Refletindo sobre consumo consciente em 2021

Depois de um grande hiato – em que eu mais rascunhei textos do que, de fato, terminei algum -, eis aqui o nosso primeiro post de 2021, que é uma reflexão diretamente provocada por um artigo da Vogue que eu li recentemente.

Neste artigo, a grande pergunta é: como o consumidor consciente se veste em 2021? E, mais: como consumir conscientemente neste ano? De acordo com a reportagem, é denominador comum que as palavras-chave na moda em 2021 são conforto e pragmatismo, com igual importância para a sustentabilidade. Então como fazer uma coleção de moda ser adequada a estes tempos?

O artigo da Vogue coloca a estilista Maria McManus como exemplo de preocupação com esses três conceitos-chaves desde antes da pandemia, já que ela começou a trabalhar numa linha de básicos chiques ainda em 2019. A Vogue destaca que um dos grandes benefícios de lançar sua marca nestes tempos que estamos vivendo é que McManus está diretamente engajada com novos consumidores conscientes.

O movimento de sustentabilidade na moda não é exatamente novo, mas ganhou força nos últimos anos. No entanto, tem sido um movimento inverso, em que as grandes forças deste mercado se engajam para melhorar suas já existentes práticas de trabalho e obtenção de materiais. No Brasil mesmo, são incontáveis as marcas que tiveram que rever seu processo produtivo por conta de denúncias de trabalho escravo na linha de produção, por exemplo. Por sua vez, há algumas marcas que realmente se comprometem com o slow fashion – pra mim, um grande exemplo é o Coletivo Lírico, que propõe vários designs super legais de t-shirts mas que só as produz de acordo com a demanda e não aceita devoluções (a menos que haja um defeito de produção), evitando acúmulo de produção e, consequentemente, gerando menos lixo.

com minha brusinha mais amada do Coletivo Líricoslow fashion 100% algodão, 1000% poesia.

Maria McManus começou do zero com uma política muito clara, e até bastante agressiva; de acordo com Maria, se o tecido não for reciclado, orgânico, biodegradável, ou obtido de maneira responsável, ela simplesmente não usa. Deste modo, McManus já edita a sua produção desde o começo, sabendo exatamente o que ela procura. Maria também se preocupa com o uso dos recursos disponíveis para as suas etiquetas, que são recicladas, e também com os botões que usa, feitos a partir de nozes corozo (ou nozes tagua, que são consideradas o marfim vegetal).

Maria McManus tem uma preocupação direta com os tecidos que ela usa, com uma lista bem clara de certificações objetivas: o nylon e a cashmere reciclados são certificados pelo padrão de reciclagem global (Global Recycled Standard); o algodão orgânico é certificado pelo padrão global de tecidos orgânicos (Global Organic Textile Standard), o que significa que os fios não podem ser tratados com alvejante de cloro, formaldeído ou outros produtos químicos; a lã merino é verificada pela OEKO-TEX e o padrão de lã responsável (Responsible Wool Standard); e o tencel é certificado pelo Conselho de Gestão Florestal (Forest Stewardship Council), o que garante a administração responsável dos recursos naturais obtidos.

Esse tipo de preocupação com os tecidos influencia diretamente na vida do consumidor. Como nós já conversamos diversas vezes por aqui, tecidos obtidos através de fibras orgânicas/naturais costumam ser mais duráveis, são mais agradáveis ao toque, tem uma manutenção mais fácil, são biodegradáveis, entre tantos outros benefícios. Se nós, enquanto consumidores, estamos mais ligados sobre a maneira como nossas roupas são feitas, essas certificações citadas anteriormente costumam ser a diferença entre o progresso e o greenwashing (o termo greenwashing compreende a prática de promoção de discursos, anúncios, propagandas e campanhas publicitárias com características ecologicamente/ambientalmente responsáveis/sustentáveis). Termos como orgânico, ecológico, natural e sustentável são frágeis; se uma marca de moda alega que o algodão usado na produção é 100% orgânico, é preciso estar preparado para provar a procedência e veracidade da informação.

É fato que ainda há uma parcela pequena de consumidores conscientes, que compreendem o seu papel no consumo de moda como agentes modeladores de um novo jeito de produção. A reciclagem de roupas, por exemplo, ainda é uma prática muito nova e pouco disseminada – são pouquíssimos os centros de arrecadação de roupas para reciclagem, e pouquíssimas são as lojas que dispõem de caixas de coleta para peças destinadas à reciclagem. De acordo com o artigo da Vogue, Maria McManus compreende isso, e sabe que o principal apelo das suas criações é resultar numa coleção cheia de peças essenciais e duráveis que nós costumamos querer no nosso dia a dia: roupas fáceis, clássicas e confortáveis, com um toque de atitude e um bônus de comprometimento com o planeta. Para além dos materiais, a atenção aos detalhes e ao caimento faz a diferença na coleção de McManus, que também oferece peças vintage, escolhidas a partir de uma curadoria cuidadosa para fazer parte do styling. Tudo isso complementa a visão de Maria McManus de criar itens que poderão ser usados por muitos e muitos anos, com muita transparência e honestidade no seu processo criativo e produtivo.

É claro que o lançamento de McManus não é para todos os bolsos – os preços podem girar em torno de USD400 e USD800 -, mas é certamente um bom exemplo do comprometimento com uma moda verdadeiramente mais sustentável. Pra mim, já está mais do que provado que nada se cria, tudo se copia, e é por isso que eu sou otimista em pensar que esse tipo de prática poderá ser cada vez mais disseminada entre marcas mais populares – no Brasil e no mundo.

Eu realmente acredito que os consumidores desempenham papel importantíssimo para que as marcas de moda se preocupem cada vez mais com o desenvolvimento responsável e sustentável das suas coleções, e é por isso que eu gosto tanto de trazer estes temas pra cá. Quanto mais a gente reflete sobre a origem das nossas peças, sobre o impacto ambiental causado pelo que a gente veste, e sobre as escolhas que a gente faz ao consumir, mais o debate se populariza, e são maiores as chances de consumirmos conscientemente e de cobrarmos práticas sustentáveis de quem produz.

Como a matemática do custo por uso pode te ajudar a comprar menos e melhor

Eu lembro bem da primeira vez que comecei a pensar na lógica do custo por uso na minha vida: foi em 2009, quando eu era guia pra Orlando. Consequentemente, visitava outlets e shoppings a cada 6 meses numa época em que a cotação dólar x real permitia fazer várias comprinhas por temporada. Na época, nem se pensava em ter Forever 21 no Brasil, e a ideia de comprar várias brusinhas por preços baixíssimos (estamos falando de no máximo US$5 numa época em que a cotação do dólar turismo ficava entre R$1,70 e R$2,40) era muito atrativa para uma pessoa de 19 anos que estava na faculdade (da graduação ao mestrado) e queria fazer render ao máximo o dinheirinho que ganhava. Até então, eu achava que fazer render o meu dinheirinho era comprar muitas peças de roupas diferentes.

Eis que em 2009 eu comprei muito mais do que brusinhas na Forever 21 (tô usando Forever 21 como exemplo principal porque era a mais baratinha de todas, mas isso valia também pra H&M e até Abercrombie/Hollister, que bombavam na minha época de jovem): em seguida do meu grupo de julho, eu viria para a Suíça(!) pela primeira vez, participar de uma semana de simulações dos comitês da Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Genebra. Com isso, eu olhei a forevinha de outro jeito, comprando brusinhas sim porém tentando também fazer alguns achados que eu pudesse aproveitar nos looks formais nessa semana que eu passaria na ONU. Só que aí a American Airlines não colocou as malas do nosso grupo no nosso voo (sério, t-o-d-o-s chegamos no Brasil sem a bagagem que tínhamos despachado), e eu fiquei de mãos abanando, já que meu voo pra Genebra era, literalmente, no dia seguinte, e as malas não chegariam a tempo.

Ou seja: eu tinha enchido UMA MALA INTEIRA de coisas da forevinha que simplesmente não chegaram em tempo de cumprir o seu propósito principal, e ainda tive que sair correndo pra comprar roupas pra viajar no dia seguinte – sem contar que tive que comprar mala também. Sem contar que eu coloquei os cabos e fonte da minha câmera digital novinha na mala despachada e tive que viajar pra zoropa com uma câmera mais velha. Desde então, eu nunca na minha vida mais despachei nem um único cabo/fonte.

Corta pra quando eu cheguei de volta em Niterói depois de 2 semanas entre Genebra e Paris (essa foi a minha primeira viagem pra Europa e eu literalmente implorei pra minha mãe pra eu passar uns dias em Paris, mesmo sozinha, mesmo pegando dia dos pais e aniversário da Mivó, e ela deixou). Abri as malas que vieram de Orlando, e aquele monte de roupa que eu comprei na forevinha simplesmente não fazia sentido pra mim. Eu lembro que, enquanto eu fazia essas compras, desde antes de virar guia, eu me convencia de que valia a pena porque eu chegaria no Brasil com um armário completo pra nova estação e não precisaria comprar mais n-a-d-a nas lojas brasileiras (pense em Farm, Dress To, Cantão, Maria Filó, Animale, etc). Veja bem, era um bom argumento, bastante convincente. Só que aí era só sair coleção nova que eu já tava lá, conferindo as novas estampas, as novidadinhas, gastando minha mesada/bolsa de estudos todinha naquelas roupas que também acabariam vivendo por pouco tempo no meu armário – afinal de contas, pra tudo que entrava, alguma coisa tinha que sair.

Foi justamente nesse período que o conceito de custo por uso começou a ser formulado. Ao ver as notas de compras na forevinha, que eu sempre guardava, eu notei que a soma de todas aquelas brusinhas dava pra comprar uma bolsa de luxo. Imagina a ficha caindo?! Eu fiquei pasma: quase não acreditava que tinha gasto o equivalente a uma bolsa da Louis Vuitton (que, na época, ainda era objeto de cobiça) em brusinha/óculos escuros de qualidade questionável.

Seria injusto eu dizer que nunca fiz uma compra verdadeiramente boa na Forever 21 (ou equivalente): algumas peças tinham qualidade bastante razoável, tendo durado alguns anos no meu guarda-roupa, e cheguei até a ir a mais de um casamento vestida com lookinhos forevinha que custaram uma bagatela e faziam bonito. Essas peças realmente tiveram um custo por uso MUITO baixo, mas são itens que eu conto nos dedos da mão. Em geral, tudo isso que eu comprava a cada 6 meses nos EUA, tinha um tempo de vida útil muito curto no meu armário, sendo doadas muito rapidamente.

Isso era um tipo de consumo insustentável. E foi aí que eu entendi que, se eu comprasse coisas muito baratas que não usava nunca, o custo por uso foi altíssimo. Mas se eu comprasse uma coisa cara que eu usasse por muitos anos (preferencialmente, a vida inteira), o custo por uso seria baixíssimo. Por exemplo: se eu usasse 2 vezes uma brusinha de US$5 antes de doá-la, o custo por uso dela seria de US$2,50; por sua vez, se eu usasse cinquenta vezes uma blusa de US$50, o custo por uso dessa peça seria US$1.

No momento em que essa ficha caiu, eu me decidi que, na temporada de janeiro de 2010, a prioridade do meu orçamento de viagem seria comprar uma Speedy 30 da Louis Vuitton: eu era alucinada por esse modelo por vê-la nas mãos da Audrey Hepburn, que era uma referência de estilo muito grande pra mim na época (e ainda é, na verdade). Com o dinheiro que sobrasse, eu estaria livre pra comprar quaisquer outras coisas que quisesse (bota aí que boa parte do meu orçamento sempre ia nas coisas de parque, porque eu sempre fui assim).

toda faceira usando a Speedy pela primeira vez em Downtown Disney (hoje Disney Springs)

Eu gosto de pensar no custo por uso como uma versão do custo-benefício, principalmente considerando compras de luxo. Nesse caso, o custo por uso é bastante objetivo: se eu compro uma bolsa de US$1000 e uso 100 vezes, o custo por uso foi US$10; mas se eu compro uma bolsa de US$50 e uso duas vezes, o custo por uso foi de US$25. Ou seja: a bolsa de US$1000 tem um custo por uso menor do que a bolsa de US$50, e consequentemente corresponde a um uso melhor do meu dinheiro.

Sempre que eu fico com vontade de comprar alguma besteira, eu penso que aquela quantia poderia ser investida numa coisa mais duradoura e reflito MUITO sobre cada compra. Isso não significa que eu não compre mais nenhuma besteirinha, que eu não compre nenhuma coisinha baratinha; no entanto, significa que a minha reflexão sobre todas as minhas compras diminui o meu ritmo de consumo, me fazendo me perguntar o porquê de cada compra, e por vezes me fazendo desistir das besteirinhas em prol de uma coisa mais cara que tem mais potencial de uso e durabilidade na minha vida.

Desde a Speedy 30, todas as vezes que fui pra Orlando como guia eu aproveitei pra “investir na bolsa”; alguns investimentos foram melhores do que outros, e algumas bolsas eu acabei vendendo porque não eram usadas como deveriam (aumentando o custo por uso e ocupando espaço precioso no meu armário). Mas essa matemática que eu aprendi há mais de 10 anos atrás continua guiando as minhas compras até hoje, e eu procuro ensiná-la aos meus clientes da consultoria de imagem e estilo.

Consumo e Coronavírus: o que podemos esperar?

Em tempos tão difíceis e tão incertos, prever qualquer coisa fica difícil. No entanto, eu sempre gostei de construir cenários, então resolvi tentar imaginar como serão os padrões de consumo na moda depois dessa pandemia.

Há muitos prognósticos de que a crise do coronavírus vai impulsionar os consumidores de moda a repensarem seus valores e redirecionar seus gastos, evitando fast fashion e o luxo exacerbado das grandes marcas, priorizando a sustentabilidade e uma certa sobriedade. Alguns argumentam que os padrões de consumo atuais, principalmente no que diz respeito ao consumo fast fashion, são muito recentes e já vinham sendo repensados por uma grande parcela dos consumidores, que já cobravam das grandes redes um posicionamento mais sustentável e já desaceleravam o seu consumo. De acordo com estes prognósticos, vamos consumir menos e de maneira mais responsável.

No entanto, isso pode não ser uma verdade absoluta. De fato, em tempos de crise os consumidores re-priorizam suas necessidades. ⁠Mas também é verdade que, uma vez que uma crise passa, os consumidores de modo geral retomam seus antigos padrões de consumo.

O consumo de moda é altamente direcionado pela necessidade fundamental de símbolos de projeção social, que afirmam aspectos da personalidade, e os gigantes da indústria da moda se tornaram, com o passar dos anos, incrivelmente hábeis em atender a essas necessidades. De modo geral, as pessoas consomem a moda como uma distração quando se sentem bem, e uma terapia quando se sentem mal. Esse padrão de comportamento tem sido mantido por décadas, e talvez não modifique após a pandemia.

É claro que diferentes contextos econômicos e sociais determinam padrões de comportamento e diferentes cenários surgem. A diminuição do consumo em tempos de crise conduz as marcas de moda a um esforço para continuar mantendo um certo fluxo de vendas ao propor promoções diárias em suas lojas online. Muitos negócios estão adotando grandes descontos para evitar que seus inventários fiquem sobrecarregados de mercadorias. Segundo alguns analistas, é apenas uma questão de tempo até que as vendas alcancem os profundos níveis de períodos de recessão. Entretanto, dar desconto por desconto pode não ser o suficiente para engajar os consumidores: as marcas de moda devem adotar uma abordagem criativa e disciplinada para ajudar a vender seu inventário sem destruir o perfil da marca.

Alguns especialistas recomendam às marcas de luxo que elas “adormeçam” neste ano, restringindo a manufatura e cortando custos sem demitir seus empregados ou fechar lojas, como uma forma de não acumular mais mercadoria que forçosamente receberia preços promocionais uma vez que as lojas reabram. A Chanel, por exemplo, anunciou que parou toda a sua produção (espalhada entre França, Itália e Suíça) neste período.

A recente recessão de 2008 conduziu a um minimalismo generalizado, traduzido nas marcas de luxo pela abordagem prática de Phoebe Philo na Céline e a riqueza furtiva das bolsas sem logo da Bottega Veneta, por exemplo. Desde que os EUA se tornaram o epicentro da pandemia do coronavírus, pode-se confirmar uma nova transição na moda. A mudança já estava no ar: até mesmo a Gucci já estava simplificando seu estilo barroco nas coleções recentes. Depois de uma década, não é uma coincidência que as tendências estejam seguindo caminhos parecidos. Em tempos de incerteza, os consumidores priorizam roupas profissionais e são mais reflexivos sobre suas compras. Porém, desde as tendências ao consumismo, muita coisa mudou desde a última vez que a indústria da moda viu uma mudança tão dramática.

Por sua vez, muita gente ainda está consumindo – principalmente os millennials que desfrutam de segurança salarial. Jovens consumidores já são mais propensos a fazer compras online e, como estão passando mais tempo online por conta do home office, consequentemente passam mais tempo mexendo nas mídias sociais, o que influencia o consumo. Os efeitos psicológicos da pandemia no comportamento dos consumidores é multi-facetado: enquanto o auto-isolamento e a tristeza podem conduzir alguns consumidores que normalmente já destinam parte da sua renda para retail therapy (terapia de compras), outros evitam. Outros, por estarem presos em casa sem ter onde vestir suas novas compras, simplesmente não enxergam razão para comprar. Alguns outros ficam eticamente conflitados, uma vez que entregas em casa requerem que as pessoas que trabalham nos centros de distribuição e nas entregas saiam de casa num momento em que sabemos que o isolamento social (ou seja, ficar em casa) é a melhor maneira de conter a disseminação do vírus. No entanto, outros se sentem numa obrigação moral de gastar para manter a economia girando da maneira que dá.

Como eu falei lá em cima, é muito difícil prever qualquer coisa em tempos de tanta incerteza, principalmente depois da notícia recente de que a Hermès bateu recorde de vendas na reabertura da sua loja em Guangzhou, o que indica uma forte recuperação do consumo de luxo no país pós-coronavírus. O recorde de vendas da Hermès na China (US$2,7 milhões em um único dia) é uma ótima notícia também para outras marcas, principalmente para as luxuosas maisons que encontram nos chineses os seus mais ávidos consumidores. Entretanto, antes de antecipar um revenge buying generalizado pelo mundo, há que se considerar, além de questões culturais, o crescimento econômico ininterrupto da China nos últimos anos, o que coloca o país em um contexto muito diferente de outras nações: o quadro pode ser bem diferente em países que já vinham de um cenário de crise e desvalorização da moeda, e as marcas que não são internacionalizadas podem sofrer – e muito – depois da pandemia.

Black Friday e o seu armário

Promoção: quem não gosta? Tão bom pagar menos do que o preço regular indicado nas etiquetas, não é? No início do ano, fiz um post com 10 dicas para fazer compras inteligentes nas liquidações, e hoje quero conversar um pouquinho sobre nossos armários e a black friday. Afinal de contas, o que vale mesmo a pena?

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Bem, como tudo na vida, cada um sabe bem onde o seu calo aperta, quais as suas necessidades e quais os seus limites. Particularmente, desde que eu comecei a olhar pro meu armário com mais cuidado e a enxergar mais potencial em cada peça que eu tenho, eu não tenho tido impulsos loucos de comprar coisas que eu realmente não necessito. Nós somos bombardeados o tempo inteiro com propagandas que criam em nós falsas necessidades e, quanto mais conectados ficarmos com nossos armários, quanto mais cientes estivermos das cores e formas que nos favorecem (ou que mais gostamos), essas falsas necessidades terão menos efeito sobre nós.

Aproveitar a Black Friday (ou qualquer promoção verdadeiramente boa) pra comprar uma coisa que se ama e que se tem certeza de que vai usar muito é um super negócio.  Naturalmente, temos que ficar atentos às promoções fajutas, do tipo “pague a metade do dobro”. Ano passado, por exemplo, eu estava em Londres na Black Friday, e consegui comprar uma bota da UGG que já estava na minha wishlist com 40% de desconto. Como eu sinto muito frio nos pés, e atualmente moro num lugar onde o inverno é rigoroso, pra mim fez todo sentido essa compra, e eu economizei boas libras por conta do desconto.

O melhor a se fazer, nesta época e também antes de qualquer compra, é avaliar o seu acervo de peças, notar se falta alguma coisa que vá realmente fazer diferença quando você for vestir-se, e fazer a conta do custo x benefício. Por exemplo:

  • peças de fibra natural, que geralmente custam mais;
  • peças básicas e/ou curingas (atenção: curingas pra você, e não que os outros dizem ser) que ajudem a multiplicar os usos das peças que você já tem;
  • roupas para ocasiões especiais, e aí entra de novo a necessidade de relativizar o que é ocasião especial para você: pode ser festa, pode ser ir à praia, pode ser até um tailleur caso seu guarda-roupa de trabalho seja mais informal;
  • acessórios, que ajudam a compor e até mesmo modificar os looks;
  • sapatos confortáveis e de boa qualidade;
  • peças de marcas que admiramos e que nem sempre entram no orçamento, mas que tem tudo a ver com o nosso estilo.

Também é uma boa aproveitar esse tipo de promoção pra repor ou renovar o enxoval – afinal, lençóis e roupas de banho costumam ficar no armário também, né? Muitas lojas especializadas em artigos para a casa também reduzem significativamente o preços quando é época de promoção, então vale a pena ficar de olho e, depois de avaliar o que já se tem, buscar nos preços mais baixos boas opções para suprir as necessidades.

Não custa lembrar da importância de estar sempre ciente sobre as políticas de troca de cada loja, principalmente em períodos de promoção, antes de fechar a compra. Afinal de contas, não há compra pior do que aquela da qual a gente se arrepende e ainda fica privado da possibilidade de troca ou devolução.

O consumo consciente é resultado da nossa calma e clareza para avaliar se as nossas escolhas estão sendo guiadas por necessidades reais, ou se estamos deixando nos levar pela excitação generalizada!

O nosso armário tem que atender às necessidades do nosso dia a dia

Roupas bonitas não necessariamente significam que são as roupas certas para a nossa vida. Ter uma identidade visual segura e consistente não significa usar a mesma coisa todos os dias, como se fosse um uniforme, mas também não significa ter as roupas mais fantásticas do mundo que não saem de dentro do armário. Um armário bom tem que combinar com a vida que a gente leva!

@chapolinsincero

Um bom armário tem um monte de peças lindas, que a gente ama usar, e que combinam de verdade com a vida que a gente leva. Se o seu armário é cheio de peças incríveis, mas vestir-se toda manhã é um martírio, o diagnóstico pra isso é um só: tem muita gente que compra roupas pra vida que gostaria de viver, e não pra vida que vive! Quando este é o caso, acabamos usando sempre as mesmas 5 ou 10 peças que realmente se adequam à vida que vivemos e, quanto mais compramos, menos opções temos.

Vivi uma época assim, de armário abarrotado de peças lindas que ficavam apenas lá, desperdiçando espaço e dinheiro. Muitas roupas foram doadas ou vendidas ainda com etiqueta, porque elas simplesmente não se encaixavam no meu estilo de vida! É por isso que uma edição de armário é tão importante: é muito mais fácil um consultor de estilo enxergar que essas roupas não terão oportunidades reais de sair de casa, porque não temos o envolvimento emocional! Do mesmo modo, o consultor de estilo orienta as suas compras para o que realmente será funcional, ao invés de continuarmos insistindo em comprar o que não cabe no nosso estilo de vida.

Se você é uma mulher com uma carreira que toma conta de grande parte da sua vida, não adianta só comprar peças confortáveis de usar no final de semana. Se você é uma mulher que mal sai à noite, não adianta lotar o armário com peças de noitada. Se você trabalha em home office, não vale a pena encher o armário de roupas formais. Ou ainda: se você é uma mulher que não gosta muito das próprias coxas, não adianta ter só saias, vestidos e shorts curtos. Se você é um homem que trabalha de terno e não suporta usar camisa social aos finais de semana, não adianta ter o armário cheio de opções assim. É um pouco daquela conversa que já tivemos sobre o armário cápsula, já que é preciso avaliar cada atividade da nossa rotina pra que o nosso armário atenda às necessidades do dia a dia e facilite o nosso vestir.

Mais uma vez, nós precisamos fazer um exercício de autoconhecimento. Pra construir um armário que funcione de verdade pra gente, é bom começar fazendo as seguintes perguntas:

  • qual é a vida que eu levo?
  • qual é o “código de vestir” do meu trabalho?
  • quais são as minhas atividades aos finais de semana?
  • eu sinto mais frio ou calor?
  • onde eu moro, as estações do ano são bem definidas?
  • eu sou mais do dia ou da noite?

Tudo isso não significa que uma pessoa que é workaholic precise ter somente roupas cinzas e pretas e chatas, ou que quem passa seus finais de semana cercado de crianças não possa ter um pouco de glamour nas suas roupas casuais, ou quem adora uma noitada só vai ter sapatos de saltos altíssimos. O importante é, como sempre, encontrar o equilíbrio pra não desperdiçar e nem acumular o que não tem necessidade!

Esses são alguns exemplos de uma linha de raciocínio pra fazer com que a gente reflita e analise o nosso estilo de vida junto com a nossa personalidade e o nosso gosto pessoal. Desse modo, será mais fácil montar um armário inteligente, que funcione de verdade pro nosso dia a dia, sem deixar de lado o que faz o coração bater mais forte e o olho brilhar, mantendo o foco na função e na versatilidade!

Pra fazer boas compras em brechós

Há algum tempo atrás, fazer compras em brechó só era cool se fosse na Europa. Graças a Deus, observo que essa mentalidade está mudando e tem cada vez mais gente comprando em brechós brasileiros, e que os brechós brasileiros tem oferecido cada vez mais peças muito boas para o consumidor!

preloved is the new love

Uma das coisas importantes da consultoria de estilo é trabalhar o consumo consciente, evitando compras impensadas e armário entulhado, facilitando o processo de vestir-se e exercitando o raciocínio e a criatividade. E falar em consumo consciente é também falar de ética e sustentabilidade: é consumir menos, gerar menos lixo pro mundo, e pensar pra quem estamos dando o nosso dinheiro.

Quando a gente se dispõe a visitar brechós na busca de peças para incrementar nossos armários, as vantagens não são só individuais, mas impactam também pro bem do mundo todo. As araras lotadas dos brechós podem desanimar um pouco na hora das compras, mas permitir-se um tempo pra fuçar esses espaços pode ser uma verdadeira caça ao tesouro, encontrando peças únicas e absolutamente incríveis!

Nos brechós, é impressionante a quantidade de roupas boas que são descartadas pelas pessoas: muito mais do que coisas velhas e puídas, as araras dos brechós costumam ser abastecidas com peças das marcas que a gente deseja, e que usam bons materiais, com bons acabamentos e caimentos muito melhores do que a média. Bons brechós selecionam as suas peças a partir de critérios como boa conservação e manutenção, boa aparência e pouco uso, o que resulta num uso esperto do nosso dinheiro. Afinal, mesmo quando foram muito pouco usadas, as peças de marcas boas, e que tem ótima qualidade, são vendidas nos brechós por um preço muuuuuito mas muuuuuuiito menor do que o praticado nas lojas convencionais.

Se as araras dos brechós estão sempre lotadas, isso se deve muito à velocidade insana da produção da indústria, dos preços baixíssimos praticados às custas da precariedade de materiais e da falta de dignidade dos trabalhadores, das propagandas que incentivam as pessoas a comprarem muito e com muita frequência, e a falta de difusão de conhecimento relacionado à responsabilidade que temos que ter ao descartar roupas (e qualquer outra coisa). Quando a gente se compromete a não consumir o que não faz diferença na nossa vida, a gente pára de produzir desperdício e não contribui mais com esse esquema consumista. Pra consumir de modo consciente, é importante parar de levar mais do mesmo e deixar o nosso armário com mais variedade, mais possibilidades de coordenação, mais versatilidade e mais praticidade.

Os brechós também nos ajudam a aperfeiçoar as nossas escolhas, treinando o nosso olhar e dando espaço pra novas ideias surgirem, exercendo a nossa criatividade e verdadeiramente colocando pra fora a nossa identidade na hora de se vestir. Quando uma marca lança uma coleção, ela é pensada para facilitar as coordenações, e a gente acaba se sujeitando àquelas fórmulas prontas que os estilistas propõem. No brechó, a gente acaba sendo o estilista de nós mesmos: pensamos em combinações inusitadas, expandimos as possibilidades e ultrapassamos o limite da zona de conforto ao procurar o que faz sentido pra nossa vida e o que vai, de fato, adicionar ao nosso armário algo de positivo.

Na hora de fazer compras, o planejamento é sempre importante, e a caça aos tesouros nos brechós também requer um planejamento, que deve ser ajustado pra esse tipo de loja. Além de verificar o armário pra ver o que tá faltando e fazer uma lista (tão específica quanto possível) do que precisa ser adquirido, vale a pena saber se há um dia específico em que as araras são abastecidas e programar a visita na sequência desse abastecimento, saindo de casa com uma roupa simples e descomplicada que não vai te desestimular caso os provadores sejam precários.

É importante sempre fiscalizar a conservação da peça (pra não comprar nada furado/rasgado/puído), e, mais do que nunca, ficar de olho nas etiquetas internas das peças, já que os bons tecidos vão durar muito mais, e o preço precisa ser condizente. Etiquetas internas devem estar bem nítidas, principalmente no caso de peças delicadas, que é pra gente saber direitinho todas as instruções de lavagem e cuidado. Se for uma peça bordada e/ou com aplicações, a fiscalização tem que ser ainda mais cuidadosa. Também é bom pensar fora da caixa e prestar atenção no potencial das peças: muitas vezes, uma boa costureira pode transformar aquela roupa e dar maior versatilidade pro nosso vestir diário. Nesse caso, é importante pensar se o gasto total (valor da peça + ajuste) compensa.

Acho que já falei disso por aqui, mas não custa nada lembrar: quando estamos comprando, é fundamental só comprar peças que possam render looks com pelo menos outras 3 peças que já estão no closet. É essa matemática que faz o nosso armário render! Além disso, em qualquer compra é MUITO IMPORTANTE experimentar TUDO. Em qualquer loja, mas principalmente nos brechós, os números das etiquetas não são um guia definitivo pra sabermos o que veste bem, porque a numeração e a modelagem varia muito de marca pra marca, e roupa de segunda mão pode ter sido ajustada, encolhido na lavagem ou cedido com o uso… por isso é muito mais importante prestar atenção ao caimento do que ao número escrito na etiqueta. E jamais compre coisas que não vestiram super bem e que não despertam entusiasmo: a gente tem que amar tudo o que a gente compra, que a garantia de que a gente vai vestir logo e muito!

Ademais, é bom evitar roupas que tenham cheiro forte: os brechós costumam higienizar as peças antes da sua exposição e, se o cheiro não saiu, pode ser que nunca mais saia. É recomendável lavar/vaporizar/higienizar as compras feitas no brechó mais uma vez antes de usar. E, se o seu estilo não combina com o que é vintage, dá pra achar muita coisa atemporal nos brechós: quanto menos cara de tendência datada a roupa tiver, maiores as chances de render bons looks com o que a gente já tem no armário.

Eu adoro o termo “preloved”, usado em inglês para definir o mercado de segunda mão e que, em tradução livre, seria algo como “previamente amado”. Quando colocamos no nosso armário algo que já foi previamente amado, a gente não só ganha um novo amor, mas também prolonga a vida de todas as histórias que aquela peça já viveu.

A importância da etiqueta de composição

Sabe aquela etiqueta interna que vem em todas as suas peças de roupa, e que também está presente nas bolsas e nos lençóis que a gente compra? Sim, aquela etiqueta que pode “pinicar” ou “fazer cosquinha” e que muita gente ignora solenemente, ou até mesmo acaba cortando fora? E se eu te falar que a etiqueta de composição é da maior importância?

A etiqueta interna de cada peça é um verdadeiro manual de instruções: nela, você vê escrita desde a composição do tecido até quais os cuidados que você terá que ter com aquele item. Quem corta essa etiqueta fora, ou simplesmente ignora estas informações, possivelmente está diminuindo a vida útil daquela peça!! Isso sem contar a relação custo x benefício que você já pode calcular quando estiver dentro da loja!

Você não precisa se tornar um especialista em tecidos e na composição de cada material, mas é bom ter uma noção do que é fibra natural e do que é fibra sintética. Assim, você terá mais uma ferramenta para consumir de maneira mais inteligente, compreendendo o que é melhor pra cada ocasião e estação, e no que vale a pena gastar mais ou menos dinheiro. Eu não levo uma única de peça de roupa pro provador de uma loja sem antes olhar, ali na arara mesmo, o que tá escrito na etiqueta de composição! Em alguns casos, eu olho a etiqueta de composição antes mesmo de ver o preço!

As fibras naturais são encontradas prontas na natureza: é o caso do algodão, do linho, da seda, do couro e da lã. As fibras artificiais são produzidas quimicamente a partir de matérias-primas naturais, geralmente a partir da celulose: a viscose, o cupro, o tencel/liocel, o rayon e o acetato fazem parte deste grupo. Por sua vez, as fibras sintéticas são produzidas a partir de matérias-primas não-naturais, principalmente petróleo: poliéster, poliamida, acrílico, nylon e elastano são materiais sintéticos.

Quando estamos comprando uma peça de roupa ou um sapato/bolsa, geralmente os reconhecemos por outros nomes: peças de seda, malhas, crepes, microfibras, tafetás, tricôs podem ser feitos a partir de fibras naturais, artificiais ou sintéticas. E é na etiqueta interna que está a descrição certinha dos fios que compõem aquele tecido, com direito à porcentagem de cada uma destas fibras, e poderemos avaliar melhor se o preço cobrado corresponde mesmo ao material usado.

As peças feitas a partir de fibras naturais tem geralmente um toque mais agradável à nossa pele e são mais gostosas de vestir, além de terem um caimento melhor. Os tecidos naturais acabam conferindo à peça uma aparência mais refinada e clássica. Embora o algodão, o linho, a seda e a lã sejam fáceis de amassar, desamassam com o próprio uso, o que acaba garantindo um look impecável por mais tempo. O look impecável também se garante porque as fibras naturais são sempre mais fresquinhas e, no calor, esquentam menos do que as peças sintéticas. As fibras naturais são mais resistentes, o que garante uma maior durabilidade das peças, desde que sejam cuidadas com o carinho que merecem (e todas as informações necessárias pra fazer sua peça durar bastante tempo tão linda quanto no momento em que ela saiu da loja estão ali, na etiqueta de composição!).

Já as fibras sintéticas tem um toque mais áspero, mesmo quando maleáveis: o teste infalível é comparar seda sintética com seda natural, e dá pra notar a diferença imediatamente. Estes materiais não-naturais costumam ter um brilho extra (que vem do plástico usado para sua produção), o que dá um aspecto bem menos sofisticado. Toda regra tem sua exceção, e existem alguns materiais sintéticos muito tecnológicos que, dependendo do design, ficam muito elegantes. Para o frio, as fibras sintéticas são muito úteis, já que aquecem mais sem precisar de muito volume (a menos que você more num lugar onde faz -20ºC, ou menos, e aí eu acho que será inevitável usar muitas e muitas camadas de roupa). As fibras sintéticas criam bolinhas com mais facilidade, e precisam de cuidado e atenção extra na hora de lavar e passar, já que um ferro super quente pode deixar marcas na sua peça, ou até mesmo derreter e queimar.

E o preço? Acho que, a partir destas informações, podemos concordar que o valor cobrado é justificado na proporção de material natural que foi usado para confeccionar aquela peça. O preço tem que ser compatível com o material e com o design da peça. Afinal, as fibras que são encontradas diretamente na natureza são recursos naturais, com processos de obtenção e desenvolvimento mais específicos. Um exemplo prático: uma t-shirt 100% algodão que custe R$100 tem um custo x benefício muito melhor do que uma t-shirt de poliéster ou viscose que custe R$20. Quando vamos comprar uma peça de fibra não-natural, temos que avaliar se o valor é justo considerando o design, o caimento e a função (de novo, é difícil sobreviver ao inverno sem fibras sintéticas). Além disso, um tecido natural requer menos processos industrializados, demandando menos do meio-ambiente, o que é mais um motivo pelo qual as fibras naturais acabam sendo uma opção mais sustentável.

Bons socialistas podem usar peças caras

Outro dia eu estava lendo a GQ e me deparei com uma matéria muito interessante, e que me despertou vontade de discutir aqui.

Desde que eu me lembre, eu sou de esquerda e me defino como socialista. Na faculdade, os debates eram sempre quentes, porque eu costumava estar muito mais à esquerda nas minhas opiniões do que todos os colegas. E, por mim, tudo bem, porque eu acho que é assim que a gente cresce e aprende. Do mesmo jeito, eu sempre gostei de comprar boas peças de roupa e, principalmente, boas bolsas que terão vida longa no meu armário, o que significa, na maior parte do tempo, um investimento mais alto de dinheiro em uma única peça. Pra completar, eu sou Católica com cada fibra do meu ser, e defendo veementemente que Jesus Cristo foi o maior socialista que já existiu. Numa primeira e superficial avaliação, isso tudo pode parecer contraditório, e já sofri grandes condenações por conta desse meu jeitinho.

Esse post tem por objetivo explicar que gastar mais dinheiro em uma única coisa não me torna menos socialista do que quem usa roupas baratas. Na verdade, quem usa roupas baratas pode ser ainda menos socialista e ter um comportamento muito mais contraditório do que o meu porque, quanto mais baratas são as roupas, maior a probabilidade de que elas tenham sido confeccionadas a partir de uma mão de obra mal remunerada, explorada em fábricas espalhadas pelo mundo todo. De modo bastante simplificado, o socialismo nada mais é do que o controle democrático dos meios de produção, com a distribuição igualitária de renda para o proletariado.

Quem condena sumariamente o consumo de artigos mais caros pode ser culpado de saber o preço de tudo e o valor de nada. Explico: muitas marcas vendem excelentes produtos por um preço muito baixo, e deviam ser louvadas por fazê-lo, mas, na sua grande maioria, as peças mais baratas nas lojas são o resultado de enormes custos alheios ao consumidor final e, principalmente, ao dono da loja, que lucra – e muito – com cada venda. Na indústria têxtil, são inúmeras as denúncias de trabalho escravo, principalmente na China e na Índia, mas também no Brasil. Pra vender uma peça por um preço muito baixo, há que se questionar as duvidosas condições de trabalho no processo produtivo. Comprar em grandes lojas de fast fashion como Zara, Forever 21, H&M, C&A, Mango, entre tantas outras, significa financiar a desigualdade social no mundo: quanto mais um único ser humano acumula, menos as outras mais de 7 bilhões de pessoas terão para dividir.

A indústria de roupas de massa é uma das que mais polui no planeta, desde os pesticidas usados nos campos de algodão até os processos de lavagem e tingimento usados para criar um par de calças jeans. E, mesmo se o algodão é orgânico, o seu cultivo requer uma quantidade imensa de água: os têxteis usados para produzir uma t-shirt e um par de jeans podem consumir mais de 5 mil galões de água no seu processo produtivo, por exemplo. Para piorar, a tendência da moda rápida (ou fast fashion) significa que, hoje, os consumidores usam suas peças apenas metade do tempo em relação aos hábitos de 15 anos atrás – isso quando não usam só por um período minúsculo (geralmente, de 1 semana a 3 meses) em que “está na moda”, tornando-as peças descartáveis. Ademais, as roupas em si mesmas são fabricadas, em sua maioria, a partir de uma mistura de materiais, o que as torna produtos extremamente difíceis e custosos de se reciclar (poliéster, I’m talking to you). Fabricar roupas exige grande dispêndio de recursos ambientais: gasta-se dinheiro, água, luz, produtos químicos para tingir tecidos, mão de obra para produzir, transporte, armazenamento e venda, e dispor de todos esses recursos com roupa que é pouco usada ou descartada rapidamente é vergonhoso.

Por outro lado, peças que apresentam preços mais altos, inclusive os itens de luxo, são feitas à mão por artesões que receberão salário condizente com o que produzem, usando das habilidades que desenvolveram ao longo de muitos anos. Em uma fábrica italiana de ternos, por exemplo, nota-se claramente que as peças são feitas por verdadeiros e cuidadosos artistas. Gastar mil euros em uma única bolsa francesa ou em uma jaqueta italiana corresponde a um investimento nas pessoas que participaram do processo produtivo e na economia; investe-se na hereditariedade, no treinamento e, muitas vezes, em negócios pequenos, que começaram a partir do sonho de uma única pessoa, ou de uma família, que investiu tempo, dinheiro e habilidade para produzir uma peça de qualidade única e incomparável. O preço de uma peça assim não é um valor arbitrário, ou escolhido aleatoriamente, mas para representar o custo dos materiais, da mão de obra e da sua chegada ao mercado. É claro que nem todo mundo pode gastar altas quantias em uma única peça, mas uma jaqueta que custa, por exemplo, mil libras, não é imoral, ou torna condenável o indivíduo que faz uma compra desse tipo.

Quanto à reciclagem e aos impactos ambientais, a lã de um terno, por exemplo, é totalmente biodegradável, o que não se pode dizer sobre os ternos mais baratos, fabricados com materiais sintéticos e que servem, apenas, para enriquecer o grande empreendedor. Uma bolsa de couro feita à mão poderá ser usada por diversas gerações sem perder sua beleza ou qualidade, enquanto uma peça de poliuretano estragará com mais facilidade e alimenta fungos que poluem o meio ambiente. De que adianta comprar vários ternos de poliéster quando poderia gastar a mesma quantia em um único terno de lã de alta qualidade, corte impecável e grande durabilidade? De que adianta comprar 10 bolsas de poliuretano produzidas em massa e em condições duvidosas quando podia comprar, com a mesma quantidade de dinheiro, uma única bolsa de couro, feita à mão, com altíssima qualidade e durabilidade?

Consumo é diferente de consumismo. Consumo consciente também não significa simplesmente parar de comprar na Zara, na C&A ou em qualquer outra loja fast fashion. Consumo consciente significa deixar de comprar em excesso sem propósito ou necessidade, dentro do orçamento e, principalmente, atendendo às suas reais necessidades.

Meu orçamento do dia a dia só permite que eu compre roupas em fast fashion, e isso ficou ainda mais evidente depois que chegamos na Armênia, agravado pelo fato de que tenho um gosto e estilos muito bem definidos, o que revela dificuldade de encontrar peças que me agradam, mesmo nas grandes redes. Mesmo comprando em lojas desse tipo, eu não abro mão de escolher peças que tenham qualidade, que me convençam que terão durabilidade e versatilidade que justifiquem gastar o meu dinheiro com elas. Eu avalio as costuras e terminações, e prefiro peças fabricadas a partir de fibras naturais, como algodão, linho, lã, caxemira e seda, que costumam ter melhor caimento, toque mais agradável no corpo, duram mais e são mais fáceis de cuidar, além de serem mais elegantes. Ao mesmo tempo, noto que, principalmente no inverno rigoroso, é impossível fugir das fibras sintéticas: o poliéster se for escolhido com responsabilidade pelo fabricante, é muito durável e pode até ter altíssima qualidade, o que é bom para o consumidor e diminui os impactos ambientais por conta do seu tempo de uso, protegendo da neve, da chuva e do vento.

Aprendi que, além de saber do que é feito o tecido, é fundamental avaliar a funcionalidade, o caimento, a forma e a estrutura da peça; nas minhas compras, eu sempre busco o design mais atemporal e clássico, pois assim as chances de não enjoar da peça aumentam, e ela realmente terá vida longa na minha vida. Nessas horas, ajuda muito saber exatamente qual é o seu estilo pessoal e, principalmente, respeitar o tipo de vida que se leva.

Consumismo é comprar em excesso, comprar o que a gente não precisa de verdade: quem faz isso, sucumbe ao modelo de sociedade de consumo imposto pelo capitalismo. Não adianta, por exemplo, comprar um monte de roupas muito baratas e/ou de 2ª mão sob a desculpa do consumo consciente, porque isso per se não é consumo consciente, não. O que a gente não pode fazer, em hipótese alguma, é comprar o que não se ama, o que não vai ser usado, o que não desempenhará uma função clara na nossa vida, e, principalmente, comprar o que já se tem no armário. Qualquer coisa nessa vida que é comprada com base no argumento de que “está barato” é questionável e, eu diria, condenável. A sociedade capitalista em que vivemos nos induz o tempo todo a querer muitas coisas que a gente compra e não usa porque a grande verdade é que a gente não precisa de tanto. Eu passei a perceber isso com mais clareza principalmente depois que passei a priorizar a compra exclusiva do que tem muita qualidade e que não faz o coração bater forte só na loja.

Comprar uma coisa que a gente ama, que faz os olhos brilharem, que faz o coração bater forte todas as vezes que a gente usa e, acima de tudo, que nos traz alegria a cada uso é consumo consciente. A gente não precisa parar de comprar: o que a gente precisa é mudar a nossa lógica de consumo.

O que é mais importante para os socialistas: a distribuição igualitária de recursos ou a compra desenfreada de peças cuja produção é injusta, desumana e que prejudicam o meio ambiente?

Eu sei qual é a minha resposta pra essa pergunta.