Tecido plano X Malha

Já conversamos por aqui sobre a importância de ler a etiqueta de composição do que já temos no nosso armário, e do que estamos pensando em incorporar ao nosso guarda-roupas. Esse conhecimento é muito útil e definitivamente nos ajuda a fazer escolhas melhores na hora das compras, mas a experiência fica muito mais completa quando sabemos diferenciar tipos de tecidos para além das etiquetas de composição.

Se as etiquetas de composição contam uma história para nós (de onde a peça veio, com qual fibra foi feita, quais os cuidados devemos ter com ela), os tecidos contam uma história para o mundo – afinal, as pessoas não vêem o que está escrito na etiqueta interna das nossas peças, e sim a própria peça que vestimos.

Vamos começar por um conceito bem simples: todo tecido que não estica quando a gente puxa duas pontas em direções opostas é um tecido plano, enquanto um tecido que “deforma” e “cresce” quando esticado é malha. Tecidos planos e malhas podem ser feitos tanto de fibras naturais e não-naturais. Mas qual é a utilidade prática de saber diferenciar malhas de tecidos planos?

Bem, esses dois tipos de tecidos tem efeitos diferentes na nossa silhueta, e esses efeitos variam de acordo com as partes que cobrem, além de render sensações diferentes para quem os usa! Ademais, cada um tem uma função a desempenhar, e cada um desses tecidos se encaixa melhor em alguns ambientes e situações do que em outros.

As peças em malha são extremamente maleáveis e acompanham as formas de quem veste, podendo marcar mais quaisquer gordurinhas e volumes extras. Já as peças em tecido plano tem um caimento mais reto (mesmo quando são maleáveis, como a seda), e por isso criam formas mais lisas e estruturadas, que podem ser ideais para quem quer disfarças as próprias formas, “desarredondando” a silhueta.

Os tecidos planos quase sempre parecem mais sofisticados e formais, enquanto as malhas parecem ser sempre mais confortáveis e esportivas. Eventos elegantes, como festas e casamentos, e ambientes profissionais muito formais não são lugares adequados para se usar peças em malhas, ao passo que as peças feitas de tecido plano podem ir para qualquer lugar – e, de quebra, garantir um visual sempre mais sofisticado.

Mas não se assuste: a malha não é vilã nem inimiga do povo! Na verdade, são inúmeras as situações em que ela é o investimento mais certo. Por ser maleável e mais confortável, a malha é uma ótima companheira de viagem, uma vez que amassa menos e é mais fácil de “desamassar” do que tecidos planos. A malha também veste bem em momentos quando todo o resto do armário nos aperta, sendo especialmente boa para as grávidas, pra quem tá amamentando, pra quem se movimenta muito em função dos filhos e/ou animais de estimação, etc. A malha é também o tecido perfeito para o homewear. As peças de malha geralmente são (ou, pelo menos, deveriam ser) mais baratinhas.

Existem, também, algumas maneiras de deixar a malha mais refinada. As peças em malha podem ter modelagens mais interessantes, ou podem ser mais fininhas e ter uma leve transparência, ou podem ter cores mais neutras. Pode reparar que quase todas as marcas mais caras fazem camisetas em malhas finas, com cortes e recortes que as transformam em algo além de uma simples camiseta.

Já as peças em tecido plano, que em geral são bem mais elegantes e mais refinadas, podem também parecer mais modernas quando as modelagens são menos óbvias e/ou menos clássicas, tem mais cores e/ou estampas, e também mais texturas. As peças em tecido plano geralmente custam mais, mas também duram muito mais se adotarmos os cuidados indicados na etiqueta de composição.

Misturar peças de malha e tecido plano em um único look é uma outra maneira bastante interessante de refinar um pouco mais a malha e circular por diversos ambientes sem estar desarrumada ou arrumada demais. É o tipo de truque que pode, por exemplo, fazer render ainda mais uma mala inteligente!

Melania Trump e a mensagem que as nossas roupas transmitem

Não se falou em outra coisa nessa última sexta feira (ok, talvez o assunto tenha dividido um pouco os holofotes depois da vitória sofrida do Brasil) a não ser sobre o casaco que Melania Trump, Primeira Dama dos Estados Unidos, usou para visitar os abrigos onde estão as crianças imigrantes que foram separadas de seus pais enquanto tentavam cruzar a fronteira dos EUA. O famigerado casaco – uma peça de US$39 da Zara – traz, nas costas, a mensagem “I really don’t care. Do u?” (ou, em bom português, “Eu realmente não me importo. E você?”).

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Todas as roupas que nós usamos comunicam uma mensagem. Em menos de 3 segundos, a nossa imagem causa um impacto visual e, se não temos controle absoluto da mensagem que queremos transmitir com o que estamos vestindo, podemos ser percebidos da maneira errada. Isso vale para qualquer pessoa, pública ou anônima, em qualquer ambiente.

A assessora de comunicações da Sra. Trump, Stephanie Grisham, disse, em comunicado a imprensa, que era “apenas uma jaqueta” e que “não havia mensagem oculta.” De fato, a mensagem não estava oculta; estava ESTAMPADA e muito VISÍVEL para todo o mundo (literalmente). Se foi uma escolha deliberada ou não, fato é que foi um erro grotesco. Aliás, na minha humilde opinião, eu acho que o erro começa pela Primeira Dama dos EUA ter essa peça no armário dela – não pelo preço ou por ser de uma marca fast fashion, mas justamente pela mensagem que a peça comunica.

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A diretora de moda do New York Times, Vanessa Friedman, deu uma entrevista ao The Guardian dizendo que não tem dúvidas de que esse episódio não foi um acidente, e que Melania tomou a decisão de usar aquela jaqueta. Friedman ainda nota que é sabido que a Primeira Dama dos EUA compra suas próprias roupas, e dá a palavra final sobre seus looks, mesmo se forem selecionados por um stylist.

Toda a polêmica envolvida nos serve para refletir, mais uma vez, sobre a importância das decisões e escolhas que fazemos quando nos vestimos. Neste episódio infeliz, a frase “I really don’t care. Do u?” se tornou ainda mais inadequada pelo contexto político em que está inserida – mas, na verdade, não acho uma mensagem como essa adequada para ninguém porque nós sempre temos algo (ou alguém) com o que nos importar.

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arte de @justinteodoro

Melania Trump já foi muito criticada pelas suas escolhas de roupas, muitas vezes tidas como inacessíveis, o que tornaria a própria Primeira Dama dos EUA inacessível. No caso dela, em meio de um closet recheado de marcas de luxo, um toque de fast fashion pode fazer bem como estratégia de aproximação – e, certamente, não foi o que esse casaco fez.

Seja uma camisa da Balmain de US$1.380 ou uma jaqueta da Zara de US$39, devemos  sempre fazer uma escolha consciente do que entra no nosso armário e do que nos veste. Assim, poderemos nos expressar, de maneira autêntica, por meio das peças que escolhemos, assumindo o controle da nossa imagem e tendo a certeza de que o mundo nos enxergará do jeito que nós queremos ser vistos.

O nosso armário tem que atender às necessidades do nosso dia a dia

Roupas bonitas não necessariamente significam que são as roupas certas para a nossa vida. Ter uma identidade visual segura e consistente não significa usar a mesma coisa todos os dias, como se fosse um uniforme, mas também não significa ter as roupas mais fantásticas do mundo que não saem de dentro do armário. Um armário bom tem que combinar com a vida que a gente leva!

@chapolinsincero

Um bom armário tem um monte de peças lindas, que a gente ama usar, e que combinam de verdade com a vida que a gente leva. Se o seu armário é cheio de peças incríveis, mas vestir-se toda manhã é um martírio, o diagnóstico pra isso é um só: tem muita gente que compra roupas pra vida que gostaria de viver, e não pra vida que vive! Quando este é o caso, acabamos usando sempre as mesmas 5 ou 10 peças que realmente se adequam à vida que vivemos e, quanto mais compramos, menos opções temos.

Vivi uma época assim, de armário abarrotado de peças lindas que ficavam apenas lá, desperdiçando espaço e dinheiro. Muitas roupas foram doadas ou vendidas ainda com etiqueta, porque elas simplesmente não se encaixavam no meu estilo de vida! É por isso que uma edição de armário é tão importante: é muito mais fácil um consultor de estilo enxergar que essas roupas não terão oportunidades reais de sair de casa, porque não temos o envolvimento emocional! Do mesmo modo, o consultor de estilo orienta as suas compras para o que realmente será funcional, ao invés de continuarmos insistindo em comprar o que não cabe no nosso estilo de vida.

Se você é uma mulher com uma carreira que toma conta de grande parte da sua vida, não adianta só comprar peças confortáveis de usar no final de semana. Se você é uma mulher que mal sai à noite, não adianta lotar o armário com peças de noitada. Se você trabalha em home office, não vale a pena encher o armário de roupas formais. Ou ainda: se você é uma mulher que não gosta muito das próprias coxas, não adianta ter só saias, vestidos e shorts curtos. Se você é um homem que trabalha de terno e não suporta usar camisa social aos finais de semana, não adianta ter o armário cheio de opções assim. É um pouco daquela conversa que já tivemos sobre o armário cápsula, já que é preciso avaliar cada atividade da nossa rotina pra que o nosso armário atenda às necessidades do dia a dia e facilite o nosso vestir.

Mais uma vez, nós precisamos fazer um exercício de autoconhecimento. Pra construir um armário que funcione de verdade pra gente, é bom começar fazendo as seguintes perguntas:

  • qual é a vida que eu levo?
  • qual é o “código de vestir” do meu trabalho?
  • quais são as minhas atividades aos finais de semana?
  • eu sinto mais frio ou calor?
  • onde eu moro, as estações do ano são bem definidas?
  • eu sou mais do dia ou da noite?

Tudo isso não significa que uma pessoa que é workaholic precise ter somente roupas cinzas e pretas e chatas, ou que quem passa seus finais de semana cercado de crianças não possa ter um pouco de glamour nas suas roupas casuais, ou quem adora uma noitada só vai ter sapatos de saltos altíssimos. O importante é, como sempre, encontrar o equilíbrio pra não desperdiçar e nem acumular o que não tem necessidade!

Esses são alguns exemplos de uma linha de raciocínio pra fazer com que a gente reflita e analise o nosso estilo de vida junto com a nossa personalidade e o nosso gosto pessoal. Desse modo, será mais fácil montar um armário inteligente, que funcione de verdade pro nosso dia a dia, sem deixar de lado o que faz o coração bater mais forte e o olho brilhar, mantendo o foco na função e na versatilidade!

Tarde de estilo na Eva

Depois de férias deliciosas no Brasil junto dos nossos familiares e amigos, é hora de voltar pra programação normal! E nada melhor do que retomar nossos papos por aqui contando um pouquinho sobre a tarde de estilo que rolou na loja Eva de Icaraí enquanto eu estava em Niterói!

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Sim, eu trabalhei durante as férias! Foi uma tarde ótima junto da equipe querida da Eva de Icaraí, às vésperas do dia das mães, quando pude orientar um pouquinho as clientes quanto às melhores modelagens e cores para seus tipos físicos e tons de pele em papos descontraídos no provador.

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Em meio aos lindos looks da coleção de outono/inverno, inspirada no Marrocos, escolhi um vestido longo de seda com estampa de oncinha para essa tarde: a delicadeza da seda combinada ao animal print criavam o equilíbrio de que eu precisava para falar de estilo. E a coincidência foi que eu e Rogéria Félix, supervisora geral das lojas da marca, acabamos vestindo a mesma estampa para esse dia, cada uma do seu jeitinho!

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Nessa tarde de estilo, ofereci uma experiência personalizada para cada cliente da loja, procurando entender rapidamente as expectativas e desejos pessoais, sugerindo looks e maneiras especiais de usar cada peça, tornando cada compra uma experiência única!

Uma das clientes da marca é a minha amiga Natália Côrtes, com quem tomei um cafézinho e bati papo antes de montar um look bem fofo pra ela, usando a saia que ela já estava usando com uma t-shirt maravilhosa que tinha acabado de chegar na loja!

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Foi uma tarde muito gostosa nessa loja que eu adoro e que tem roupas com as quais eu me identifico muito. Adorei a experiência de poder colocar meus conhecimentos em prática com mulheres reais, de muitos tipos físicos, tons de pele, gostos e vontades! Aquele agradecimento especial aos gerentes mais do que queridos Bernardo Rangoni e Carolina Porto pela confiança e amizade!

Pra fazer boas compras em brechós

Há algum tempo atrás, fazer compras em brechó só era cool se fosse na Europa. Graças a Deus, observo que essa mentalidade está mudando e tem cada vez mais gente comprando em brechós brasileiros, e que os brechós brasileiros tem oferecido cada vez mais peças muito boas para o consumidor!

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Uma das coisas importantes da consultoria de estilo é trabalhar o consumo consciente, evitando compras impensadas e armário entulhado, facilitando o processo de vestir-se e exercitando o raciocínio e a criatividade. E falar em consumo consciente é também falar de ética e sustentabilidade: é consumir menos, gerar menos lixo pro mundo, e pensar pra quem estamos dando o nosso dinheiro.

Quando a gente se dispõe a visitar brechós na busca de peças para incrementar nossos armários, as vantagens não são só individuais, mas impactam também pro bem do mundo todo. As araras lotadas dos brechós podem desanimar um pouco na hora das compras, mas permitir-se um tempo pra fuçar esses espaços pode ser uma verdadeira caça ao tesouro, encontrando peças únicas e absolutamente incríveis!

Nos brechós, é impressionante a quantidade de roupas boas que são descartadas pelas pessoas: muito mais do que coisas velhas e puídas, as araras dos brechós costumam ser abastecidas com peças das marcas que a gente deseja, e que usam bons materiais, com bons acabamentos e caimentos muito melhores do que a média. Bons brechós selecionam as suas peças a partir de critérios como boa conservação e manutenção, boa aparência e pouco uso, o que resulta num uso esperto do nosso dinheiro. Afinal, mesmo quando foram muito pouco usadas, as peças de marcas boas, e que tem ótima qualidade, são vendidas nos brechós por um preço muuuuuito mas muuuuuuiito menor do que o praticado nas lojas convencionais.

Se as araras dos brechós estão sempre lotadas, isso se deve muito à velocidade insana da produção da indústria, dos preços baixíssimos praticados às custas da precariedade de materiais e da falta de dignidade dos trabalhadores, das propagandas que incentivam as pessoas a comprarem muito e com muita frequência, e a falta de difusão de conhecimento relacionado à responsabilidade que temos que ter ao descartar roupas (e qualquer outra coisa). Quando a gente se compromete a não consumir o que não faz diferença na nossa vida, a gente pára de produzir desperdício e não contribui mais com esse esquema consumista. Pra consumir de modo consciente, é importante parar de levar mais do mesmo e deixar o nosso armário com mais variedade, mais possibilidades de coordenação, mais versatilidade e mais praticidade.

Os brechós também nos ajudam a aperfeiçoar as nossas escolhas, treinando o nosso olhar e dando espaço pra novas ideias surgirem, exercendo a nossa criatividade e verdadeiramente colocando pra fora a nossa identidade na hora de se vestir. Quando uma marca lança uma coleção, ela é pensada para facilitar as coordenações, e a gente acaba se sujeitando àquelas fórmulas prontas que os estilistas propõem. No brechó, a gente acaba sendo o estilista de nós mesmos: pensamos em combinações inusitadas, expandimos as possibilidades e ultrapassamos o limite da zona de conforto ao procurar o que faz sentido pra nossa vida e o que vai, de fato, adicionar ao nosso armário algo de positivo.

Na hora de fazer compras, o planejamento é sempre importante, e a caça aos tesouros nos brechós também requer um planejamento, que deve ser ajustado pra esse tipo de loja. Além de verificar o armário pra ver o que tá faltando e fazer uma lista (tão específica quanto possível) do que precisa ser adquirido, vale a pena saber se há um dia específico em que as araras são abastecidas e programar a visita na sequência desse abastecimento, saindo de casa com uma roupa simples e descomplicada que não vai te desestimular caso os provadores sejam precários.

É importante sempre fiscalizar a conservação da peça (pra não comprar nada furado/rasgado/puído), e, mais do que nunca, ficar de olho nas etiquetas internas das peças, já que os bons tecidos vão durar muito mais, e o preço precisa ser condizente. Etiquetas internas devem estar bem nítidas, principalmente no caso de peças delicadas, que é pra gente saber direitinho todas as instruções de lavagem e cuidado. Se for uma peça bordada e/ou com aplicações, a fiscalização tem que ser ainda mais cuidadosa. Também é bom pensar fora da caixa e prestar atenção no potencial das peças: muitas vezes, uma boa costureira pode transformar aquela roupa e dar maior versatilidade pro nosso vestir diário. Nesse caso, é importante pensar se o gasto total (valor da peça + ajuste) compensa.

Acho que já falei disso por aqui, mas não custa nada lembrar: quando estamos comprando, é fundamental só comprar peças que possam render looks com pelo menos outras 3 peças que já estão no closet. É essa matemática que faz o nosso armário render! Além disso, em qualquer compra é MUITO IMPORTANTE experimentar TUDO. Em qualquer loja, mas principalmente nos brechós, os números das etiquetas não são um guia definitivo pra sabermos o que veste bem, porque a numeração e a modelagem varia muito de marca pra marca, e roupa de segunda mão pode ter sido ajustada, encolhido na lavagem ou cedido com o uso… por isso é muito mais importante prestar atenção ao caimento do que ao número escrito na etiqueta. E jamais compre coisas que não vestiram super bem e que não despertam entusiasmo: a gente tem que amar tudo o que a gente compra, que a garantia de que a gente vai vestir logo e muito!

Ademais, é bom evitar roupas que tenham cheiro forte: os brechós costumam higienizar as peças antes da sua exposição e, se o cheiro não saiu, pode ser que nunca mais saia. É recomendável lavar/vaporizar/higienizar as compras feitas no brechó mais uma vez antes de usar. E, se o seu estilo não combina com o que é vintage, dá pra achar muita coisa atemporal nos brechós: quanto menos cara de tendência datada a roupa tiver, maiores as chances de render bons looks com o que a gente já tem no armário.

Eu adoro o termo “preloved”, usado em inglês para definir o mercado de segunda mão e que, em tradução livre, seria algo como “previamente amado”. Quando colocamos no nosso armário algo que já foi previamente amado, a gente não só ganha um novo amor, mas também prolonga a vida de todas as histórias que aquela peça já viveu.

Sophie Fontanel e 9 dicas de estilo

Sophie Fontanel, que está na casa dos 50, é uma jornalista de moda e autora do livro “A Arte de Dormir Sozinha”, tem um jeito único de se vestir, diferente da maioria das francesas. No seu armário, um mix excêntrico de proporções e roupas masculinas renderam mais de 150 mil seguidores no instagram com suas fotos tiradas no espelho. Esse ícone de estilo deu algumas dicas sobre como se vestir bem, comprar peças vintage, e o que significa ser feminina depois dos 40 para a Vogue em 2016, mas são coisas atemporais e que, na verdade, são lições para todas as idades. Achei que valia a pena registrar aqui, e também complementar com as minhas próprias observações, na busca incessante de inspirar e empoderar mulheres a serem cada vez mais autênticas!

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1- Nossas selfies, nós mesmas

Fontanel disse que costumava pensar que ficava horrível em fotos e que não deveria ser fotografada; se achava feia porque, todas as vezes que alguém pedia para tirar uma foto dela, ela tinha medo e a foto acabava ficando ruim. Isso mudou com o primeiro iPhone dela, quando ela começou a tirar fotos de si mesma e descobriu que, na verdade, ela não era feia e conseguiu olhar pra si mesma com gentileza pela primeira vez na vida. Sophie acha que selfies são importantes para a autoaceitação. Quando ela começou a postar suas selfies no instagram, ficou muito surpresa com os elogios que recebia e, aos poucos, aprendeu como descobrir a si mesma.

2- Não há muita diferença entre saber seus melhores ângulos e conhecer a si mesma

Sophie diz que é muito importante saber qual é o seu melhor perfil, e que precisamos ser amigas de nós mesmas, na nossa própria companhia, para enfim nos revelarmos para o mundo. O autoconhecimento surge desses encontros com nós mesmas.

3- Há muito mais sutileza para a sensualidade do que se pensa

Para Fontanel, é impossível vestir-se de maneira abertamente sensual. A sensualidade deve ser algo sutil. Ela diz que o mais importante é sugerir sem mostrar muito: delicadeza, gentileza, senso de humor, inteligência, expressando o seu verdadeiro eu. A sensualidade não precisa ser óbvia se você não fica confortável com uma saia lápis e saltos altos, por exemplo. Muitas mulheres são muito femininas e se vestem de maneira sensual, expressando a feminilidade da maneira que lhes é confortável. Mas Sophie se sente de uma maneira diferente, e não quer ser um objeto sexual em nenhum momento. De acordo com ela, um dos privilégios da idade é que, se ela quiser gostar de si mesma e desligar a luz do desejo sexual, ela consegue. Fontanel diz que, se na idade dela, uma mulher ficar obcecada com uma imagem sexy, sofrerá muito, porque há mulheres muito mais jovens em todos os lugares e a todo o tempo e, ao invés de competir com as mulheres mais jovens, é preciso encontrar o seu jeito próprio de ser sensual, que pode ser invisível.

4- Saltos altos são ótimos, mas conseguir caminhar é muito melhor

Sophie diz que é obcecada por conseguir caminhar pelas ruas com uma boa allure – que, em francês, se refere ao jeito como você caminha – e ela gosta de se sentir capaz de caminhar facilmente. Se Fontanel usa saltos, ela usa saltos baixos, e diz que gosta de caminhar de um jeito que seria como se um cowboy se misturasse à Audrey Hepburn.

5- Nunca subestime o poder das proporções

Fontanel se define como uma mistura de coisas frágeis, porque gosta de tons de cores bebê, e usa cores muito suaves, ao passo que, de vez em quando, escolhe calças masculinas cinzas. Sophie diz que gosta de comprar roupas muito largas, e que gosta de comprar suas blusas nos flea markets: ela nunca olha os tamanhos, e as vezes podem ser enormes e incríveis. Pra ela, quanto maior, melhor. Ela gosta de cintos porque, com calças e blusas amplas, é preciso um belo cinto para acentuar a sua cintura. Ela diz que pode não ser o melhor estilo de todos, mas que é o estilo dela.

6- Homens morrem de medo das mulheres – devemos usar isso a nosso favor

Sophie diz que as mulheres tem muitos poderes: trabalhamos muito na suavidade nas nossas roupas porque, caso contrário, assustamos muito os homens (e eles se assustam com facilidade). Segundo ela, os homens morrem de medo porque nós mulheres somos pequenas bombas: nós trabalhamos muito, temos ótimos empregos, nos vestimos muito bem, somos comunicativas, divertidas. Isto posto, os homens se perguntam como poderiam contribuir com algo para as nossas vidas, já que somos completas; é por isso que a roupa é tão importante: o ideal é nos vestirmos de modo acolhedor, e não como as guerreiras que somos, porque isso afastaria qualquer pessoa de nós.

7- Saiba como gastar o seu dinheiro

Fontanel gosta de comprar coisas vintage, e cerca de 80% das suas compras são feitas nesse mercado, ao passo que ela compra coisas caras que não são vintages. Compras inteligentes são a chave para um armário prático e completo, deixando a frase “não tenho nada pra vestir” no passado.

8- Aproveite as oportunidades para experimentar

Sophie Fontanel diz que, na França, todos são estilosos, mas o problema é que este estilo pode ser meio chato porque é o mesmo para todas as mulheres: na alta sociedade de Paris, são calças jeans slim, sapatilhas, uma simples t-shirt, um casaco cinza, e um cabelo simples. Essa típica mulher francesa é muito entediante para Sophie, e é por isso que ela se permite tentar de tudo, mesmo se for só pra ver como fica. A jornalista não aceita que a idade dela defina quais os tipos de roupa que ela deve vestir, e incentiva as pessoas a inventar novas versões de si mesmas, sem ter vergonha de experimentar de tudo.

9- Para ser bem vestida, é preciso ser culta

Fontanel é incisiva ao dizer que, para ser bem vestida, é preciso aprender ao assistir filmes antigos, frequentar museus, e também pesquisar na internet. Ela sugere, por exemplo, buscar imagens de Marilyn Monroe, que era muito bem vestida com calças simples. A jornalista destaca a importância de ver outras coisas que vão além das páginas das revistas e editoriais de moda: é preciso ler bons livros, ler poesia, alimentar a sua alma de coisas boas e bonitas, porque só assim você compreende como se vestir bem. Particularmente, eu acho que essa é a dica mais valiosa de todas: afinal, vestir-se é uma parte deliciosa da vida, mas não é tudo o que a gente vive. Muito mais importante do que a roupa que se veste, é a vida que se vive usando cada roupa.

Roupas não-óbvias para trabalhar

Escolher os looks para trabalhar nem sempre é uma tarefa fácil. Na verdade, pode ser bem mais difícil escolher e construir um armário de trabalho do que o seu armário de roupas casuais, dependendo do seu estilo! E é aí que o consultor de imagem pode ajudar – e muito -, traduzindo o seu estilo pessoal para o seu armário de roupas de trabalho, encontrando, junto com você, um jeito de traduzir a sua personalidade para os looks do seu dia a dia profissional. Eu sou fã da alfaiataria da Zara (excelente custo/benefício), e escolhi algumas peças/looks que podem ser encontradas nas lojas para ilustrar esse post.

super formal X formal X informal
super formal X formal X informal: qual é o seu ambiente de trabalho?

Cada ambiente de trabalho requer um código de vestimenta; entretanto, independentemente do código de vestimenta do ambiente onde você trabalha, a roupa de trabalho tem características próprias, que devem evidenciar, ao mesmo tempo e de modo coerente, a sua personalidade e o lugar onde você trabalha. Seja num ambiente de trabalho super formal ou super informal, eu recomendaria sempre fugir de peças muito sensuais, dedinhos de fora, decotes profundos e jeans rasgados. Num mundo cada vez mais conectado e interligado, nós nunca sabemos quando vai surgir uma reunião super importante no meio do dia, que pode até mesmo ser com alguém de um outro universo de trabalho – e você certamente quer que sua imagem seja sempre o mais profissional possível.

Se o seu trabalho é super formal, será bem difícil que os homens consigam fugir do terno e que as mulheres tenham muitas alternativas ao tailleur – afinal, nestes ambientes muito formais, o que se espera é uma aparência mais convencional e séria, traduzindo eficiência e inspirando segurança. Neste caso, já que é praticamente impossível fugir da alfaiataria, de cores mais neutras, das saias na altura do joelho, de decotes mais fechados, e das calças confortáveis e não tão justas, é ainda mais importante prestar atenção na etiqueta de composição das peças, priorizando sempre tecidos de fibra natural, que esquentam menos e deixam a pele respirar com maior facilidade, ou a viscose, e evitando ao máximo o poliéster, o nylon e o acrílico.

Acho que é mesmo nos ambientes mais formais de trabalho que os tecidos e texturas diferentes ganham mais importância, pois poderão adicionar personalidade ao seu look e fazer com que o seu armário diário passe longe da chatice! Tailleurs de linho usados com uma bela camiseta de seda podem ser uma ótima solução para dias muito quentes, ao passo que um tailleur de veludo cotelê será quentinho o suficiente pro inverno e nada óbvio, com uma bela camisa de algodão. É possível incorporar as tendências nesse armário ultra formal: o xadrez (principalmente o Príncipe de Gales) está (e ainda continuará por mais um bom tempo) SUPER em alta. Estampas muito tradicionais podem ser facilmente adotadas nestes ambientes formais de trabalho sem chamar muita atenção.

Se o seu ambiente de trabalho é um pouco menos formal (o que não significa mostrar a barriga, usar saias muito curtas ou muito justas), você tem um pouco mais de espaço de manobra pra se vestir. As cores já começam a ter um pouco mais de chance, e estampas clássicas podem fazer parte do seu look. Neste ambiente de trabalho, o comprimento midi (que é um comprimento da moda) pode ser usado: saias midi ficam ótimas com sapatilhas e, se for rodadinha, não vai grudar no corpo. Eu adoro usar saia midi com t-shirt de algodão no verão: fica bem fresquinho e “arrumadinha sem esforço”, sabe? E dá espaço pra colocar um colar mais comprido (efeito alongador da silhueta!) sem deixar o visual com informações demais. Um look de saia midi com camisa também fica muito chique. Já no inverno, acho que as saias um pouco acima do joelho, em tweed, combinadas com seus blazers, também tem vez – principalmente se usadas com meia calça preta.

Mas se o seu ambiente de trabalho é super informal (por exemplo, no meio artístico ou criativo), o código de vestimento é o mais desencanado, ousado e criativo possível – o que não significa vulgar. Então, mesmo nesses ambientes bem informais, é bom ficar longe de looks que você usaria numa noitada, que sejam muito sensuais, ou que você usaria na academia. Pra quem trabalha nessas áreas criativas, eu recomendaria abusar das estampas e peças em jacquard, e aproveitar pra usar acessórios mais chamativos, mas buscando sempre uma coerência no look – afinal, você não sabe com quem vai encontrar e se relacionar ao longo do dia!

Quanto aos sapatos, o styling dessas fotos não ajudou muito… mas pensemos em scarpins ou sapatilhas sem decotes muito evidentes. Botas baixas ou com salto médio, sem muitos detalhes e/ou ferragens exóticas, também tem sua vez. Em geral, os sapatos que circulam nos ambientes de trabalho não devem ter saltos muito altos nem finos.

E, ao pensarmos no universo das bolsas, livre-se do compromisso de combinar bolsa com o sapato – essa dobradinha não tem mais nada a ver! A bolsa e o sapato devem conversar, mas não precisam ser iguais, da mesma cor ou material.

O armário de trabalho não deve ser muito conservador, já que poderia passar uma imagem de desatualizado, mas também não deve adotar todas as últimas tendências da moda porque, nesse caso, a imagem transmitida pode ser de futilidade. Como sempre, o ideal é ter equilíbrio!