxo de clientes, e que deve piorar na medida em que outros países impõem restrições.

7 dicas para investir no luxo de maneira inteligente

Quem me segue no Instagram já notou que meus looks do dia costumam ser pontuados por bolsinhas lindas de algumas das renomadas maisons de luxo. Isso porque, desde 2010, eu comecei a “investir na bolsa” e escolher com cautela cada acessório que entra no meu armário, que é pra usar muito as coisas que tem uma qualidade singular e que podem durar muito muito muito tempo na minha vida (preferencialmente, para sempre).

Sou uma entusiasta desse tipo de compra, e gosto de pesquisar modelos incríveis que poderão fazer a diferença no meu vestir diário, mas cada compra desse tipo é feita de maneira super consciente! Resolvi dividir aqui com vocês um pouquinho do meu processo que leva a cada compra de luxo, em 7 dicas para investir de maneira inteligente.

1- Conheça o seu armário

Mais uma vez, a dica de ouro, fundamental pra qualquer compra inteligente: é preciso conhecer o seu armário, saber o que vai fazer a real diferença na hora de montar seus looks. Se isso vale pra qualquer compra, para compras de luxo isso é ainda mais importante, já que a meta é ter a tal peça para sempre e usar muito. Se a sua compra de luxo se encaixar perfeitamente no seu estilo de vida e combinar com tudo do seu armário, você certamente multiplicará os usos, o que diminui o custo por uso daquela peça.

2- Namore MUITO o que você quer antes de comprar

Você TEM QUE AMAR MUITO aquela coisa que você quer comprar, porque é um investimento. Quando você compra uma coisa cara, de luxo, a meta deve ser ter aquela peça PARA SEMPRE e pra usar MUITO – o que não significa comprar só coisas básicas (até porque o conceito de básico é subjetivo). Na minha opinião, é mais fácil aplicar esse princípio aos acessórios, por isso eu prefiro as bolsas. Pesquise muito sobre o item que você quer comprar, inclusive indo na loja pra ver ao vivo e experimentar. Não tenha vergonha de entrar numa loja de luxo e pedir para experimentar uma coisa (ou duas, ou três) e não comprar imediatamente. Olhe-se no espelho vestindo aquela peça, tire fotos, e depois saia pra dar uma volta antes de fazer a compra definitiva.

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experimentando a nano belt na Céline do Le Bon Marché

Já aconteceu comigo, por exemplo, de namorar muito uma bolsa da Céline – a mini luggage -, definir que queria comprá-la e, quando eu cheguei na loja e a experimentei, ela simplesmente ficou horrível pra mim. O formato da bolsa e o tamanho da alça crossbody ficaram péssimos pra minha altura e tipo físico, e então eu acabei não comprando a bolsa. No mesmo dia, experimentei a nano belt mas decidi não comprar naquele momento; quando voltei na loja 2 dias depois, experimentei a nano belt de novo e também a large trio, e foi justamente a large trio que ganhou meu coração e voltou comigo pra casa. Não é que eu não tenha gostado da nano belt, eu gostei e, inclusive, quando vejo essa foto me dá vontade de comprar uma, talvez um dia quem sabe (mas em outra cor) mas, naquele momento, foi a large trio que fez meu coração de fato bater mais forte. Aliás, nessas horas, tirar foto portando a peça (conselho: sempre peça autorização ao vendedor, por uma questão de cortesia e educação) é muito útil, porque você pode rever aquela foto muito tempo depois e considerar se ainda seria uma compra inteligente, se ainda combina com o seu estilo e o seu armário.

3- Pense o propósito da sua compra

Investir numa peça de luxo não pode ser uma compra leviana – aliás, nenhuma compra deveria ser leviana, porém quanto mais dinheiro envolvido na peça, aí é que a gente precisa pensar mesmo na compra. Itens de luxo costumam ter informação de moda, mas um acessório com informação de moda em excesso pode complicar os seus usos no dia a dia. Por isso, as dicas 1 + 2 + 3 andam muito juntinhas, já que conhecer o seu armário e namorar a peça que você quer ajudarão a definir o propósito da sua compra, aumentando as chances de acertar em cheio e não se arrepender nem por um segundo.

4- Estude as marcas e procure aquela com a qual você mais se identifica

Se você quer comprar alguma coisa bacana, mas você ainda não sabe exatamente o que você quer, pense na marca. Saber um pouquinho de história de cada maison de luxo pode ser um ótimo meio de saber se aquela peça se encaixa na sua vida, se tem a ver com o seu estilo, se você se identifica. Essas compras mais pensadas precisam envolver pesquisa. Por exemplo, quando o Alessandro Michele entrou na Gucci, ele revolucionou a marca e foi um boom de Gucci por tudo quanto é lado: lembro que, quando comprei minha primeira bolsa da maison italiana (lá nos idos de 2010), a marca não tinha a mesma potência fashion que tem hoje, tanto que eu escolhi um modelo bem basicão; já a minha última compra da Gucci, no ano passado, foi uma bolsa cheia de informação de moda, em camurça azul com couro vermelho no modelo Ophidia, que foi resgatado pelo Michele nos arquivos da maison de Florença da década de 1970 e tem uma pegada vintage que eu adoro.

5- Faça a matemática do custo por uso

Se você compra uma coisa muito barata e não usa nunca, o custo por uso desta peça foi altíssimo. Se você compra uma coisa cara (do tipo do investimento que estamos falando aqui) e usa muito, o custo por uso dessa peça cai. Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão aprimorada do custo-benefício porque, na verdade, custo-benefício é uma coisa ainda mais relativa e que eu acho que não presta muito para compras de luxo. Por sua vez, o custo por uso é bem mais objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25.

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A vasta maioria das minhas bolsas tem um custo por uso baixíssimo, porque eu as uso muito, e eu compreendi que, particularmente, não adianta eu ficar comprando bolsas muito baratinhas, porque eu perco o interesse rápido e o custo por uso delas fica muito alto; já as bolsas mais caras, que tem uma qualidade superior e costumam carregar uma história herdada da maison, despertam muito mais o meu interesse e me fazem ter muito mais vontade de escrever a minha própria história tendo-as como acessórios. O mesmo aconteceu com meu trench coat da Burberry (por enquanto, minha única roupa de luxo): ele foi caro sim, porém o custo por uso dele ficou baixíssimo já nos 5 primeiros meses, pois eu o uso muito desde que o comprei.

6- Não descarte os outlets

Seja em viagens ou mesmo no Brasil (que agora tem marcas renomadas em alguns outlets pelo país), não deixe de pesquisar nos outlets as muitas opções de luxo. De novo, a compra tem que ser pensada, estudada, que tenha um propósito na sua vida e, preferencialmente, com um custo por uso maneiro. Se a ideia é ter aquela peça para a vida toda, não precisa comprar na loja com preço cheio, e o outlet tem a redução do preço simplesmente porque não são mais da estação, enquanto as peças continuam sendo incríveis. É fato que no outlet é mais difícil de planejar tanto, porque nem sempre a gente sabe o que vai encontrar por lá, e aí o conhecimento profundo do seu armário vai te ajudar e muito a definir se a compra vai encaixar no seu estilo de vida.

7- Se o orçamento permitir, siga o seu coração

É, eu sei, eu falei tanto no planejamento, na importância de pesquisar, etc, etc, pra agora falar pra você simplesmente seguir o seu coração? Sim, e isso é absolutamente coerente com todo o resto que escrevi! Basta olhar o exemplo que dei na dica nº 2: eu experimentei 3 bolsas na Céline (me recuso a escrever sem o acento agudo) pra acabar comprando aquela que, no fim das contas, fez o meu coração bater mais forte. É lógico que eu fiz isso porque já tinha pesquisado a história da maison, estava querendo há muito tempo adicionar uma bolsa dessa marca francesa ao meu armário, mas no fim das contas o modelo que eu tinha planejado comprar não funcionaria pra mim e, ao invés de simplesmente desistir da compra, experimentei outros modelos e deixei meu coração decidir – tudo dentro do orçamento, sem a menor chance de me deixar no vermelho.

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o meu chapéu da D’ESTRËE

Algo semelhante aconteceu com o chapéu da D’ESTRËE que é o meu xodó. Eu amo chapéus desde que me entendo por gente e, ao conhecer essa marca francesa super chique e cool, eu não resisti e comprei um chapéu azul. Naquele dia, eu não tinha a menor intenção de comprar mais um chapéu pra minha coleção, muito menos um de uma marca de luxo, mas ele era lindo demais e combinava demais com as outras coisas que moram no meu armário pra eu simplesmente ignorar as palpitações do meu coração ao experimentá-lo. Mesmo tendo sido uma compra cara, o custo por uso dele já se tornou baixíssimo porque eu o uso muito. Por isso que é importante, também, seguir o coração se o orçamento permitir. Assim, a sua compra ainda será consciente e inteligente, e você viverá a sensação luxuosa de comprar algo incrível sem tanto planejamento.

Black Friday e o seu armário

Promoção: quem não gosta? Tão bom pagar menos do que o preço regular indicado nas etiquetas, não é? No início do ano, fiz um post com 10 dicas para fazer compras inteligentes nas liquidações, e hoje quero conversar um pouquinho sobre nossos armários e a black friday. Afinal de contas, o que vale mesmo a pena?

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Bem, como tudo na vida, cada um sabe bem onde o seu calo aperta, quais as suas necessidades e quais os seus limites. Particularmente, desde que eu comecei a olhar pro meu armário com mais cuidado e a enxergar mais potencial em cada peça que eu tenho, eu não tenho tido impulsos loucos de comprar coisas que eu realmente não necessito. Nós somos bombardeados o tempo inteiro com propagandas que criam em nós falsas necessidades e, quanto mais conectados ficarmos com nossos armários, quanto mais cientes estivermos das cores e formas que nos favorecem (ou que mais gostamos), essas falsas necessidades terão menos efeito sobre nós.

Aproveitar a Black Friday (ou qualquer promoção verdadeiramente boa) pra comprar uma coisa que se ama e que se tem certeza de que vai usar muito é um super negócio.  Naturalmente, temos que ficar atentos às promoções fajutas, do tipo “pague a metade do dobro”. Ano passado, por exemplo, eu estava em Londres na Black Friday, e consegui comprar uma bota da UGG que já estava na minha wishlist com 40% de desconto. Como eu sinto muito frio nos pés, e atualmente moro num lugar onde o inverno é rigoroso, pra mim fez todo sentido essa compra, e eu economizei boas libras por conta do desconto.

O melhor a se fazer, nesta época e também antes de qualquer compra, é avaliar o seu acervo de peças, notar se falta alguma coisa que vá realmente fazer diferença quando você for vestir-se, e fazer a conta do custo x benefício. Por exemplo:

  • peças de fibra natural, que geralmente custam mais;
  • peças básicas e/ou curingas (atenção: curingas pra você, e não que os outros dizem ser) que ajudem a multiplicar os usos das peças que você já tem;
  • roupas para ocasiões especiais, e aí entra de novo a necessidade de relativizar o que é ocasião especial para você: pode ser festa, pode ser ir à praia, pode ser até um tailleur caso seu guarda-roupa de trabalho seja mais informal;
  • acessórios, que ajudam a compor e até mesmo modificar os looks;
  • sapatos confortáveis e de boa qualidade;
  • peças de marcas que admiramos e que nem sempre entram no orçamento, mas que tem tudo a ver com o nosso estilo.

Também é uma boa aproveitar esse tipo de promoção pra repor ou renovar o enxoval – afinal, lençóis e roupas de banho costumam ficar no armário também, né? Muitas lojas especializadas em artigos para a casa também reduzem significativamente o preços quando é época de promoção, então vale a pena ficar de olho e, depois de avaliar o que já se tem, buscar nos preços mais baixos boas opções para suprir as necessidades.

Não custa lembrar da importância de estar sempre ciente sobre as políticas de troca de cada loja, principalmente em períodos de promoção, antes de fechar a compra. Afinal de contas, não há compra pior do que aquela da qual a gente se arrepende e ainda fica privado da possibilidade de troca ou devolução.

O consumo consciente é resultado da nossa calma e clareza para avaliar se as nossas escolhas estão sendo guiadas por necessidades reais, ou se estamos deixando nos levar pela excitação generalizada!

Tecido plano X Malha

Já conversamos por aqui sobre a importância de ler a etiqueta de composição do que já temos no nosso armário, e do que estamos pensando em incorporar ao nosso guarda-roupas. Esse conhecimento é muito útil e definitivamente nos ajuda a fazer escolhas melhores na hora das compras, mas a experiência fica muito mais completa quando sabemos diferenciar tipos de tecidos para além das etiquetas de composição.

Se as etiquetas de composição contam uma história para nós (de onde a peça veio, com qual fibra foi feita, quais os cuidados devemos ter com ela), os tecidos contam uma história para o mundo – afinal, as pessoas não vêem o que está escrito na etiqueta interna das nossas peças, e sim a própria peça que vestimos.

Vamos começar por um conceito bem simples: todo tecido que não estica quando a gente puxa duas pontas em direções opostas é um tecido plano, enquanto um tecido que “deforma” e “cresce” quando esticado é malha. Tecidos planos e malhas podem ser feitos tanto de fibras naturais e não-naturais. Mas qual é a utilidade prática de saber diferenciar malhas de tecidos planos?

Bem, esses dois tipos de tecidos tem efeitos diferentes na nossa silhueta, e esses efeitos variam de acordo com as partes que cobrem, além de render sensações diferentes para quem os usa! Ademais, cada um tem uma função a desempenhar, e cada um desses tecidos se encaixa melhor em alguns ambientes e situações do que em outros.

As peças em malha são extremamente maleáveis e acompanham as formas de quem veste, podendo marcar mais quaisquer gordurinhas e volumes extras. Já as peças em tecido plano tem um caimento mais reto (mesmo quando são maleáveis, como a seda), e por isso criam formas mais lisas e estruturadas, que podem ser ideais para quem quer disfarças as próprias formas, “desarredondando” a silhueta.

Os tecidos planos quase sempre parecem mais sofisticados e formais, enquanto as malhas parecem ser sempre mais confortáveis e esportivas. Eventos elegantes, como festas e casamentos, e ambientes profissionais muito formais não são lugares adequados para se usar peças em malhas, ao passo que as peças feitas de tecido plano podem ir para qualquer lugar – e, de quebra, garantir um visual sempre mais sofisticado.

Mas não se assuste: a malha não é vilã nem inimiga do povo! Na verdade, são inúmeras as situações em que ela é o investimento mais certo. Por ser maleável e mais confortável, a malha é uma ótima companheira de viagem, uma vez que amassa menos e é mais fácil de “desamassar” do que tecidos planos. A malha também veste bem em momentos quando todo o resto do armário nos aperta, sendo especialmente boa para as grávidas, pra quem tá amamentando, pra quem se movimenta muito em função dos filhos e/ou animais de estimação, etc. A malha é também o tecido perfeito para o homewear. As peças de malha geralmente são (ou, pelo menos, deveriam ser) mais baratinhas.

Existem, também, algumas maneiras de deixar a malha mais refinada. As peças em malha podem ter modelagens mais interessantes, ou podem ser mais fininhas e ter uma leve transparência, ou podem ter cores mais neutras. Pode reparar que quase todas as marcas mais caras fazem camisetas em malhas finas, com cortes e recortes que as transformam em algo além de uma simples camiseta.

Já as peças em tecido plano, que em geral são bem mais elegantes e mais refinadas, podem também parecer mais modernas quando as modelagens são menos óbvias e/ou menos clássicas, tem mais cores e/ou estampas, e também mais texturas. As peças em tecido plano geralmente custam mais, mas também duram muito mais se adotarmos os cuidados indicados na etiqueta de composição.

Misturar peças de malha e tecido plano em um único look é uma outra maneira bastante interessante de refinar um pouco mais a malha e circular por diversos ambientes sem estar desarrumada ou arrumada demais. É o tipo de truque que pode, por exemplo, fazer render ainda mais uma mala inteligente!

O nosso armário tem que atender às necessidades do nosso dia a dia

Roupas bonitas não necessariamente significam que são as roupas certas para a nossa vida. Ter uma identidade visual segura e consistente não significa usar a mesma coisa todos os dias, como se fosse um uniforme, mas também não significa ter as roupas mais fantásticas do mundo que não saem de dentro do armário. Um armário bom tem que combinar com a vida que a gente leva!

@chapolinsincero

Um bom armário tem um monte de peças lindas, que a gente ama usar, e que combinam de verdade com a vida que a gente leva. Se o seu armário é cheio de peças incríveis, mas vestir-se toda manhã é um martírio, o diagnóstico pra isso é um só: tem muita gente que compra roupas pra vida que gostaria de viver, e não pra vida que vive! Quando este é o caso, acabamos usando sempre as mesmas 5 ou 10 peças que realmente se adequam à vida que vivemos e, quanto mais compramos, menos opções temos.

Vivi uma época assim, de armário abarrotado de peças lindas que ficavam apenas lá, desperdiçando espaço e dinheiro. Muitas roupas foram doadas ou vendidas ainda com etiqueta, porque elas simplesmente não se encaixavam no meu estilo de vida! É por isso que uma edição de armário é tão importante: é muito mais fácil um consultor de estilo enxergar que essas roupas não terão oportunidades reais de sair de casa, porque não temos o envolvimento emocional! Do mesmo modo, o consultor de estilo orienta as suas compras para o que realmente será funcional, ao invés de continuarmos insistindo em comprar o que não cabe no nosso estilo de vida.

Se você é uma mulher com uma carreira que toma conta de grande parte da sua vida, não adianta só comprar peças confortáveis de usar no final de semana. Se você é uma mulher que mal sai à noite, não adianta lotar o armário com peças de noitada. Se você trabalha em home office, não vale a pena encher o armário de roupas formais. Ou ainda: se você é uma mulher que não gosta muito das próprias coxas, não adianta ter só saias, vestidos e shorts curtos. Se você é um homem que trabalha de terno e não suporta usar camisa social aos finais de semana, não adianta ter o armário cheio de opções assim. É um pouco daquela conversa que já tivemos sobre o armário cápsula, já que é preciso avaliar cada atividade da nossa rotina pra que o nosso armário atenda às necessidades do dia a dia e facilite o nosso vestir.

Mais uma vez, nós precisamos fazer um exercício de autoconhecimento. Pra construir um armário que funcione de verdade pra gente, é bom começar fazendo as seguintes perguntas:

  • qual é a vida que eu levo?
  • qual é o “código de vestir” do meu trabalho?
  • quais são as minhas atividades aos finais de semana?
  • eu sinto mais frio ou calor?
  • onde eu moro, as estações do ano são bem definidas?
  • eu sou mais do dia ou da noite?

Tudo isso não significa que uma pessoa que é workaholic precise ter somente roupas cinzas e pretas e chatas, ou que quem passa seus finais de semana cercado de crianças não possa ter um pouco de glamour nas suas roupas casuais, ou quem adora uma noitada só vai ter sapatos de saltos altíssimos. O importante é, como sempre, encontrar o equilíbrio pra não desperdiçar e nem acumular o que não tem necessidade!

Esses são alguns exemplos de uma linha de raciocínio pra fazer com que a gente reflita e analise o nosso estilo de vida junto com a nossa personalidade e o nosso gosto pessoal. Desse modo, será mais fácil montar um armário inteligente, que funcione de verdade pro nosso dia a dia, sem deixar de lado o que faz o coração bater mais forte e o olho brilhar, mantendo o foco na função e na versatilidade!

Pra fazer boas compras em brechós

Há algum tempo atrás, fazer compras em brechó só era cool se fosse na Europa. Graças a Deus, observo que essa mentalidade está mudando e tem cada vez mais gente comprando em brechós brasileiros, e que os brechós brasileiros tem oferecido cada vez mais peças muito boas para o consumidor!

preloved is the new love

Uma das coisas importantes da consultoria de estilo é trabalhar o consumo consciente, evitando compras impensadas e armário entulhado, facilitando o processo de vestir-se e exercitando o raciocínio e a criatividade. E falar em consumo consciente é também falar de ética e sustentabilidade: é consumir menos, gerar menos lixo pro mundo, e pensar pra quem estamos dando o nosso dinheiro.

Quando a gente se dispõe a visitar brechós na busca de peças para incrementar nossos armários, as vantagens não são só individuais, mas impactam também pro bem do mundo todo. As araras lotadas dos brechós podem desanimar um pouco na hora das compras, mas permitir-se um tempo pra fuçar esses espaços pode ser uma verdadeira caça ao tesouro, encontrando peças únicas e absolutamente incríveis!

Nos brechós, é impressionante a quantidade de roupas boas que são descartadas pelas pessoas: muito mais do que coisas velhas e puídas, as araras dos brechós costumam ser abastecidas com peças das marcas que a gente deseja, e que usam bons materiais, com bons acabamentos e caimentos muito melhores do que a média. Bons brechós selecionam as suas peças a partir de critérios como boa conservação e manutenção, boa aparência e pouco uso, o que resulta num uso esperto do nosso dinheiro. Afinal, mesmo quando foram muito pouco usadas, as peças de marcas boas, e que tem ótima qualidade, são vendidas nos brechós por um preço muuuuuito mas muuuuuuiito menor do que o praticado nas lojas convencionais.

Se as araras dos brechós estão sempre lotadas, isso se deve muito à velocidade insana da produção da indústria, dos preços baixíssimos praticados às custas da precariedade de materiais e da falta de dignidade dos trabalhadores, das propagandas que incentivam as pessoas a comprarem muito e com muita frequência, e a falta de difusão de conhecimento relacionado à responsabilidade que temos que ter ao descartar roupas (e qualquer outra coisa). Quando a gente se compromete a não consumir o que não faz diferença na nossa vida, a gente pára de produzir desperdício e não contribui mais com esse esquema consumista. Pra consumir de modo consciente, é importante parar de levar mais do mesmo e deixar o nosso armário com mais variedade, mais possibilidades de coordenação, mais versatilidade e mais praticidade.

Os brechós também nos ajudam a aperfeiçoar as nossas escolhas, treinando o nosso olhar e dando espaço pra novas ideias surgirem, exercendo a nossa criatividade e verdadeiramente colocando pra fora a nossa identidade na hora de se vestir. Quando uma marca lança uma coleção, ela é pensada para facilitar as coordenações, e a gente acaba se sujeitando àquelas fórmulas prontas que os estilistas propõem. No brechó, a gente acaba sendo o estilista de nós mesmos: pensamos em combinações inusitadas, expandimos as possibilidades e ultrapassamos o limite da zona de conforto ao procurar o que faz sentido pra nossa vida e o que vai, de fato, adicionar ao nosso armário algo de positivo.

Na hora de fazer compras, o planejamento é sempre importante, e a caça aos tesouros nos brechós também requer um planejamento, que deve ser ajustado pra esse tipo de loja. Além de verificar o armário pra ver o que tá faltando e fazer uma lista (tão específica quanto possível) do que precisa ser adquirido, vale a pena saber se há um dia específico em que as araras são abastecidas e programar a visita na sequência desse abastecimento, saindo de casa com uma roupa simples e descomplicada que não vai te desestimular caso os provadores sejam precários.

É importante sempre fiscalizar a conservação da peça (pra não comprar nada furado/rasgado/puído), e, mais do que nunca, ficar de olho nas etiquetas internas das peças, já que os bons tecidos vão durar muito mais, e o preço precisa ser condizente. Etiquetas internas devem estar bem nítidas, principalmente no caso de peças delicadas, que é pra gente saber direitinho todas as instruções de lavagem e cuidado. Se for uma peça bordada e/ou com aplicações, a fiscalização tem que ser ainda mais cuidadosa. Também é bom pensar fora da caixa e prestar atenção no potencial das peças: muitas vezes, uma boa costureira pode transformar aquela roupa e dar maior versatilidade pro nosso vestir diário. Nesse caso, é importante pensar se o gasto total (valor da peça + ajuste) compensa.

Acho que já falei disso por aqui, mas não custa nada lembrar: quando estamos comprando, é fundamental só comprar peças que possam render looks com pelo menos outras 3 peças que já estão no closet. É essa matemática que faz o nosso armário render! Além disso, em qualquer compra é MUITO IMPORTANTE experimentar TUDO. Em qualquer loja, mas principalmente nos brechós, os números das etiquetas não são um guia definitivo pra sabermos o que veste bem, porque a numeração e a modelagem varia muito de marca pra marca, e roupa de segunda mão pode ter sido ajustada, encolhido na lavagem ou cedido com o uso… por isso é muito mais importante prestar atenção ao caimento do que ao número escrito na etiqueta. E jamais compre coisas que não vestiram super bem e que não despertam entusiasmo: a gente tem que amar tudo o que a gente compra, que a garantia de que a gente vai vestir logo e muito!

Ademais, é bom evitar roupas que tenham cheiro forte: os brechós costumam higienizar as peças antes da sua exposição e, se o cheiro não saiu, pode ser que nunca mais saia. É recomendável lavar/vaporizar/higienizar as compras feitas no brechó mais uma vez antes de usar. E, se o seu estilo não combina com o que é vintage, dá pra achar muita coisa atemporal nos brechós: quanto menos cara de tendência datada a roupa tiver, maiores as chances de render bons looks com o que a gente já tem no armário.

Eu adoro o termo “preloved”, usado em inglês para definir o mercado de segunda mão e que, em tradução livre, seria algo como “previamente amado”. Quando colocamos no nosso armário algo que já foi previamente amado, a gente não só ganha um novo amor, mas também prolonga a vida de todas as histórias que aquela peça já viveu.

A importância da etiqueta de composição

Sabe aquela etiqueta interna que vem em todas as suas peças de roupa, e que também está presente nas bolsas e nos lençóis que a gente compra? Sim, aquela etiqueta que pode “pinicar” ou “fazer cosquinha” e que muita gente ignora solenemente, ou até mesmo acaba cortando fora? E se eu te falar que a etiqueta de composição é da maior importância?

A etiqueta interna de cada peça é um verdadeiro manual de instruções: nela, você vê escrita desde a composição do tecido até quais os cuidados que você terá que ter com aquele item. Quem corta essa etiqueta fora, ou simplesmente ignora estas informações, possivelmente está diminuindo a vida útil daquela peça!! Isso sem contar a relação custo x benefício que você já pode calcular quando estiver dentro da loja!

Você não precisa se tornar um especialista em tecidos e na composição de cada material, mas é bom ter uma noção do que é fibra natural e do que é fibra sintética. Assim, você terá mais uma ferramenta para consumir de maneira mais inteligente, compreendendo o que é melhor pra cada ocasião e estação, e no que vale a pena gastar mais ou menos dinheiro. Eu não levo uma única de peça de roupa pro provador de uma loja sem antes olhar, ali na arara mesmo, o que tá escrito na etiqueta de composição! Em alguns casos, eu olho a etiqueta de composição antes mesmo de ver o preço!

As fibras naturais são encontradas prontas na natureza: é o caso do algodão, do linho, da seda, do couro e da lã. As fibras artificiais são produzidas quimicamente a partir de matérias-primas naturais, geralmente a partir da celulose: a viscose, o cupro, o tencel/liocel, o rayon e o acetato fazem parte deste grupo. Por sua vez, as fibras sintéticas são produzidas a partir de matérias-primas não-naturais, principalmente petróleo: poliéster, poliamida, acrílico, nylon e elastano são materiais sintéticos.

Quando estamos comprando uma peça de roupa ou um sapato/bolsa, geralmente os reconhecemos por outros nomes: peças de seda, malhas, crepes, microfibras, tafetás, tricôs podem ser feitos a partir de fibras naturais, artificiais ou sintéticas. E é na etiqueta interna que está a descrição certinha dos fios que compõem aquele tecido, com direito à porcentagem de cada uma destas fibras, e poderemos avaliar melhor se o preço cobrado corresponde mesmo ao material usado.

As peças feitas a partir de fibras naturais tem geralmente um toque mais agradável à nossa pele e são mais gostosas de vestir, além de terem um caimento melhor. Os tecidos naturais acabam conferindo à peça uma aparência mais refinada e clássica. Embora o algodão, o linho, a seda e a lã sejam fáceis de amassar, desamassam com o próprio uso, o que acaba garantindo um look impecável por mais tempo. O look impecável também se garante porque as fibras naturais são sempre mais fresquinhas e, no calor, esquentam menos do que as peças sintéticas. As fibras naturais são mais resistentes, o que garante uma maior durabilidade das peças, desde que sejam cuidadas com o carinho que merecem (e todas as informações necessárias pra fazer sua peça durar bastante tempo tão linda quanto no momento em que ela saiu da loja estão ali, na etiqueta de composição!).

Já as fibras sintéticas tem um toque mais áspero, mesmo quando maleáveis: o teste infalível é comparar seda sintética com seda natural, e dá pra notar a diferença imediatamente. Estes materiais não-naturais costumam ter um brilho extra (que vem do plástico usado para sua produção), o que dá um aspecto bem menos sofisticado. Toda regra tem sua exceção, e existem alguns materiais sintéticos muito tecnológicos que, dependendo do design, ficam muito elegantes. Para o frio, as fibras sintéticas são muito úteis, já que aquecem mais sem precisar de muito volume (a menos que você more num lugar onde faz -20ºC, ou menos, e aí eu acho que será inevitável usar muitas e muitas camadas de roupa). As fibras sintéticas criam bolinhas com mais facilidade, e precisam de cuidado e atenção extra na hora de lavar e passar, já que um ferro super quente pode deixar marcas na sua peça, ou até mesmo derreter e queimar.

E o preço? Acho que, a partir destas informações, podemos concordar que o valor cobrado é justificado na proporção de material natural que foi usado para confeccionar aquela peça. O preço tem que ser compatível com o material e com o design da peça. Afinal, as fibras que são encontradas diretamente na natureza são recursos naturais, com processos de obtenção e desenvolvimento mais específicos. Um exemplo prático: uma t-shirt 100% algodão que custe R$100 tem um custo x benefício muito melhor do que uma t-shirt de poliéster ou viscose que custe R$20. Quando vamos comprar uma peça de fibra não-natural, temos que avaliar se o valor é justo considerando o design, o caimento e a função (de novo, é difícil sobreviver ao inverno sem fibras sintéticas). Além disso, um tecido natural requer menos processos industrializados, demandando menos do meio-ambiente, o que é mais um motivo pelo qual as fibras naturais acabam sendo uma opção mais sustentável.